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Mabel tem jeito. Goiânia, também. Vejam Iris e Caiado

O texto analisa como percepção, comunicação e estilo de gestão influenciam diretamente a imagem de lideranças políticas e a avaliação do eleitor.

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Foto: Prefeitura de Goiânia; Agência Cora Coralina de Notícia

Primeiro, o óbvio.

O problema de imagem e reputação que prefeitos, vereadores, parlamentares e o presidente Lula enfrentam hoje não é propriamente de comunicação, mas de política e gestão.

Agora, vamos por parte.

Comunicação é vista em geral como algo que se pratica via imprensa, publicidade, redes sociais. Uma ação de dizer e convencer pela frase de efeito, a estratégia do comunicador encarregado.

Só que não.

A comunicação comunica o que há. Quando se mete a comunicar o que não há, tudo dá muito errado. E tende a dar errado demais no exato momento em que deveria dar mais certo: na campanha, para eleição ou reeleição.

Em Goiânia, a comunicação da prefeitura é o prefeito Sandro Mabel. Quando o recurso usado será infrutífero, ou produtivo, se não for representativo dele e de sua gestão. Se ele manda bem, legal. Haverá o que ser dito de bom. Se manda mal, o resultado será igual.

E não se trata de fazer ou deixar de fazer. De mostrar resultados alvissareiros na ponta da caneta. Porque, para muito além da realidade, está a percepção das coisas. Comunicação e percepção são farinha do mesmo saco, para o bem e para o outro lado.

Veja como a Marginal Botafogo virou um problema nesta gestão. Não foi em outras, embora os dilemas de enchentes e desmoronamentos tenham se repetido. Puxe na memória. O que mudou de fato? O comportamento do prefeito.

A decisão de Mabel, no início de sua gestão, de ir pra cima, ser proativo e mostrar-se capaz de resolver o que os outros não resolveram, bater de frente com algo que é maior do que sua retórica – e que contém verdades, como o argumento de que a obra ali é malfeita e tem que ser refeita.

A lógica do eleitor é outra. Não segue o parâmetro, a metrificação, não vai nas graças e na per-ce-pção do cidadão que anda na via ou que vive numa cidade alagada e que incomoda os seus interesses diários. Cadê o prefeito? Gestão que resolve? Resolve atrapalhar, quando não ata nem desata o nó, só fica nos memes e vídeos e palavras de ordem ao povo? Assim é, se (lhe) parece.

Ao criar expectativa de solução para o que demanda uma engrenagem com idiossincrasias muito próprias, a da máquina pública – novamente: algo muito longe da lógica empresarial própria e de mercado –, o que se produz de concreto não é solução, mas percepção de fracasso. Frustração. Obra aberta a questionamentos e pouca ou nenhuma defesa orgânica essencial paralela à contratada.

E um cidadão frustrado é potencialmente um eleitor que caminha do contrariado para o revoltado, raivoso e, enfim, vingativo nas urnas. Pior fica essa matemática política quando acrescida de um outro sentimento nas pessoas: o ‘deixa pra lá, ele não tem jeito e na hora certa a gente acerta as contas’.

Lula pra lá e pra cá

Lula reiterar que está fazendo uma boa gestão, e que merece esse reconhecimento, não muda nada na fila do pão, como se diz. Talvez até irrite mais os brasileiros e brasileiras, que não sentem na pele o que ele prega que há em seu governo. É este o seu maior adversário na campanha: a percepção, que leva à decisão do voto ou não.

Lula tem alguns meses para reverter – ou não – o seu dilema. Mabel tem mais tempo, já que este ano não disputa reeleição. Sobre o prefeito, porém, se diz uma coisa nos bastidores: ele está juntando dinheiro em caixa, quer chegar a uns 4 bilhões de reais, para então deslanchar.

Seus aliados, os que torcem pelo seu sucesso, é que repetem o argumento como uma boa nova. Dizem com força porque querem muito isso. Querem enxergar nas ações de Mabel uma lógica inteligente, estratégica, persuasiva (esperança no que vem), uma lógica genial de gestor genial para mostrar que estava tudo sob controle o tempo todo. Que ele tinha um plano desde o início.

