Por que os católicos brasileiros trocam a carne vermelha pelo bacalhau na Sexta-Feira Santa? A resposta passa por jejuns medievais, simbolismos bíblicos, a corte portuguesa e a falta de geladeira. O padre Eugênio Ferreira de Lima, em quase 40 anos de sacerdócio, nunca se convenceu da lógica. “Sobretudo porque bacalhau é mais caro do que certas carnes. […] Também não vejo sentido em fazer jejum ou não comer carne e não dar o que deixou de comer para os mais pobres.”
A tradição, no entanto, tem raízes profundas. O historiador André Leonardo Chevitarese, da UFRJ, explica que a abstinência de carne vermelha não é uma questão econômica, mas teológica: trata-se de uma forma de participar simbolicamente do sacrifício de Jesus na cruz. Desde os primeiros séculos do cristianismo, os fiéis praticavam o jejum como penitência. Mas foi na Idade Média que a Igreja passou a especificar quais alimentos deveriam ser evitados.
São Tomás de Aquino, no século XIII, associou a carne vermelha aos prazeres sensuais, especialmente à luxúria, os “pecados da carne”. Assim, abster-se de carne tornou-se um ato de autocontrole. Já o peixe, por sua vez, ganhou um significado especial: os primeiros cristãos usavam a palavra grega ichthys (peixe) como um código secreto para identificar a fé, pois as letras formavam o acrônimo “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Além disso, muitos discípulos de Jesus eram pescadores.
Mas por que o bacalhau, e não qualquer peixe? A vaticanista Mirticeli Medeiros, da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, é categórica: “Não há nenhuma prescrição da Igreja sobre o uso do bacalhau.” A explicação é prática. A corte portuguesa trouxe o bacalhau para o Brasil em 1808. Tratava-se de um peixe seco e salgado, que não estragava facilmente, uma vantagem enorme em um país tropical onde a Quaresma cai no verão e não existiam geladeiras.

Com o tempo, o costume se enraizou. O teólogo Gerson Leite de Moraes, da Universidade Mackenzie, lembra que fomos colonizados por Portugal e influenciados por seus hábitos alimentares.
“O bacalhau, com a praticidade de algo que fazia parte da culinária portuguesa e não se estragava com facilidade, foi inserido. E aquilo foi sendo ressignificado ao longo do tempo.”
Hoje, a tradição se perpetua também pelo mercado. “Vivemos num modo de produção capitalista e quando algo cai no gosto da prática mercantilista comercial, tudo vira mercadoria”, observa Moraes. “Então está aí: ficou sendo uma prática muito explorada até hoje. E os vendedores de peixe agradecem.”
O padre Lima, no entanto, mantém sua crítica: “Às vezes me sinto uma voz isolada nesse sentido.” E conclui que o jejum só faz sentido se acompanhado de caridade.
