Como o carro a etanol nasceu: a história que transformou o Brasil em referência

Brasil virou maior laboratório mundial de etanol combustível

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Foto: Banco de Imagens Petrobras

Muito antes de os postos brasileiros estamparem “álcool” nas bombas ou de os carros flex virarem regra, o etanol já circulava nos bastidores da história como uma ideia teimosa — reaparecendo sempre que alguém buscava um combustível mais barato, mais limpo ou simplesmente possível. Segundo estudos históricos, esse fio começa no século XIX, passa pelos experimentos de Henry Ford e desemboca no ousado Pró-Álcool, programa que transformou o Brasil no maior laboratório a céu aberto de um motor movido a planta.

Origens e primeiros experimentos

Os primeiros motores de combustão interna puderam operar com uma variedade de combustíveis. Otto, por exemplo, trabalhou com álcool no século XIX, e inventores e fabricantes exploraram tanto óleos vegetais quanto álcoois como alternativas ao querosene e à gasolina emergente. Segundo a apresentação “A short history of the use of renewable ethanol as a transportation fuel” do professor William J. Wells, da Universidade de Otago, combustíveis alcoólicos eram usados em protótipos e em aplicações rurais porque eram mais acessíveis em certas regiões.

Henry Ford e o Model T são frequentemente citados nesse contexto: Ford acreditava que o etanol produzido por agricultores poderia ser um combustível do futuro para motores de automóveis, e há registros de versões do Model T que rodaram com álcool no início do século XX. Entretanto, a consolidação da gasolina como combustível dominante na indústria — por fatores de preço e infraestrutura — limitou o uso do etanol na América do Norte. Pesquisadores que trabalharam a história do Model T, como Marc Rauch, corrigem lendas e mostram que, embora Ford valorizasse combustíveis agrícolas, a transição para a gasolina foi prática e econômica.

Pioneirismo brasileiro: décadas de 1930 e 1940

No Brasil, o uso do álcool como combustível tem registro muito precoce. Já na década de 1930 havia políticas de mistura de etanol à gasolina e iniciativas locais — especialmente no Nordeste, região produtora de cana-de-açúcar — que levaram à criação de usinas para produzir álcool combustível. Levantamentos históricos apontam que, entre 1933 e 1937, a produção e o consumo de álcool combustível cresceram rapidamente, chegando a representar parcela relevante do consumo veicular nacional naquele período.

A virada

O divisor de águas é 1975. Com o barril disparando após o choque do petróleo de 1973, o governo brasileiro enxerga no etanol uma saída estratégica. Foi assim que nasceu o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), instituído pelo Decreto nº 76.593/1975.

Divulgação/Stellantis

Segundo relatório da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o objetivo era claro: estimular a produção de etanol em escala industrial, garantir oferta, criar demanda e diminuir a dependência de combustíveis fósseis importados.

A indústria automobilística entrou na jogada. Em 1979, a Fiat colocou nas ruas o Fiat 147 movido exclusivamente a álcool, considerado oficialmente o primeiro carro produzido em série com esse tipo de combustível. Outras montadoras — como Volkswagen, GM e Ford — logo seguiram o movimento.

Inovação tecnológica

A tecnologia de veículos flex — que permite ao motor identificar e se ajustar automaticamente à mistura de etanol e gasolina — foi desenvolvida no Brasil a partir da década de 1990 e comercializada em larga escala a partir de 2003. Pesquisas técnicas descrevem como sensores, software e ajustes de projeto permitiram que fabricantes oferecessem carros confiáveis e econômicos sem necessidade de tanques ou sensores separados para cada combustível. Esse avanço devolveu confiança ao mercado e levou a uma rápida adoção do etanol na frota brasileira.

Impactos econômicos e ambientais — e controvérsias

Estudos econômicos e ambientais sobre o etanol brasileiro ressaltam benefícios (redução da dependência de petróleo, geração de emprego no setor sucroalcooleiro, diminuição relativa das emissões de CO₂ por quilômetro em muitas condições) e apontam desafios (variações de preço, problemas sociais e ambientais associados a uso da terra e expansão agrícola se mal gerida).

Organizações do setor e pesquisas acadêmicas oferecem dados e metodologias para avaliar balanços energéticos e de emissões, que variam conforme práticas agrícolas, uso de fertilizantes, transporte e processamento.

Por que o etanol nem sempre venceu — e por que voltou a crescer

A trajetória do etanol teve altos e baixos: queda de competitividade com a gasolina em certos momentos, crises de abastecimento no fim dos anos 1980 e oscilações políticas influenciaram a participação do álcool no mercado. Porém, a combinação de políticas públicas, avanços tecnológicos (especialmente o flex) e a competitividade da cana-de-açúcar no clima brasileiro recolocaram o etanol como opção viável e de grande escala. Relatórios setoriais mostram que, nos anos 2000, a porcentagem de veículos flex e a produção de etanol cresceram rapidamente.

Hoje: etanol como política climática e inovação

Atualmente, o etanol segue como peça central da matriz energética brasileira. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, mais de 45% da energia consumida no país vem de fontes renováveis — índice muito superior à média mundial — e o etanol tem participação direta nisso.

Além disso, o setor avança para novos horizontes: o etanol de segunda geração (E2G) e o etanol como base para hidrogênio verde estão entre as inovações citadas em relatórios recentes da Embrapa Agroenergia.

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