A grande comunidade de São Miguel do Passa Quatro, composta à época por cerca de duas mancheiras de insistentes moradias próximas ao córrego que lhe deu o nome, foi assombrada uma época por fantasmas. Sim. Até pouco tempo, muitos se lembravam disso. Virou história passada pra frente. E registrada em livro.
Na fantasmagoria do dia e da noite, o sino da igreja batia inesperadamente. O povo se reunia assustado pra assuntar o que acontecia, ruminar conjuminações, desentender-se nas formulações expostas em voz alta com entusiasmo. Uns poucos só miravam, só admiravam. E a meninada se expandia na algazarra.
Foi assim por vários dias. Até que o mistério foi revelado. Tudo não passava de traquinagem. E das mais bem urdidas. Quem quiser saber o resto da história, pode ler o causo que está entre os muitos publicados nas páginas de ‘O Sino da Igreja’. Ou espere o final deste texto. Sabendo desde já que o spoiler será por sua conta e risco.
Foi por este livro que fiz uma das maiores descobertas da minha vida. Descobri que meu velho pai foi também uma criança. E daquele tipo terrível: as endiabradas. Ele e muita gente boa de Passa Quatro, um tio meu todo sério hoje em dia, amarravam latas no rabo de égua e depois corriam atrás dela pela cidade. Pode isso?
Naquele tempo menino não tinha eira nem beira. Tenho um orgulho imenso da minha infância. Penso que ela foi algo impossível hoje em dia. Pois os causos do meu pai me mostraram que, em matéria de infância, eu era um amador. Profissionais eram ele e os amigos. Eles viveram como nunca. Entre o sonho e a realidade, eram Deus e o diabo na vida.
Vivo, meu pai completaria 82 anos hoje. Eu, que não vi sua infância, tenho que lidar com sua ausência. Não há drama. Sei que muitos não tiveram o privilégio que eu tive: um pai presente. Um pai herói – ou não. Um pai para chamar de meu com orgulho. O Elson. Erso, de meninice. Que, agora, me faz chorar duas vezes toda vez que me vem à pele exposta da memória: por sua vida e por morte. Velho danado.
Meu pai é tão real pra mim que o vejo às vezes na rua, em relance quando abro o portão da casa lá de Passa Quatro, ou ao ver alguém parecido que surge na paisagem abrupta da cidade. Não pense que vejo fantasma. É o meu pai. Porque ele me acompanha nos gestos e no conteúdo e isso é tão bom que, não fosse inevitável por razões biológicas, eu o tornaria como fator literário. O que faço muito, de todo jeito, porque é ele rindo pra mim.
O pai dele, meu avô Bastião, era um senhor cheio de manias e tão sistemático que eu o admirava como avô, mas também como uma obra de arte da natureza rural. Carpinteiro, padeiro, roceiro, ele era o que precisava pra sustentar a tença de filhos e filhas. Deu conta de todos. E aí eu viajo: que menino foi meu avô? Percebo hoje que eu vi esse menino nele várias vezes, só não dava conta disso. E que era o mesmo menino dentro do meu pai.
Em certos momentos, testemunhei a cara séria do meu avô se transformar em um debulhar de rugas macias e serenas na gargalhada explosiva diante de uma simples piada. Ele ria e balançava o corpo, se retorcia. Um espetáculo de humana grandeza. Ele fazia exatamente igual meu pai. E eu, já me disseram, reproduzo perfeitamente idênticos os cacoetes de meu velho. Minha velhice é a de meu pai.
Minha infância é a de meu pai, minha imaginação tive de quem puxar, meus fatos da existência diária são a reprodução fidedigna da maior herança que eu poderia receber. Imagino as infâncias da vida, as velhices e a extraordinária vida que se liberta desta vida. E vivo tudo isso ao mesmo tempo e lugar toda vez que respiro. Não tenho dúvida de que essa é uma traquinagem divina: a gente ser vida e morte dos nossos pais infinitamente.
O mistério do badalar fantasma da igreja não passava de uma malandragem dos meninos inquietos da época. O truque era uma linha de anzol amarrada na língua de dentro do sino. E uma ação orquestrada: um espertinho puxando a linha lá no pasto, longe de todos, e uma turma de cá, na praça, fazendo alarde e anunciando o fim dos tempos. A cidade foi assombrada por essas pestes de duas pernas e falta do que fazer.
Essa meninada era o terror em Passa Quatro. E continua viva no amor das histórias que escreveram na gente. Meu pai me traz um mundo que carrego dentro do coração e que é o culpado de cada verso que evito e de cada sentença que escrevo. A alma poeta é a resistência paterna contra um outro fantasma, este nada lúdico: o dos dias e dias da sobrevivência renitente. Mas, na alma, eu sei: sou na verdade o filho daquele homem que puxa o fio que sacode o sino e se diverte com o badalar dos sorrisos em volta.
PS.:Não revisei o texto. Já peço perdão por submetê-lo a tanto. Mas isso não é escritura. É revolução.
