Em uma tirada sabor ironia, o candidato do PL ao governo de Goiás, Wilder Morais, cutucou o ex-aliado e prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa: “sabor direita”.
Wilder não é do ramo. Márcio, sim.
Bom de vídeo, em alta na aprovação popular, com seu jeito todo agitado por natureza, espontâneo como Wilder nunca será, Márcio sabe ser ferino na ironia e no (contra)ataque.
A resposta do prefeito foi dada em uma narrativa calculada.
Márcio foi a uma frente de trabalho na cidade, à noite. Cumprimentou os trabalhadores, conversou, mostrou que estava ali resolvendo a vida dos moradores. Não estava à toa na vida.
Em determinado momento, de forma natural, ele olhou para a câmera, com sorriso maroto, provocativo, e começou o show.
Desfiou, dirigindo-se ao público e a Wilder: “Poderia ter citado aí… sabor (Carlos) Cachoeira, sabor (Alexandre de) Moraes, sabor (Jorge) Messias, sabor rabo preso, sabor preguiça…”
Em poucas palavras, uma descrição das contradições e ligações mal explicadas, disseminadas sobre as escolhas e o comportamento político de Wilder, com seu barco para recepção a autoridades em Brasília, suas ligações pessoais, seu não-voto contra a indicação do nome de Lula (PT) para o STF.
Em poucas palavras, e com dentes expostos, uma radiografia certeira do ex-companheiro, ou ex-amigo. Certeira porque representativa de pontos nevrálgicos da biografia de Wilder, um bolsonarista não tão raiz, como se vende e como a história política de Goiás revela.
O desacerto entre Márcio e Wilder se deu no momento em que o prefeito declarou apoio à reeleição de Daniel Vilela (MDB) ao governo. Wilder tinha certeza de que esse apoio seria dele, pelo PL que os resguarda.
Wilder reagiu, quando do anúncio: “O lado certo tem coragem, gratidão e lealdade.” No que Márcio rebateu: “Tenho buscado ser coerente nas minhas escolhas, no meu trabalho, no meu discurso, mas também na minha história. O futuro tem nome e endereço: é Daniel Vilela governador.”
Amigo antigo de Daniel, Márcio era do MDB quando decidiu sair candidato a prefeito de Anápolis. Foi para o PL em um arranjo combinado entre os dois partidos, um presidido por Daniel e o outro, por Wilder. Todos comemoraram.
Márcio não apoia Wilder. Mas já declarou apoio a Flávio Bolsonaro presidente, Gustavo Gayer senador e Major Vitor Hugo deputado federal. Está contra o PL?
Na troca de gentilezas (contém ironia), Wilder chegou a ponderar que, na eleição para prefeito, deixou de apoiar o adversário político de Márcio, o ex-prefeito Roberto Naves (Republicanos), para ficar do seu lado.
Aí reside a cobrança por “lealdade” nesta campanha. A bronca do senador.
E aqui a ironia sobe escadas.
Wilder foi secretário no governo de Ronaldo Caiado (PSD), que apoia Daniel. Wilder não apoia Caiado presidente.
Wilder foi secretário no governo Marconi Perillo (PSDB). Hoje é adversário de Marconi ao governo.
Wilder virou senador em 2012 com a renúncia de Demóstenes Torres, que estava no então PFL, junto com Caiado, todos apoiando Marconi para governador.
Roberto Naves é da base de Daniel e Caiado. Era na época da eleição para a prefeitura, e continua lá.
Tem mais. Wilder abriu conversa sobre aliança com Caiado e Daniel para a eleição deste ano, até decidir pela candidatura própria. Esteve com eles. Negociando.
E Gayer, apoiado por Wilder, quase foi candidato a senador em chapa que uniria União Brasil, PSD, MDB e PL numa mesma aliança. Conversa que foi entabulada com aval e presença de Flávio Bolsonaro.
Flávio conversou com quem, mesmo? Com Caiado e Daniel. Onde? No Palácio das Esmeraldas.
Wilder acusou Márcio de ter mudado de lado. “Eu tenho certeza, isso só aconteceu porque o presidente Bolsonaro está preso injustamente, sem poder reagir. Se ele estivesse livre, essa coragem não existiria. Jamais o Bolsonaro permitiria que alguém que escolheu caminhar contra o Brasil permanecesse no PL. Certamente seria considerado um traidor”, chegou a falar.
Lado a lado com os fatos, ele está falando de que lado, nessa história?
Wilder quer Márcio fora do PL. O prefeito devolve ironias, no vídeo.
“O seu sabor, senador, é o sabor amargo da derrota, por essas atitudes”, diz. E aponta que, no debate realizado na PUC TV, só o que fez foi “ficar sorrindo e elogiando” os adversários. “Não apresentou proposta consistente.”
Márcio resume o que o motivou a sair “desse barco que está afundando”, “desse projeto falido, inconsistente”, que define ser a candidatura de Wilder ao governo: “Todo dia é um desembarcando por causa dessas atitudes imaturas.”
Antes da ironia final, a ironia fina: “Sou candidato não”, tá “desperdiçando tempo precioso (comigo)”; “Tinha que gastar esse tempo apresentando propostas e projetos consistentes que resolvam a vida do cidadão.”
Por fim: “Vê se me esquece, vai gastar a sola de sapato”, diz Márcio, que recomenda ainda ao senador calçar “botina” de trabalhador. “Vai honrar esse partido, porque até agora o senhor está num projeto furado. Candidato sabor preguiça.”
O grande problema de Wilder Morais é ele mesmo. Sempre. O maior adversário de Wilder é o Wilder que não se materializa na campanha.
Wilder foi um pré-candidato que não fez pré-campanha. E é um candidato que não faz campanha.
Sua vice, Ana Paula Rezende, faz mais pré-campanha e campanha do que ele. Ana Paula quer ganhar e trabalha por isso; Wilder espera ganhar: espera que o bolsonarismo ganhe por ele e para ele.
Wilder vive à espera de um milagre. O milagre da enchente de apoios dos bolsonaristas na reta final para levá-lo ao 2º turno e à vitória. (Veja link abaixo).
Daniel e Marconi observam, na premissa de que, quando o inimigo está errando, o melhor é não fazer nada, para não atrapalhá-lo.
E não percam de vista: Márcio Corrêa, Vitor Hugo e Gustavo Gayer estão do mesmo lado. O PL tá On.
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