Querem enxergar. A frase é esta porque é visível que não enxergam bem o que está acontecendo. Ele aguenta o tranco das críticas e cobranças? Muito bem. Ele é um gestor reconhecido na iniciativa privada? Pois então. Ele não é ativo e trabalhador? Claro. Então vai dar certo, raciocinam e respiram fundo.

Enquanto isso, a culpa vai sendo jogada na comunicação. Na falta de recursos (claramente uma economia de investimentos por ora está em andamento) para a área. Na incompreensão dos goianienses sobre o que acontece e o que é feito de bom o tempo todo.

Lula tem sido igualmente questionado sobre a eficácia de sua comunicação. Sobre o que não é sabido e percebido pela população. No entanto, tudo gira em torno do que o governo, e ele em particular, comunicam o mais das vezes. O ruído disso, das entranhas políticas, afeta a compreensão do todo. Como se dá com Mabel.

A decisão de agir assim produz consequências naturais. A oposição a Lula está mais aguerrida. A oposição a Mabel está estridente. E todas as negociações ficam mais difíceis, mais caras e mais elásticas nos dias e nas trocas (vereadores com obras medidas por mês no orçamento; emendas ao orçamento acertadas a rodo), simbólicas ou não.

Os mecanismos internos de uma gestão dizem tudo sobre esta gestão. Isso emana, vai no ar que respiramos pela cidade. E consolidam imagem e reputação. Mabel fazer todas as maldades e aguentar todo o peso do mundo contra ele agora pode até significar obediência a um preceito maquiavelista elementar. Porém, a leitura seca de um texto não quer dizer compreensão.

As palavras carregam nuances. Os sentidos levam no corpo a corpo a alma da compreensão que supera as definições de dicionário. Fazer todas as maldades de início para depois entregar as bondades não é um processo cartesiano em si. É uma tarefa e exercício de execução emocional acima de tudo. Sem emoção não há gestão que resista. Sem tesão de cidadão/eleitor não há tesão de gestor que sobreviva.

O jeito Iris deu jeito em Goiânia

Inevitável lembrar aqui o ex-prefeito Iris Rezende, que calculava seus passos em tempos precisos. Ele conhecia o timing das coisas e das pessoas. Reparem que em suas gestões ele segurava o caixa no primeiro ano e deixava todos inquietos.

No segundo ano ele ainda apertava o orçamento, mas já ia dando fôlego às licitações e fazendo o que a estrutura permitia, dando ênfase a cada passo avançado em comparação ao travado. O terceiro ano era uma abertura de mão calculada, acenos, para que no quarto ano a colheita pudesse acontecer naturalmente e em alto e bom som.

Só que isso era feito com uma outra ação bem dosada de comunicação aliada nos gestos e na condução administrativa: o tempo todo apoiada no contato carinhoso e sistemático com a população. Nessa pegada é que entravam os mutirões, as entregas de obras pontuais e menores (praças, reformas, postos de saúde, salas de aula), e a presença eventual (ou constante, quando necessário) na imprensa com um discurso não de enfrentamento, mas de acolhimento e posicionamento.

Iris dialogava com a população enquanto segurava as contas e ajustava a máquina pública. Não provocava o eleitor. Não o desafiava. Não partia para contra-ataques ao menor sinal de contrariedade. E nem por isso deixava de ser duro no trato, no dia a dia com sua equipe. A mesma equipe que era forçada a dar respostas de manhã, tarde e à noite à imprensa, por exemplo.

Iris era governo e ocupava espaço de oposição. Tudo ao mesmo tempo e em proporção desigual, quando conveniente. Em vez de combate, ele se estabelecia e se promovia sem perder uma oportunidade sequer de estar com as pessoas, para abraçar, sorrir, pegar na mão, mostrar-se acessível em vez de infalível.

Iris era um comunicador exemplar, porque fugia ao convencional. Enquanto cobravam dele mais gastos com mídia, ele dosava os investimentos na área ao mesmo tempo que se dedicava com afinco a movimentações de comunicação direta, e que eram movimentações de gestão objetiva, na porta de casa.

