Eu não sei dizer tudo que eu quis dizer quando escrevi. Sempre falta. E sempre é demasiado o que as entrelinhas carregam e as linhas asseveram. A intensidade está em tudo. Porque parte de mim. É parte. Está na origem.
Está no que me chega. No que me parte em tantas partes que nem sei de mim, particularmente falando, em cada uma e em todas as partes. Estou em toda parte e em parte alguma. Estou nas partes em que nem existo.
E essa palavra ‘começo’ não me principia de jeito nenhum, estou lá mas já parti, desde o início. Não me contém de forma alguma. Não é o fim de mim mesmo. Não me contem quem sou, eu não conto pra ninguém, nem as partes boas. Ando incontido.
Começo por dizer e desabaladamente me serpenteio, depois me arrebato, depois me combato, me espalhafato, feito chuva torrencial indo em frente ao contrário, em sentido oposto na ida e na volta o tempo todo, pois é isso.
Quando digo eu sou este que vos fala, eu já não sou mais, como eu nem nunca fui, igual eu. Pelo simples fato de que a tradução do que expresso deixou de ser tinta metafísica quando expresso o ato, o escrito, o que passou. O que se passou ao físico momento de me estabelecer no entendimento alheio.
Vivo no alheio, vez que vivo alheio. E quem (não) vive alheio na absorção do outro – quem? Quem resiste ao aposto? Quem resiste aos duplos entendimentos, aos múltiplos universos da compreensão?
De modo que a indecisão entre ser fábula, conto ou relato de verdade é uma ficção em ponto, com os desdobramentos de sempre. Não me destino, não há destinação que me acolha impunemente, nem fim que me nomeie.
Repito por querer a ênfase como sujeito testemunha das consequências das leituras, essa humanidade rara em sequência infinda. Repito para coexistir. Reitero para me armar até a alma de quem devo ser, sem saber.
Me diz exatamente o que quero dizer, se é que me entende. Me diz para ser, eu ou você. Me diz, se há pretensão nos seus olhos de enxergar a chuva que irrompe de mim todas as vezes em que torrencio (do verbo amar).
O significado da minha exposição de motivos, da minha história contada sem decantação, dos meus delírios de realidade, dos meus detalhes sórdidos e sôfregos, são mais conhecidos por quem me lê do que pelo leitor, que sou, que se debulha em letras – ou só escreve, quem sabe?
Eu não sei o que dizer. Isso que eu digo e só. De fato, eu sou metafísico. Palavra pouca pra muito. Habito a imaginação do dito e do não.
