Fim da Escala 6×1: ‘A resistência do Congresso é política, não econômica’, afirma pesquisador

PEC que prevê o fim da escala 6×1 avança na Câmara e divide as opiniões de economistas e entidades do setor produtivo.

Compartilhe

ato0 | PortalGO
São Paulo (SP), 15/11/2024 – Pessoas participam de ato em defesa do fim da jornada 6×1. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para a extinção da jornada de trabalho na escala 6×1 superou as etapas iniciais de assinaturas e de mobilização social. No entanto, a verdadeira batalha para a aprovação da medida se desenrola de forma prioritária nas comissões especiais da Câmara dos Deputados. O cenário atual projeta um embate profundo entre o lobby econômico e a pressão popular.

Para compreender os nós políticos que travam essa pauta e avaliar se o projeto possui viabilidade real, o PortalGO entrevistou o Prof. Dr. Ângelo Silva Cavalcante, docente do curso de Ciências Econômicas da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara. Economista de formação e doutor em Geografia Humana, o pesquisador estuda a fundo as dinâmicas do território e as contradições do mundo do trabalho.

Um Congresso alinhado ao Mercado

O principal obstáculo para a aprovação da PEC está na profunda degradação ética e moral do atual Poder Legislativo, classificado por Cavalcante como “o pior Congresso da história brasileira”. Segundo o pesquisador, o parlamento abandonou o debate técnico e científico para se transformar em uma “rinha” dominada pelo vício da lacração.

“Não há qualquer tipo de decoro ou postura. É uma miséria teórica e analítica promovida por agentes políticos que desconhecem o mundo do trabalho”, afirma o professor.

Para o pesquisador, o atual perfil parlamentar atende estritamente aos interesses de parcelas da burguesia ligadas ao rentismo, que financiam essas figuras com o objetivo explícito de travar a pauta. 

Cavalcante define a manutenção da jornada atual não como uma necessidade econômica, mas como um mecanismo de “disciplinamento político” que sabota avanços civilizacionais básicos.

O encarceramento pelo trabalho

17215.png | PortalGO
A Fabricação de Aço, por Skinner — Science Museum, London (CC BY-NC-SA)

De acordo com a análise de Economia Política de Cavalcante, a resistência patronal vai além dos custos financeiros imediatos com novas contratações. Existe uma motivação de controle social por trás da manutenção da jornada de seis dias.

O pesquisador afirma que a escala 6×1 atua, na prática, como uma “pedagogia de disciplinamento” e um “cárcere simbólico”.

“Ninguém precisa de um funcionário na empresa por seis dias. O que está por trás disso é o medo político do ócio do trabalhador”, explica Cavalcante.

Historicamente, o tempo livre e a efervescência de ideias na classe trabalhadora impulsionaram grandes transformações sociais e revoluções democráticas. 

Um funcionário exausto, que utiliza seu único dia de folga apenas para dormir e realizar tarefas domésticas acumuladas, não possui energia para organização política.

O economista ressalta ainda a contradição de um mercado que adota inteligência artificial e algoritmos para multiplicar lucros, mas resiste em flexibilizar uma jornada semanal de 44 horas que vigora há quase 40 anos, desde a Constituição de 1988 — que reduziu a antiga jornada máxima de 48 horas semanais instituída pela CLT de Getúlio Vargas em 1943.

Contraponto

Por outro lado, as entidades representativas do setor produtivo manifestam forte preocupação com a viabilidade da proposta. Em notas oficiais e manifestações técnicas recentes, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e associações do setor supermercadista alertam que a extinção abrupta da escala 6×1 eleva de forma severa os custos operacionais das empresas. 

Segundo o setor patronal, a medida pressiona a inflação devido ao repasse inevitável de gastos ao consumidor final e coloca em risco a sobrevivência de micro e pequenos negócios, o que pode resultar em demissões e no aumento da informalidade. 

As entidades defendem que a transição seja pactuada por negociações coletivas e acompanhada de medidas compensatórias, como a desoneração da folha de pagamento.

Possibilidade real

0d9a0820 | PortalGO
Brasília – DF- 26/05/2026 – Reunião da Comissão Especial da Câmara sobre o Fim da Escala 6×1 para ouvir representantes de entidades sindicais e movimentos sociais sobre a proposta de redução da jornada de trabalho. Foto Lula Marques/Agência Brasil

Diante de tamanha resistência institucional, o fim da escala 6×1 corre o risco de virar uma promessa esquecida?

A proposta que tramita na Câmara (que unifica a PEC 221/2019 e a PEC 8/2025) já conta com o relatório final apresentado pelo deputado Leo Prates. O parecer recomenda a redução gradual da jornada para 40 horas semanais em um cronograma de transição de 14 meses, com a garantia de dois dias de descanso por semana sem redução salarial.

A história econômica do Brasil corrobora a visão de que o mercado se adapta. O professor relembra que os discursos de “caos financeiro” e ruína nacional surgiram em todos os momentos de virada social do país. Foi assim no debate sobre o fim da escravidão, quando as elites previram o colapso da economia.

