O pré-candidato Romeu Zema apresentou seu plano de governo com um conjunto de propostas que, na superfície, buscam dialogar com reformas estruturais, mas, na essência, revelam um movimento político mais claro: o de aproximação com o núcleo duro do bolsonarismo.
Entre os pontos centrais está a proposta de um “novo Supremo”, com mudanças nas regras de nomeação e mandato de ministros do Supremo Tribunal Federal, além de críticas duras à Corte e até defesa de prisão de magistrados. O discurso, longe de ser apenas institucional, entra no campo do confronto direto, um território já ocupado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na economia, Zema mantém a linha liberal: redução de impostos, corte de gastos, privatizações, inclusive da Petrobras, e flexibilização das leis trabalhistas. Um pacote coerente do ponto de vista ideológico, mas que dialoga com uma agenda já conhecida do eleitor, sem grande novidade política.
O ponto de inflexão, no entanto, está na defesa explícita da anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo Bolsonaro. Ao tratar os envolvidos como “inocentes” e negar a gravidade institucional dos eventos, Zema deixa de atuar apenas como candidato e passa a sinalizar posicionamento dentro do campo político.
Essa combinação de críticas ao STF, defesa de pautas duras na segurança e anistia ao bolsonarismo, não parece casual. Indica uma estratégia de ocupação de espaço dentro desse eleitorado, hoje liderado por Flávio Bolsonaro.
Na prática, Zema propõe muito, mas entrega um recado político claro: mais do que construir uma candidatura autônoma, atua como peça de um tabuleiro maior. E, nesse jogo, sua movimentação sugere menos uma disputa direta pela Presidência e mais uma construção de posição, possivelmente como vice, em uma chapa já desenhada no campo conservador.
No fim, o plano revela menos um projeto de poder próprio e mais uma estratégia de alinhamento. E isso, em política, costuma dizer mais do que qualquer proposta.
