PEC da segurança: pesquisadores avaliam limites e possíveis avanços

Proposta foi entregue pelo governo federal ao Congresso este mês

Compartilhe

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública foi entregue no dia 8 à Câmara dos Deputados, pelo Ministério da Justiça. A proposta é uma das apostas do governo federal para ampliar a segurança do cidadão, que prevê, entre outras questões, uma maior integração entre a União e os entes federados e dar respaldo constitucional ao Sistema Único de Segurança Pública (Susp), criado por lei ordinária em 2018.

Segundo o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, a constitucionalização poderia permitir que o Susp funcionasse como o Sistema Único de Saúde (SUS) que, de acordo com ele, funciona bem porque está na Constituição.

O texto da PEC também propõe atualizar as competências das polícias Federal (PF) e Rodoviária Federal (PRF). A PRF, por exemplo, se tornaria uma polícia ostensiva federal, passando a se chamar Polícia Viária Federal, com suas atribuições expandidas para fazer policiamento ostensivo também em ferrovias e hidrovias, além das rodovias, como já acontece atualmente, e para auxiliar as forças de segurança estaduais quando requisitada. 

Outras propostas são a padronização de protocolos, informações e dados estatísticos; a de estabelecer diretrizes gerais para segurança e sistema penitenciário; a de fixar atribuições das guardas municipais e criar corregedorias e ouvidorias com autonomia funcional em relação às forças de segurança que estiverem sob seu escrutínio.

Os fundos Nacional de Segurança Pública (FNSP) e Penitenciário Nacional (Funpen) também estariam previstos na Constituição, a fim de garantir recursos e protegê-los contra contingenciamentos.

Apesar de a PEC trazer pontos positivos, especialistas ouvidos pela Agência Brasil não acreditam que a proposta levará a mudanças significativas nas políticas de segurança pública brasileiras.

“A PEC da Segurança Pública não muda a política de segurança pública, ela não introduz novidades. A gente está numa situação que a gente precisa de políticas efetivas”, avalia a pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Carolina Grillo. 

“Ela [PEC] não oferece uma resposta para a sensação de insegurança da população. Apenas constitucionaliza uma série de práticas que já eram adotadas”, afirma.

José Cláudio Souza Alves, pesquisador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), também considera que, de uma forma geral, a PEC não traz grandes novidades e nem oferece respostas para questões estruturais da criminalidade.

“Isso é para fazer debate entre a extrema-direita e o governo, não traz uma solução real. O problema está lá na base de uma estrutura social cruel, perversa, que não te dá possibilidade alguma e que vai corromper toda essa estrutura de segurança pública. Ou você interfere nessa estrutura, dá alternativas e permite que esse jovem tenha alguma chance de sobreviver a tudo isso com outro tipo de ação econômica, social, política, ou você não vai resolver. [A PEC] É uma ilusão”, afirma o pesquisador, que estuda dinâmicas criminais na Baixada Fluminense, como grupos de extermínio e desaparecimentos forçados.

O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e consultor em Segurança Pública Alan Fernandes, que foi tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo, concorda que a PEC não trará mudanças em curto prazo, mas acredita que “é um aceno de mudanças estruturais, para que os passos iniciais sejam dados”, para mudanças de médio e longo prazos.

“A PEC, ainda que ela não possa ser sentida de imediato pelo cidadão, ela dá as condições de novos arranjos, que o Brasil ainda não dispõe, mas que sem ela não seriam possíveis de viabilizar. Eu acho muito positiva a ideia, porque fez mobilizar diversas forças políticas em prol de um tema que exige uma consideração nacional”, defende o professor.

Susp

Para Fernandes, a PEC fortalecerá o Susp, criado em 2018

“Desde a edição da lei do Susp, careciam instrumentos legais, e até mesmo administrativos, para fazer a implementação dessa lei. Em outras palavras, o governo federal se viu com uma lei de difícil implementação por conta da resistência dos governadores dos estados”, avalia.

O pesquisador explica que a constitucionalização do Susp permite instrumentos como uma coordenação nacional sobre temas de segurança que tenham caráter interestadual.

Carolina Grillo também considera que a constitucionalização do tema da segurança é importante para explicitar as atribuições de cada ente federado, que ainda não estão claras na Constituição Federal.

“A questão da constitucionalização é importante, por exemplo, para padronizar a questão dos dados. A inclusão do Susp na Constituição também é um grande avanço. É muito importante que o governo federal tenha compreendido a relevância da sua atuação na condução das políticas públicas”.

Corregedorias

Carolina Grillo destaca que a autonomia das corregedorias e ouvidorias é outro avanço proposto pela PEC. 

“Isso é fundamental para evitar intromissões no trabalho das corregedorias. Muitas vezes, quando há policiais investigando seus colegas, eles podem ser intimidados pelas estruturas da polícia, o que faz com que as possibilidades de obstrução e de adoção de posturas corporativistas seja muito maior. Então é fundamental que as corregedorias sejam separadas”, observa.

