A divulgação de mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro deflagrou, em menos de duas semanas, uma das crises mais agudas da história recente do Supremo Tribunal Federal (STF). O confronto público entre Alexandre de Moraes e André Mendonça arrastou para o centro do impasse a cúpula da Corte, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a direção da Polícia Federal (PF).
Nesta terça-feira (15), o plenário analisa a Petição 16.662, que reúne o material sobre as conversas atribuídas a Vorcaro e Moraes. A sessão não julga crimes nem avalia o mérito de eventuais condutas. O foco é estritamente processual: os ministros devem decidir se o procedimento aberto por Mendonça é juridicamente válido, se relatórios da PF cumpriram o rito legal e se cabe a abertura de inquérito formal. As acusações mútuas feitas por Moraes contra Mendonça serão apreciadas em sessão separada, marcada pelo presidente Edson Fachin para o dia 23 de setembro.
Caso você, leitor, tenha se perdido no meio de tantas decisões, o PortalGO organizou uma cronologia de tudo o que já aconteceu. Confira abaixo
Linha do tempo
- 1º de setembro (Abertura do relatório): Mendonça retira o sigilo de relatório da PF com 52 mensagens atribuídas a diálogos entre Vorcaro e Moraes. O texto cita reuniões, menções ao escritório de advocacia da família do magistrado e pedidos de auxílio do banqueiro. O procurador-geral da República, Paulo Gonet — também nominalmente citado nos arquivos —, reage de imediato e requer a anulação do procedimento por usurpação de competência.
- 2 de setembro (O outro lado da relação): A crise alcança Mendonça após a revelação de encontro do ministro com Vorcaro em março de 2025 e de tratativas para a confecção de trajes em uma alfaiataria. Mendonça confirma ainda a tomada de depoimento conduzida por seu juiz auxiliar em agosto, mas nega menções prévias a Moraes na oitiva.
- 3 de setembro (Moraes contra-ataca): Moraes protocola na Presidência relatórios de inteligência policial e acusa Mendonça de abuso de autoridade, desvio de finalidade e direcionamento de investigações ligadas ao Banco Master e a fraudes do INSS. Mendonça rebate a ofensiva e cobra esclarecimentos sobre possível monitoramento clandestino de sua rotina pela corporação.
- 4 a 6 de setembro (Intervenção da Presidência): Fachin instaura procedimentos próprios para as petições cruzadas e avoca a coordenação da crise. No domingo (6), Mendonça libera a análise do caso Moraes para o plenário.
- 8 e 9 de setembro (Guerra de liminares na PF): Mendonça acolhe pedido parcial do partido Novo e afasta o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada. Na manhã seguinte, Flávio Dino concede liminar que devolve os cargos aos delegados. Horas depois, Fachin cassa ambas as decisões individuais, mantém a cúpula policial nos postos, suspende a tramitação da Pet 16.662 e retira Moraes do comando do inquérito das fake news.
- 10 de setembro (Sessões canceladas e nova frente): Fachin cancela reuniões presenciais do colegiado pelo segundo dia consecutivo. Paralelamente, avança apuração sob a relatoria de Dino sobre suposto desvio de emendas parlamentares na produção do filme Dark Horse, obra cinematográfica sobre Jair Bolsonaro.
- 11 de setembro (A disputa pela publicidade): Pressionado por acusações de divulgação seletiva, Mendonça levanta o sigilo de 39 investigações conexas ao caso Master e ao INSS. O material expõe frentes contra congressistas de diferentes correntes — como Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Ciro Nogueira e Jaques Wagner —, além de documentos sobre monitoramento ilegal de adversários por grupos ligados ao banco.
- 12 de setembro (Separação de ritos): Fachin rejeita pedido de Moraes para julgar os dois ministros no mesmo dia. O presidente assume formalmente a relatoria da Petição 16.662, requisita autos de apurações conexas e marca o julgamento de Mendonça para 23 de setembro.
- 13 de setembro (Batalha pelos dados brutos): A PF informa a posse íntegra do material apreendido com Vorcaro e declara capacidade técnica para extração de cópias espelho lacradas. Cristiano Zanin e Gilmar Mendes exigem acesso à íntegra dos dados para sanar assimetrias probatórias. Mendonça rebate que a juntada repentina tumultua o plenário e afirma que sua cópia permanece intacta e sob lacre.
- 14 de setembro (A Operação Transparência): A PF cumpre mandados de busca contra o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), aliado de Mendonça e facilitador do encontro de março de 2025 com Vorcaro. A investigação apura tráfico de influência e corrupção em disputas judiciais, mas a corporação ressalta formalmente a ausência de indícios contra membros da magistratura.
O impasse institucional
As apurações arrastam menções a outros ministros do STF e lideranças políticas, sem que meras citações em relatórios policiais signifiquem culpa ou prática criminosa comprovada.
Ao analisar o caso nesta terça-feira, o Supremo enfrenta muito mais do que a conduta individual de seus magistrados. O julgamento define os limites de atuação monocrática de relatores, fixa regras para a abertura de apurações internas contra pares e tenta restabelecer a estabilidade operacional de um tribunal fraturado por decisões cruzadas.
