Wilder Morais vai dizer lá na frente: eu falei. Falou? Não falou, exatamente. Só deixou o tempo passar, na confiança de que não era preciso fazer nada antes porque, na “hora certa”, daria tudo certo.
E o que falou, mas não falou: que o bolsonarismo viria de arrastão feito enxurrada no córrego de fundo de quintal em dia de chuva forte, e o elevaria de terceiro ou quarto colocado nas pesquisas a um inesperado segundo turno, com favoritismo e tudo.
Wilder é só confiança nessa estratégia de não fazer nada agora porque não precisa.
A estratégia, porém, desagrada os seus.
Por trocá-la com bonomia e monotonia, ele está sendo chamado por aliados – nem é por adversários – de preguiçoso.
Se a sua vingança será esta, a de lá na frente despontar e vencer, significa que o “preguiçoso” é – e será -, na verdade, provadamente um estrategista de subida inteligência e frieza destemida.
Significa que Wilder descobriu a fórmula do sucesso na política, depois de dominar a fórmula do sucesso nos negócios empresariais, milionário que ficou na iniciativa privada.
No retrato de momento, ele disputa com o PT nas intenções de voto, mas em condição inversa da polarização nacional entre Lula e Flávio Bolsonaro. Wilder disputa com o PT no andar de baixo.
A pesquisas em geral o colocam em empate com Adriana Accorsi, mas bem atrás de Marconi Perillo (PSDB), o segundo, e Daniel Vilela (MDB), líder com folga.
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Quem está em ritmo total de campanha é Ana Paula Rezende, a pré-candidata a vice.
Basta um olhar atento em suas redes e sua agenda pessoal para isso ficar claro. Ela está mais para candidata a governadora do que a vice.
Isso explica a dimensão que ganhou, nos grupos de WhatsApp, a imagem dela em um encontro interno do PL na segunda, 15. Em um telão, ao lado de sua foto, estava escrito: candidata a governadora.
Erro do ‘estagiário’, foi a explicação. Coisa banal. Banal? A gasolina caiu no fogo e a labareda incendiou os bastidores do PL. E persiste, com especulações.
A relação entre Ana Paula e Wilder é de companheirismo. Nada consta em contrário. Não se trata disso.
O ponto é: sua proatividade diante da inatividade de Wilder é o fato motivador. A gasolina. A centelha. O que potencializa tudo. Faz o burburinho ferver.
Nesta quarta, 17, até pareceu que haveria correção de rumo. Na agenda dele e dela, constou visita a municípios do interior.
Parou por aí. Não há notícia de mais que isso. Um lapso. Um soluço de pré-campanha. Por enquanto, pelo menos.
E curiosamente um soluço repetindo quase o mesmo itinerário percorrido por Marconi Perillo dias antes, na região da Estrada de Ferro.
O maior adversário de Wilder não é Marconi, não é Daniel e não é a falta de atividade de pré-campanha. E nem é ele mesmo – na tese de que sua paralisia é negativa, em vez de positiva, com a certeza da colheita futura.
Seu maior adversário neste momento é a contrariedade que gerou entre os apoiadores de Gustavo Gayer, pré-candidato a senador.
Gayer tinha uma aliança articulada com Daniel Vilela e Ronaldo Caiado. O PL não lançaria candidato a governador e o governo teria Gracinha Caiado, apenas, em chapa para o Senado.
Acordo fechado e abençoado por Flávio Bolsonaro, que veio a Goiânia e se reuniu com Caiado e Daniel.
Até Wilder chutar tudo anunciando sua candidatura a governador, com Ana Paula de vice e apoio garantido de Valdemar da Costa Neto, presidente do PL.
Gayer engoliu seco. O problema entre os dois persiste.
Em meio a isso, Wilder faz o que quer, quando quer, e do seu jeito.
Não acena para sua base. Não apazigua os ânimos. Não administra a ansiedade interna, enquanto não chegam as convenções, a campanha.
E isso irrita uns, desespera outros. Desagrada pra dentro.
O risco é, nesse tempo de que espera, Daniel e Marconi ganharem terreno a ponto de a virada lá na frente não acontecer.
Só o bolsonarismo não é suficiente para dar eleição a um nome. É o que também mostram as pesquisas.
E a última eleição em Goiânia mostrou outra coisa: no enfrentamento direto, os caiadistas venceram os bolsonaristas.
Esperar o milagre bolsonarista baixar é uma opção, só não é garantia de eleição. Do outro lado também há milagres para se estabelecer, como o da manifestação das máquinas do Estado e do MDB, e das denúncias contra Flávio Bolsonaro.
Ana Paula se mexe e provoca reações por seus méritos, mas também pelos deméritos de Wilder.
É causa de entusiasmo entre os contrariados com o senador. Faz o que Wilder não faz, e incendeia dentro do bolsonarismo como sinal de alerta.
Wilder Morais vai dizer lá na frente que falou? Pode ser. Pode ser também que digam sobre ele: não foi falta de avisar.