Para o pesquisador José Cláudio Souza Alves, questões como o aperfeiçoamento e a padronização de protocolos e de dados são algo que qualquer estrutura administrativa deve buscar, mas não crê que isso resolva muita coisa.

Ele destaca ainda que a existência de uma corregedoria autônoma, por si só, não garante eficiência do controle sobre a atividade policial. 

“Colocar uma corregedoria sobre uma estrutura que parece um queijo suíço, toda furada, com um monte de gente comprometida [com atividades criminais], como isso vai resolver?”, questiona.

Polícia ostensiva

O pesquisador José Cláudio Souza Alves critica também a ampliação das competências da PRF, que, na prática, cria uma polícia ostensiva federal. Segundo ele, isso seria “mais do mesmo”. 

“Em 2020, aqui na baixada [fluminense], a PRF se juntou à Polícia Civil, e matou 17 pessoas, cinco em Nova Iguaçu e 12 em Itaguaí, em 2 dias. Colocar uma polícia ostensiva federal, armada, para fazer operação, é bater na mesma tecla. Vai intensificar mais os conflitos e não vai resolver nada”, alerta.

Carolina Grillo diz, no entanto, que, na prática, a PRF já atua fora das rodovias e que a PEC vai apenas oficializar essa atuação.

Governo

Durante uma audiência no Senado Federal, em 9 de abril, o ministro Ricardo Lewandowski disse que “a PEC é uma tentativa de organizar o jogo para, em seguida, darmos uma nova partida”. 

“Estamos propondo diretrizes nacionais que serão construídas em diálogo com os entes federativos e com a sociedade civil, sem retirar as competências locais ou comprometer a autonomia dos estados sobre suas forças policiais”, defendeu.

No momento da entrega da proposta à Câmara dos Deputados, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse que a tramitação da PEC é um “debate muito necessário para o Brasil, complementado com outras ações do governo federal, que o Ministério da Justiça e Segurança Pública já tem preparado”.

Recentes
Acidente em cavalgada mata jovem de 22 anos em Jesúpolis
Acidente em cavalgada mata jovem de 22 anos em Jesúpolis
Goiás · 9h
Grupo que investiu R$ 13 mi na Mega terá prêmio de R$ 1,18 mi
Grupo que investiu R$ 13 mi na Mega terá prêmio de R$ 1,18 mi
Goiás · 13h
Agenda Cultural: O que fazer no primeiro fim de semana de 2026 em Goiânia
Agenda Cultural: O que fazer no primeiro fim de semana de 2026 em Goiânia
Cultura · 15h
GCM prende mulher por furtos em série no Setor Garavelo
GCM prende mulher por furtos em série no Setor Garavelo
Segurança · 18h
Mais do PortalGO
Divulgação CBMGO
Adolescente morre e 17 ficam feridos após caminhonete capotar na GO-507
Parte dos passageiros estava na carroceria da caminhonete 02 jan 2026 · Goiás
Foto: Alexandre Macieira | Riotur
Rio recebe título de maior Réveillon do mundo
Guinness oficializa Réveillon de Copacabana como o maior do mundo. Certificado foi entregue ao prefeito Eduardo Paes. 01 jan 2026 · Brasil
Museu em Toronto exibe os piores presentes
O Museum of Bad Gifts, em Toronto, reúne os presentes de fim de ano mais peculiares. A mostra aceita doações e fica em cartaz até domingo 01 jan 2026 · Entretenimento
Freepik
De Resident Evil a 007: 6 jogos muito aguardados para o 1º semestre de 2026
Entre terror psicológico, espionagem e RPG de mundo aberto, os lançamentos prometem movimentar a indústria logo no início do ano 01 jan 2026 · Cultura
Andrey Matveev – Unsplash
Entenda os motivos que levaram à disparada no preço das memórias RAM
Escassez de insumos e controle de estoque pressionam preços 01 jan 2026 · Mundo
Foto: Aaron Burden – Unsplash
Veja o calendário de feriados de 2026
Em Goiânia, feriados municipais caem no fim de semana 01 jan 2026 · Goiás
Retrospectiva 2025: Trump, golpe, Gaga e o maior ano do Fla
2025 viu Trump voltar com polêmicas, um ex-presidente preso por golpe , a morte de um Papa, a eleição de outro, além de guerras e tarifaço. 31 dez 2025 · Variedades
Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil
Mega da Virada: Goiás tem história de sorte com o prêmio
Com prêmio bilionário, Mega da Virada acende esperança em Goiás. Estado já venceu três vezes: em 2012 e duas vezes em 2018. 31 dez 2025 · Goiás
Divulgação Netflix
Stranger Things estreia episódio final nesta quarta
Volume 2 dividiu críticas e impulsionou teorias sobre o destino dos personagens 31 dez 2025 · Cultura
Fim de semana tem show, caminhada e exposição
Foto: Pixabay
O que abre e fecha em Goiânia no feriado de Ano Novo
Serviços essenciais funcionam normalmente durante o feriado 31 dez 2025 · Goiás