Ele contar histórias tinha um sentido maior que estar velho e “se repetir”, como muitos diziam. Repetir mensagens (“Só me candidatei de novo porque sentia o dever de consertar o que meu antecessor desarrumou”, repetia, nas suas palavras), martelar conceitos, insistir em teses de resistência… Isso é comunicação política na acepção perfeita do termo.

Não vamos longe. Ele ir a um bairro no final do dia (prática comum que adotava) com todo o secretariado (quem não fosse recebia reprimenda dele, normalmente com ironia fina, provocativa) para entregar uma praça, descer do carro, cumprimentar os moradores locais e depois se despedir, não era um fato isolado.

Era uma prática que traduzia seu jeito, mostrava um propósito de administração voltada ao bem-estar dos moradores, e que virava ato-falando (ato, e também alto) de seus feitos, que iam das grandes realizações até estas, menores, embora aconchegantes.

O jeito Iris foi o mote de sua última gestão (quando sacada perfeita de marketing encontra lastro justo na gestão e no gestor). Porque ele tinha um jeito próprio, isso era reconhecido, consolidado, pacificado sobre sua competência e seu comportamento.

O seu jeito transmitia solução, alteridade, era um canhão de audiência para sua figura (persona, como queiram) histórica. O seu jeito tinha identidade – a sua. O seu jeito encontrava eco aos olhos de quem estava sentindo e observando o que acontecia na cidade. Falava aos ouvidos e ao coração. E assim era ouvido com atenção, com sinceridade recíproca.

Caiado e a conexão popular

Vejo muito o questionamento sobre como o governador Ronaldo Caiado tem aprovação tão alta se as obras físicas não são volumosas. Mas lembrem de seu primeiro ponto de largada: somos todos Goiás. Autoestima. Que estava abalada. E reparem como ele usa dessa premissa em seu posicionamento de vida. E como se conecta com as pessoas.

Nada de reduzir toda explicação para sua boa avaliação a isto. Mas a chave está no que ele expressa, no que ele faz as pessoas sentirem. Caiado mexe com instintos, e faz isso de forma que ninguém fica indiferente. Não é por acaso que a per-cep-ção de segurança – lastreado na realidade, diga-se – em Goiás é seu ativo de frente. Carro-chefe de seu discurso como pré-candidato a presidente da República.

Mabel foi eleito na expectativa de ser o melhor gestor que Goiânia já teve. ‘Vendeu’ isso e age como tal. Ocorre que o ato de vontade, sem a realidade e, mais que tudo, a percepção dessa verdade, jamais será História.

O sucesso de sua gestão está nos seus atos e na compreensão deles pelas pessoas. A eficácia de sua comunicação começa e termina nele, e assim será até o final. E é algo que está sendo construído agora, neste exato momento. Não dá pra ser adiado ou jogado para o canto de uma visão equivocada do significado de comunicação.

O que dizem que comunicação é, não é o que comunicação na prática é.

Goiânia, gestão que dá certo

Goiânia merece uma gestão boa de Mabel. E isso passa pela percepção de que é boa para o cidadão. E essa é outra ponta da comunicação pública e de uma gestão.

Gestão que produz muito barulho dá a entender que é uma gestão que não faz nada. Pode até fazer, e geralmente mesmo as pessoas fazem coisas boas. Mas se a visão geral é de que não está tudo bem, o saldo será sempre o de que tudo foi muito mal. Rogério Cruz que o diga. E Paulo Garcia.

A cidade que foi eleita na campanha de 2024 carrega esperança em cada esquina. Uma cidade que funciona. Que é acessível, que entrega resultados positivos na educação, na saúde, no meio ambiente, na conservação das ruas, na resolução desse imbróglio público que virou a Marginal Botafogo. Marginal: já começa no nome.

Mabel precisa dar certo porque Goiânia dá certo. E não foi casual o uso indireto aqui de uma das frases de resistência do governo estadual: Goiás, um estado que dá certo. Só a lembrança de uma comunicação que comunica uma gestão, que por sua vez dá voz à sua comunicação: as duas coisas funcionam juntas porque vai na veia, no ponto certo da percepção das pessoas.

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