Para uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a escola representa muito mais do que um local para aprender o alfabeto ou a tabuada. É o primeiro grande palco de socialização fora do núcleo familiar. No entanto, a inclusão real ainda esbarra em um desafio: a distância entre o diagnóstico na clínica e a prática pedagógica na sala de aula.
Em entrevista ao PortalGO, a psicopedagoga e neuropsicopedagoga Taciana Costa de Faria, de 40 anos, ressalta que a presença física do aluno não garante inclusão. Atuando na equipe multidisciplinar da Affect Centro Clínico, ela defende que a “ponte” entre terapeutas e educadores é o que define o sucesso do desenvolvimento da criança
O Plano de Ensino Individual (PEI) como guia
Um dos pilares dessa integração é o Plano de Ensino Individual (PEI). Segundo Taciana, cada criança autista aprende em seu próprio ritmo, o que exige estratégias personalizadas.
“Nós fazemos visitas escolares e estamos em contato constante para ajudar a equipe da escola a desenvolver o plano de ensino individual. A criança não pode ficar apenas presente no ambiente físico; ela precisa de integração real e aprendizado de conteúdo acadêmico”.
A especialista aponta que a maior barreira atual é a falta de capacitação dos profissionais da educação. Muitas vezes, o professor se sente sobrecarregado por não saber como lidar com crises de desregulação emocional ou como acomodar o aluno sensorialmente.
Inovação com baixo custo
Embora salas de recursos modernas e tecnológicas sejam o ideal, mas nem sempre estejam à disposição em todas as escolas, Taciana destaca que a adaptação sensorial pode ser feita com recursos simples e acessíveis:
- Movimento: Uso de elásticos na base das cadeiras ou bolas de terapia para crianças que precisam de estímulo motor.
- Foco e calma: Caixas sensoriais com texturas, massagens e brinquedos de “abrir e fechar”.
- Proteção Auditiva: O uso de abafadores de ruído, que hoje já tem uma maior aceitação social entre os colegas de turma.
Da escola para a vida

O reflexo de uma boa estratégia escolar transborda para o convívio familiar. O exemplo mais claro é o de Fernando, que após o acompanhamento e adaptação de rotinas, conquistou a liberdade de frequentar restaurantes e pizzarias com os pais — algo que antes era inviável devido à impaciência e desregulação.
Taciana explica que isso acontece porque as habilidades sociais treinadas na escola — como esperar a vez, seguir horários e entender a previsibilidade — são transportadas para o mundo fora dos portões escolares. “O sinal de que a estratégia está funcionando não é apenas a nota, mas a independência. Quando a criança abre a mochila sozinha ou permanece sentada por mais tempo, sabemos que ela está evoluindo”.
Guia para os Pais
A psicopedagoga deixa um alerta essencial para famílias em busca de uma instituição de ensino, ressaltando que a verdadeira inclusão ocorre para além do preenchimento da matrícula. Para diferenciar uma escola efetivamente inclusiva de uma que apenas aceita o aluno em seu espaço físico, os pais devem verificar se a instituição oferece um Plano de Ensino Individual (PEI) devidamente documentado e adaptado às necessidades específicas daquela criança
É igualmente importante que a escola demonstre abertura para receber a equipe multidisciplinar, permitindo que terapeutas visitem o ambiente e contribuam com orientações e estratégias pedagógicas. Somado a isso, deve-se observar o bem-estar emocional do aluno, avaliando se ele se sente verdadeiramente acolhido e feliz no cotidiano escolar.
Taciana conclui reforçando que, embora o conhecimento seja o ponto de partida para o desenvolvimento, o sucesso desse processo exige investimento em capacitação e uma parceria genuína entre a escola, a família e os profissionais de saúde.
Abril Azul
Todo o esforço de integração mencionado por especialistas ganha um holofote necessário durante o Abril Azul. Estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), o mês é dedicado à Conscientização do Autismo, tendo o dia 2 de abril como o seu marco principal.
Mais do que apenas iluminar monumentos com a cor azul, a campanha busca combater o preconceito e disseminar informações fundamentadas sobre o TEA. No contexto escolar, o Abril Azul serve como um lembrete de que a neurodiversidade deve ser celebrada e de que o acesso à educação de qualidade é um direito fundamental, e não um favor.