O mesmo temor repetiu-se na era Vargas contra as primeiras leis de proteção ao trabalho, bem como na década de 1960 durante a criação do 13º salário no governo de João Goulart, na concessão da licença-maternidade de 120 dias pela Constituição de 1988, e na própria redução da jornada para 44 horas semanais no mesmo texto constitucional.

O mercado absorve as mudanças e se adapta com rapidez. Como exemplo prático dessa dinâmica, grandes redes de supermercados em estados como Santa Catarina, São Paulo e até mesmo Goiás já testam ou implementam a escala 5×2 como diferencial em seus anúncios de contratação, muito embora o setor varejista local e nacional ainda manifeste forte oposição à obrigatoriedade da medida sem contrapartidas fiscais do governo.

A proposta não está no campo ilusório, mas sua aprovação exige a mobilização ativa da sociedade, segundo o professor.

“A pressão popular e o olho no olho com os representantes nas ruas são as únicas forças capazes de dobrar a resistência econômica dos parlamentares e fazer o projeto passar”, finaliza Cavalcante.

*Edição: Laila Melo

Newsletter
Receba as principais notícias e atualizações do PortalGO direto no seu e-mail.
Recentes
Memorial do Césio-137: avanço na Câmara ou a manutenção da ‘Geografia dos Esquecidos’?
Memorial do Césio-137: avanço na Câmara ou a manutenção da ‘Geografia dos Esquecidos’?
História · 29min

Memorial do Césio-137: avanço na Câmara ou a manutenção da ‘Geografia dos Esquecidos’?

Goiás reduz homicídios em 58,4% em uma década, aponta Atlas da Violência 2026
Goiás reduz homicídios em 58,4% em uma década, aponta Atlas da Violência 2026
Segurança · 5h

Goiás reduz homicídios em 58,4% em uma década, aponta Atlas da Violência 2026

Incentivo imobiliário ou “vazio jurídico”? Os 2 lados do programa “Morar no Centro” 
Incentivo imobiliário ou “vazio jurídico”? Os 2 lados do programa “Morar no Centro” 
Cidades · 5h

Incentivo imobiliário ou “vazio jurídico”? Os 2 lados do programa “Morar no Centro” 

Trabalho em Aparecida: saiba como se candidatar
Trabalho em Aparecida: saiba como se candidatar
Trabalho · 7h

Trabalho em Aparecida: saiba como se candidatar

Mais do PortalGO
17798175376a15dc41a6537 1779817537 3x2 xl | PortalGO
Fim da 6×1: veja cronograma e exceções
Relator diz que redução para 36h será gradual, com estímulo à produtividade. Votação na comissão na quarta (27); depois, Plenário e Senado. 26 maio 2026 · Trabalho
imagens g1 22 | PortalGO
Candidato com nanismo denuncia FGV por falta de adaptação
Matheus Menezes, 25, denuncia FGV por não adaptar teste físico para delegado à sua condição de nanismo. Moraes anulou primeira reprovação 26 maio 2026 · Brasil
bdrj castro2 | PortalGO
PF faz buscas na casa do Ex-Governador do RJ, Cláudio Castro
PF revela que Rioprevidência transferiu R$ 3,7 bilhões ao Banco Master. Compliance Zero cumpriu mandados na casa de Cláudio Castro. 26 maio 2026 · Justiça
55293863837 fa081295c8 o | PortalGO
Juízes terão contracheque único para transparência
Decisão segue entendimento do STF de março. Juízes podem ganhar até R$ 62,5 mil mensais. Medida facilita fiscalização do cumprimento do limite constitucional. 26 maio 2026 · Brasil
Festival Curta Qui | PortalGO
Mostra Curta Qui traz 22 filmes a Quirinópolis e evidencia o audiovisual de Goiás
Festival promove sessões especiais para estudantes de escolas públicas e realiza cerimônia de premiação. 26 maio 2026 · Cultura
IMG 5289 | PortalGO
Léia Klebia reassume mandato na Câmara de Goiânia após prisão de Zander Fábio
Léia Klebia abre mão de licença particular e retoma cadeira na Câmara Municipal 26 maio 2026 · Política
marginal botafogo | PortalGO
Obras na Marginal Botafogo preparam via para implementação de terceira pista
Município ainda não definiu a data de entrega final da terceira faixa da via expressa 26 maio 2026 · Cidades
0g0a5189 0 | PortalGO
TSE institui comissão permanente para barrar uso ilegal de IA nas eleições
Medida do ministro Nunes Marques estabelece cerco tecnológico e exige reação célere de tribunais regionais. 26 maio 2026 · Justiça
Lucca Perdigao | PortalGO
Lucca Perdigão pode deixar cargo na Educação para assumir vaga na Câmara de Goiânia
Para assumir a vaga no Legislativo, o segundo suplente da vaga de Léia Klebia, Lucca Perdigão, precisará deixar a Secretaria de Educação. 26 maio 2026 · Política
Operacao corrupcao secretaria cultura | PortalGO
Operação em Goiânia apura fraude de R$ 1 milhão na gestão Rogério Cruz
Entre os alvos da operação estão um ex-secretário municipal e um ex-vereador de Goiânia. 26 maio 2026 · Segurança