Política é um negócio complicado no sentimento da gente. Ou você ama, ou derrama impropérios pra odiar. Pra provar que é coisa que despreza com convicção e inteligência racional e emocional. Pra deixar claro que, por você, essa praga dos diabos seria varrida da Terra por todos os séculos e séculos vindouros. Sem amém.
Mas isso é e não é. Conheço muito cabra ensandecido com os políticos (e as políticas; e os polítiques) e a política em geral que, na hora do vamos ver de uma campanha, se entrega de olhinhos virados: odeia odiar, amando praticar.
Política define nossa vida. Lá no Congresso somos passados para trás e somos salvos de um imposto ordinário. Nos Palácios, a urdidura do nosso destino é tecida e somos esbofeteados a todo instante com medidas que vão bater lá na cozinha de casa, e na porta da rua.
Pauleira, sem dó nem piedade dos que seguem interesses próprios, raramente coletivos. E não vamos fazer nada?
Fazemos. Odiamos os compradores de voto. Essa a ação recorrente e persistente. Ela repara a consciência estragada. E eis que não nos odiamos ao vender o voto.
Esses mesmos que xingam os políticos bandidos, ladrões do dinheiro público, salafrários irresponsáveis no trato com lobistas, esses trastes aí, você sabe, esses mesmos que falam assim estão sempre prontos para participar de um tretazinha, se forem convidados, amealhar um carguinho, participar de um titanzinho da alegria e licitaçãozinha direcionada.
(Calma, não é todo mundo. Não estou falando de você, especificamente. Desculpa aí. Mas entendeu, né?)
Um amigo tem uma expressão curiosa sobre o que é corrupção. Corrupção é todo bom negócio para o qual não fomos convidados – diz ele. O cinismo da frase é uma pérola de bom humor, se olhada pelo lado avesso: é, sim, descaradamente reveladora. E tem lá sua graça.
Amar a política é uma coisa que cada um faz à sua maneira. Essa de amar odiando é só uma delas. Tem quem admite, assume, se entrega de corpo e alma. Por vocação, conveniência, ou negócio imperdível, tais cidadãos do bem (esquerda e direita, sintam-se todos representados) vivem no centro da confusão e se acham no melhor dos mundos. Dormem e acordam politicando. Morrem para viver na balbúrdia das reuniões públicas e privadas.
Pois esses encontram prazer na esbaldação das conversas de corredores, nas articulações de bastidores, nas especulações, nas teorias da conspiração, em cada cato obscuro.
A atração é fatal. O labirinto é infinito. O campo de diversão é variado e múltiplo. Tudo é incerto: a coisa mais certa da política. E, desconfio, suas riquezas e encantamentos. Areia movediça, eu diria: você põe o pé e já era. Está sugado. Abduzido, penso mais.
Sou particularmente fã dos militantes. Uma paixão doentia, ocorre a muitos. Não morrem de amores nem de ódios vãos. Simplesmente enlouquecem na disposição e dedicação. Não precisa ter afinidade ideológica, admiração, respeito. Nada.
Não há pré-requisito para insanidade. Basta ser contratado (mal pago, e daí?). Basta ser chamado pelos amigos (companheiro é companheiro). Basta ter disposição para a farra, como um pândego por vocação suicida. Tem uns que se divertem horrores, e reclamando. Não é belo, isso?
O amor pela política destrói famílias, sonhos, reputações, vidas inteiras. E ninguém deixa de amar. De odiar. Não há indiferença na política. As tragédias se sucedem (no coletivo), os exemplos de sucesso são direcionados (pessoais, de candidatos, de alguém no lucro).
Os interesses cruzados produzem mágicas que não explicam a relação entre os dois polos emocionais em jogo. Jogo duro. O que talvez explique os muitos vitoriosos de hoje se mostrarem tão derrotados amanhã.
Fruto de devoção. Resultado de expectativas quebradas. Razão de irracionalidade desmedida. Podemos ir longe na tentativa psicológica, social ou intelectual abrangente para entender o que leva uma pessoa ao cúmulo de buscar e sustentar uma relação com a política, por mais superficial que seja. Não é sadio, mas é assim. Porque assim é. Seja o que Deus quiser. Viva com um barulho desses. Com essa revolução dos cabelos.
Amo e odeio política em proporções variadas. Há momentos em que acho uma coisa maravilhosa e para o bem. O bem bom, sabe. Meu coração explode de fofura. Em seguida, vou ao inferno, com o que volto a considerar que essa energúmena (a política) representa.
Meio termo de sentimento existe nesse vai e vem, no entanto costuma durar menos de um segundo. É uma gangorra com intensidade variada de zero a 100 em sentidos inversos e à menor falta de sentido – porque alimentada de… sentimento.
Decidi, em certo momento de minha tumultuada existência humana, para não morrer do coração ou de úlcera, que era melhor procurar me divertir ao máximo no meio do caminho. O que faço. Nem sempre consigo, mas a disposição é sempre essa.
Busco o que há de inusitado, repetitivo, sabedoria, o que possa existir de bom para o espírito na política, o que mexe com a alma mais do que com o bolso e a carne, e remo o barco. Tô vivo. Sou sobrevivente da política goiana, brasileira, universal.
É namoro, não é amizade. Eterno enquanto eu dure. Vem de berço. Meu pai era advogado, mas gostava mesmo era de política. Foi prefeito, ganhou e perdeu eleições, fez história. Escreveu muitas histórias também, como escritor.
Porque política é principalmente como inventamos a vida, como nos reinventamos a cada minuto, como negociamos com a gente o ser ‘a gente’. Como nos convencemos. Como nos derrotamos nas desilusões e trapaças sofridas (e infringidas), e como comemoramos as vitórias reais e aquelas que contabilizamos como remédio necessário à saúde mental e ao rigojizo da vingança contra os adversários e inimigos.
Vai me dizer que você nunca deu o troco em você mesmo? Ou que não sustentou comemoração, ainda que o tempo fosse de derrota? Quer me convencer de que nunca, jamais, teve que se perdoar por tomar um trieiro, quando o caminho asfaltado era longo e chato e não resolvia seu prato de feijão?
Não acredito em promessa de político. Muito menos confio. Desconfio de gente que não cumpre com a sua parte na humanidade (ser imperfeito) e na divindade (buscar a salvação). Complexo. Porque real.
Política é política, meu caro. Coisa de ser humano. Eu, por exemplo, não sou político. Mas sou demasiado humano. Tenho paixão pela ciência e um caso duradouro com a realidade. Amo as duas. Me entrego sem medida de contenção. Me julgue. E/ou me eleja.
Vote em mim que eu voto em você.
