Seja pela icônica “Should I Stay or Should I Go” logo na sequência inicial ou pelo vilão meio andrógino e esquentadinho, Far Cry 4 chamou atenção de todos quando saiu em novembro de 2014.
As expectativas eram altas, considerando que o anterior, Far Cry 3, tinha uma história excelente e um antagonista, Vaas Montenegro, que nem era o principal e se tornou literalmente o primeiro rosto de que alguém se lembra quando se trata da franquia. Não cheguei a jogar o título em 2014, mas sim anos depois, bem depois de todo o hype.
E aliás, é isto que esse texto pretende ser, não bem um review retrô, mas um “vale a pena jogar?” depois de tanto tempo.
A primeira sensação que tive entrando foi… caramba, na minha cabeça isso deveria ser muito melhor. A parte gráfica não pareceu tão diferente do antecessor que saiu em 2012, esperava que tivesse algum salto significativo em algum aspecto, mas me pareceu somente que colocaram Jason Brody em Kyrat. Muitas animações permaneceram as mesmas, principalmente a seringa.
Mas acredito que a narrativa conseguiu superar esses detalhes. E olha… que história que mexe com a ética interna do gamer, mesmo aquele que joga GTA teria um pingo de pudor ao fazer certas escolhas.

Você chega ao Himalaia na pele de Ajay Ghale para deixar as cinzas da mãe dele e do nada o transporte que ele está é parado pelas forças de segurança do país. As coisas “saem um pouquinho do controle” e a maior autoridade do país chega e te leva para a casa dela.
Ajay precisa tomar uma decisão difícil: esperar o retorno do ditador Pagan Min, a autoridade máxima do país e o vilão principal, e encerrar a história ali mesmo, ou fugir e mergulhar em uma guerra civil. Nesse caos ele deve decidir seguir ordens dos dois líderes da resistência contra o didator do Caminho Dourado: Amita, uma mulher que parece muito racional em suas escolhas e pouco religiosa, ou então Sabal, um homem mais emotivo e movido pelos costumes, cultura e religião do povo.
No começo parece até uma escolha “fácil” seguir as recomendações da mulher que pensa que a religião local atrapalha o desenvolvimento, pois ajuda a manter tradições que colocam mulheres em posição de submissão a homens, além da problemática do casamento infantil. Mas há o claro dilema ético, Sabal também tem seus pontos a considerar e nem todo mundo se vê atraído pela ideia de um estado que se financia por meio do narcotráfico, mesmo em um jogo.

A religião é importante para o povo. Como cravar que há cultura melhor ou pior do que outra? Como todos sabemos, cultura é muito mais do que o reflexo de uma construção temporal das pessoas de uma determinada região, que tem seus valores, suas histórias e seus desafios. A única coisa certa é de que o progresso chega, de uma forma ou de outra e algo se perde no meio do caminho.
Durante as missões o jogo vai dando deixas, mostrando que talvez o ditador de Kyrat seja a “pessoa mais sensata” naquele lugar. E, se você realizar o final “certo”, coisa que não fiz, pois não tinha essa visão do ditador, todo mundo sai vivo.
A única parte que penso ser meio chatinha é a parte das alucinações, de Lakshmana (sua meia-irmã) e etc. É algo que já foi visto em Far Cry 3 e que nada traz de novo.
Em tese, o final certo seria começar o jogo, esperar na mesa por Pagan e aí ir depositar as cinzas da mãe de Ajay. A segunda opção é deixar a guerra civil começar deixando o castelo e depois não assassinar nenhum dos dois líderes revolucionários, e, quando tudo culminar no retorno e invasão do castelo do ditador, em vez de atirar em Pagan, somente espere e ele se provará como alguém que na verdade nunca quis o matar.
Ele inclusive explica que Mohan Ghale — pai de Ajay e fundador da revolução — matou a sua filha e meia-irmã do protagonista ao descobrir o caso dele com sua esposa. Em retaliação, a mãe de Ajay assassinou Mohan e fugiu para os Estados Unidos com o filho. Isso inflama ainda mais o ponto ético, pois o Caminho Dourado tem um “herói lendário” que assassinou uma criança inocente por ciúmes, e o “vilão” enlouqueceu com a dor por causa desse assassinato, assim, fica complicado traçar uma linha entre quem é bom e quem é mau.
Se optar por não matar o tirano, ele vai embora de Kyrat, muito provavelmente para não ter que encarar os problemas por seus crimes, e deixa o país no seu comando. E detalhe: você ainda pode atirar com uma RPG no helicóptero.
No fim, Far Cry 4 vale a pena ser jogado depois de tanto tempo. Existem mecânicas que o diferenciam do Far Cry 3, mas o que salva mesmo é a narrativa, mesmo que ela não seja cheia de cutscenes cinematográficas.
