A Polícia Federal investiga se o presidente do PL (Partido Liberal), Valdemar Costa Neto, comandou um esquema clandestino que desviou R$ 119 milhões em emendas parlamentares. Nesta sexta-feira (10), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a suspensão dos pagamentos das emendas ainda não executadas e o bloqueio de bens do dirigente partidário no mesmo valor.
A PF aponta que Valdemar, na condição de ex-deputado federal, não poderia indicar emendas parlamentares; prerrogativa exclusiva de quem exerce mandato. Para contornar essa limitação, deputados eram falsamente incluídos como “solicitantes” das indicações, conferindo aparência de legalidade. As indicações de Valdemar eram planilhadas e encaminhadas diretamente aos ministérios responsáveis pelos programas.
A investigação identificou 21 emendas suspeitas, indicadas entre junho de 2024 e março de 2026. A maioria já foi paga. O valor total se aproxima de R$ 120 milhões.
A decisão judicial
“O encaminhamento direcionava essas emendas alocando, falsamente, deputados federais como ‘solicitantes’ das indicações, a fim de conferir ares de legalidade às indicações formalizadas conforme diretrizes de um não parlamentar”, escreveu Dino na decisão.
O ministro também destacou o “volume considerável de emendas parlamentares indicadas por uma pessoa não detentora de mandato“.
Origem do caso
A representação da PF é um desdobramento da Operação Transparência, deflagrada em dezembro de 2025, que teve como principal alvo a servidora da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como Tuca. A análise de seu celular revelou um “arranjo funcional informal” que envolvia outros dois servidores: Nara Brum e Garigham Amarante Pinto.
O diálogo revelador
Em 25 de agosto de 2025, Garigham escreveu a Mariângela: “Marquei com o Valdemar amanhã 10h30. Acho que ele vai jogar no turismo os 24. Pode ser?“. No dia seguinte, Mariângela respondeu: “Se puder trocar tudo turismo ótimo“. Garigham confirmou: “24 milhões tá bom“.
Dois dias depois, Nara Brum enviou uma planilha chamada “Alteração em Turismo – VCN” e explicou: “O Valdemar pediu para trocar algumas das indicações que ele fez ontem em turismo, porque os municípios não iriam conseguir executar“.
Para a PF, os servidores “têm plena consciência da clandestinidade dessa atuação e tratavam emendas como cotas privadas de agente estranho ao cargo“.
As defesas
Os advogados de Valdemar negaram a prática de crimes e afirmaram que é “natural e legítimo, no sistema democrático, que um presidente partidário dialogue com parlamentares, defenda prioridades programáticas, articule interesses nacionais e regionais e influencie politicamente sua bancada“.
A defesa de Mariângela sustentou que sua atuação foi “estritamente técnica, apartidária e impessoal“. Garigham declarou que é técnico e não tem o que comentar. A reportagem não conseguiu contato com Nara Brum.
Com a decisão de Dino, os pagamentos pendentes estão suspensos e os bens de Valdemar, bloqueados. A investigação prossegue. Se confirmadas as irregularidades, o valor será cobrado para ressarcimento aos cofres públicos.
