Taxar aviões da Embraer seria problemático para os EUA

Fabricante brasileira é peça-chave na aviação regional dos EUA e tem parte da produção em território norte-americano.

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Foto: Lucas Caetano

O anúncio das tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos, impulsionado pela agenda protecionista e, encarada por uns como tentativa de interferência na soberania brasileira, colocou em alerta diversos setores exportadores, principalmente a Embraer.

Embora a medida mirasse especialmente itens como aço e produtos agrícolas, a possibilidade de taxar aeronaves civis gerou um grande burburinho no setor. No entanto, o governo americano enfrentaria obstáculos econômicos e logísticos significativos se optasse por incluir os aviões da fabricante brasileira na lista de produtos tarifados.

Empresa Brasileira de Aeronáutica

A Embraer é a terceira maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo, atrás apenas da Boeing (EUA) e da Airbus (Europa). Fundada em 1969 como uma empresa estatal, a Embraer surgiu com o objetivo de desenvolver a indústria aeronáutica brasileira e, desde então, se tornou um símbolo de inovação tecnológica e referência global no segmento de jatos regionais, executivos e aviões militares.

Privatizada em 1994, durante o governo de Itamar Franco, a companhia manteve uma forte relação com o governo brasileiro, especialmente em contratos militares e de inovação estratégica. Sua sede fica localizada em São José dos Campos (SP), mas sua atuação é internacional, com fábricas, centros de engenharia e escritórios em países como Estados Unidos, Portugal e China.

O portfólio da Embraer é dividido em quatro unidades de negócios principais:

  • Aviação Comercial: É o carro-chefe da empresa. A linha E-Jets, especialmente os modelos E175, E190 e E195-E2, é amplamente utilizada por companhias aéreas no mundo inteiro, com destaque para os EUA e a Europa.
  • Aviação Executiva: Com modelos como o Phenom 300 e o Praetor 600, a Embraer disputa mercado com nomes como Gulfstream e Bombardier, oferecendo aviões de pequeno e médio porte com tecnologia de ponta.
  • Defesa & Segurança: Desenvolve e fabrica aeronaves militares, como o cargueiro multimissão KC-390, usado pela Força Aérea Brasileira e por outros países.
  • Soluções e Serviços: Responsável por manutenção, modernização de aeronaves e suporte global, o setor responde por uma parte crescente das receitas da empresa.

Em 2023, a Embraer entregou 181 aeronaves, sendo 64 comerciais e 117 executivas, com um faturamento de R$ 26,3 bilhões e lucro líquido de R$ 943,6 milhões. A receita do setor de serviços já representa cerca de 30% do total da companhia, mostrando a importância da diversificação.

A empresa conta com mais de 19 mil funcionários em todo o mundo, dos quais aproximadamente 2.500 diretos estão nos Estados Unidos. Em solo estadunidense, a Embraer mantém fábricas na Flórida, um centro de manutenção no Texas e parcerias com empresas locais para o fornecimento de peças e sistemas, como motores e aviônicos.

A atuação internacional da Embraer também inclui investimentos em mobilidade aérea urbana por meio da subsidiária Eve Air Mobility, que desenvolve eVTOLs (veículos elétricos de decolagem e pouso vertical). A expectativa é que os primeiros voos comerciais aconteçam a partir de 2026.

Em termos de governança, a Embraer é uma empresa de capital aberto, listada nas bolsas de São Paulo (B3) e Nova York (NYSE), com controle pulverizado. O governo brasileiro detém uma golden share, que lhe garante poder de veto em decisões estratégicas — especialmente em áreas sensíveis como defesa.

A relação com os Estados Unidos

A Embraer é uma das principais fornecedoras de aviões regionais para o mercado dos Estados Unidos. Cerca de 45% de suas exportações comerciais e aproximadamente 70% de seus jatos executivos têm como destino o mercado norte-americano. A dependência é tamanha que o CEO da companhia comparou o impacto potencial de tarifas pesadas a um novo “choque de pandemia”, fazendo referência ao prejuízo causado pela Covid-19.

O impacto econômico direto de uma tarifa de 50% elevaria o custo de cada aeronave em cerca de US$ 9 milhões. Considerando o volume projetado de entregas, a Embraer calculava perdas da ordem de US$ 360 milhões apenas em 2025, com prejuízos acumulados que poderiam ultrapassar US$ 3,5 bilhões até 2030. Estimativas apontavam que o lucro operacional da empresa (EBIT) poderia cair em até 60%, comprometendo a sustentabilidade do negócio.

Outro ponto sensível é que os aviões da Embraer são fundamentais para a aviação regional nos EUA. Modelos como o E175 compõem uma parte expressiva da frota das grandes companhias norte-americanas, respeitando cláusulas sindicais que limitam o tamanho de aeronaves operadas por subsidiárias regionais.

A imposição de tarifas poderia inviabilizar novas entregas e forçar as empresas aéreas a revisar suas malhas, gerando pressão política e operacional dentro dos próprios Estados Unidos.

A cadeia de suprimentos também se estenderia ao território norte-americano. A Embraer mantém instalações de montagem na Flórida e um centro de manutenção no Texas. Além disso, aproximadamente 50% do valor agregado de seus jatos executivos é composto por peças e sistemas fornecidos por empresas americanas — motores, aviônicos e outros componentes —, o que já justificaria isenções parciais ou totais das tarifas.

A pressão para excluir os aviões da lista de produtos tarifados também veio das companhias aéreas norte-americanas, receosas de atrasos e cancelamentos em entregas. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) alertou para os efeitos negativos da insegurança jurídica e econômica, com possível recuo nos pedidos.

Vale lembrar que, historicamente, os Estados Unidos adotam uma postura de não taxação para aeronaves civis, baseada em acordos internacionais e regras da Organização Mundial do Comércio. Um exemplo disso é o Acordo sobre o Comércio de Aeronaves Civis de 1979, um pacto multilateral que eliminou tarifas de exportação globalmente, servindo de precedente para manter o livre comércio no setor.

A isenção concedida recentemente às aeronaves da Embraer, mesmo diante do novo pacote tarifário, mostra que o governo norte-americano reconhece os riscos e prejuízos de retaliar um setor altamente interdependente.

Diante desse cenário, a taxação de aviões civis da Embraer se mostrou economicamente contraproducente e logisticamente complexa. Ainda que a ameaça tenha feito parte de um discurso político, a medida traria mais perdas do que ganhos para os próprios Estados Unidos, afetando empregos, fornecedores e a conectividade aérea regional.

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