A comoção digital tem um fôlego curto. Recentemente, as timelines de todo o Brasil foram inundadas por lamentos e compartilhamentos sobre o caso do cão Orelha, um animal de rua que se tornou o rosto de uma tragédia coletiva, seja pela crueldade e atitude criminosa de jovens, ou pela falta de um resgate a tempo e tantos outros problemas.
O episódio, no entanto, serviu para escancarar uma ferida aberta na proteção animal: a distância entre o “curtir” e o “acolher”. Enquanto o barulho das redes sociais some, a verdadeira mudança ocorre no silêncio dos lares que decidem que um animal não é um acessório de status, mas uma vida que exige reestruturação e entrega. Como bem define Rayane Araújo, presidente do Abrigo dos Animais Refugados, “Você pode não salvar o mundo, mas salvar o mundo de um animal já faz toda a diferença”.
Afeto entre as grades

O trabalho de proteção em Goiânia não nasce de planilhas, mas de legados emocionais. Rayane Araújo (30 anos), atua como analista de planejamento estratégico. Ela herdou a presidência da ONG após uma tragédia que resume um pouco o isolamento da causa. Lívia Denise, a fundadora que dedicou 25 anos aos animais, faleceu vítima da Covid-19 em 2021. Rejeitada pela família biológica justamente por sua dedicação aos bichos, Lívia teve como únicos presentes em seu velório os voluntários que, desde então, assumiram o abrigo como uma família por escolha.

Hoje, o abrigo localizado no Jardim Novo Mundo se equilibra em um labirinto financeiro com dívidas que superam os 150 mil reais em clínicas veterinárias. A matemática é cruel: são cerca de 30 pedidos de socorro por dia para uma média de apenas três adoções mensais. Rayane relata que o perfil do abandono mudou; não são apenas animais que nasceram nas ruas, mas vítimas do descarte humano motivado por mudanças de endereço ou perda de interesse dos tutores. No meio desse caos, o abrigo mantém 80 cães e 40 gatos, esperando por adotantes os quais compreendam que o amor não se compra em vitrines de raça, mas é construído no dia a dia.
O apoio ao @abrigodosanimaisrefugados pode ser feito por doações únicas (PIX: [email protected]), recorrentes ou pelo programa de apadrinhamento. Com contribuições a partir de R$ 30, a modalidade é uma alternativa para quem deseja ajudar, mas não pode adotar.

Segundo Rayane, os padrinhos recebem atualizações sobre o animal escolhido e podem até agendar passeios. Além do suporte financeiro, iniciativas como o custeio de ração, banho e tosa também são fundamentais para o bem-estar dos bichinhos.
Mas, para além das contas, o verdadeiro lucro do abrigo se mede em recomeços. Em meio ao déficit financeiro, são as histórias de quem finalmente deixou as grades para trás que renovam o fôlego dos voluntários.

Sombra é um dos que encontrou o final feliz que tanto aguardava. Após passar oito anos no abrigo — o equivalente a metade de sua vida — o cão idoso viu o tempo branquear seus pelos e diminuir o ritmo de seus passos, mas não a esperança de ser escolhido. A mudança definitiva na sua trajetória começou quando sua história foi compartilhada nas redes sociais e sensibilizou Rafael e Ully, que decidiram oferecer a ele a família que tanto sonhou. Hoje, a rotina de espera foi substituída por carinho, passeios e o conforto de um lar verdadeiro, provando que nunca é tarde para recomeçar.

Lorena foi outra que teve a vida transformada. Após chegar ao abrigo em 2017, o que deveria ser uma estadia temporária acabou se estendendo por quase oito anos — praticamente metade de sua vida. A cadela idosa viu as chances de adoção diminuírem com o passar do tempo, até que um ensaio fotográfico temático de festa junina mudou seu destino. Sensibilizada pelas imagens, Camila decidiu adotá-la, oferecendo a Lorena, pela primeira vez, o conforto de um lar verdadeiro. Hoje, a rotina de espera foi substituída por camas quentes, passeios e o carinho que ela aguardou por quase uma década.
O encontro entre o “trabalhador cansado” e o lar

A história da engenheira Suelen Granado (30 anos) ilustra perfeitamente essa mudança de paradigma. Ela não buscava aquela euforia maluquinha de um filhote, mas uma conexão que fizesse sentido para sua rotina de home office. No Instagram do abrigo Alma de Patas, ela encontrou Wesley (4 anos), um cão apresentado com uma narrativa inusitada: a de um “trabalhador cansado”, pai de três filhos, que só queria paz e aposentadoria. A carinha “invocada” de Wesley na foto foi o gatilho para uma adoção consciente, baseada na compatibilidade de energias.

Wesley, no entanto, trouxe consigo as marcas da vida nas ruas. Além de uma pele sensível que exige banhos semanais com shampoos hidratantes específicos, o cão sofre de cinetose, o que transforma viagens de carro em episódios de enjoo e desconforto. A solução veio com criatividade: Suelen adaptou óculos especiais infantis que, através de um líquido que se move conforme o balanço, estabilizam o seu equilíbrio animal. Para ela, Wesley não é um animal de estimação, mas um filho que exige cuidados constantes, desde a creche para socialização até a paciência para ensiná-lo que o ambiente doméstico é um lugar seguro.
Outro ponto destacado por Suelen é o de que Wesley demorou mais para ser adotado. Enquanto os filhotes dele foram adotados quase instantaneamente — alguns nem precisaram de postagem no feed, ganhando um lar apenas através dos Stories —, o “pai” precisou de duas publicações e uma espera maior para ser notado. Suellen observa que essa é uma barreira comum: há animais que vivem anos no abrigo e, apesar dos apelos semanais nas redes sociais, continuam invisíveis.
Da tempestade à preparação para a vida
Para o servidor público Raul Fleury (40 anos), a chegada de Cajuína (1 ano) foi uma ruptura com o histórico de sua própria família, onde cães de raça eram o padrão. Cajuína apareceu durante uma tempestade em Bela Vista, e já chegou invocada, deitando sobre um lençol na área da fazenda com a naturalidade de quem sempre pertenceu ao lugar. O processo de adaptação, porém, foi longe da imagem romantizada das propagandas de TV.

Raul precisou lidar com a agitação extrema da cadela e o conflito outro cão em sua casa, o idoso Odin (o poderoso Deus que é considerado o “pai de todos” da mitologia nórdica, e que em sua “representação canina” tem 14 anos), recorrendo inclusive a um veterinário comportamental para mediar a convivência.

Raul é enfático ao dizer que animais não são “pelúcias”. Tanto que ele recorda o episódio em que Cajuína, em um momento de tédio, fez xixi e cocô no sofá da sala. Não há como culpabilizar o animal irracional e simplesmente devolvê-lo por conta de uma “arte”.

É no relato do cotidiano que ele encontra o valor da escolha: a obrigação de acordar cedo para gastar energia, o olhar de admiração empregado e dedicado a ele e a percepção de que essa responsabilidade é, na verdade, uma preparação para uma possível paternidade humana. Para Raul, o resgate foi uma via de mão dupla, onde o bem-estar da cadela tornou-se o motor de sua própria guinada de perspectiva e responsabilidade.
A dignidade de ser “caramelo” num mundo de grifes
A tendência crescente de famílias que optam por pets em vez de filhos — ou como preparação para eles — reflete uma humanização que exige ética. Rayane Araújo alerta para o lado sombrio do comércio de animais, onde fêmeas são tratadas como máquinas de reprodução em cubículos, muitas vezes descartadas quando o “padrão da raça” não é atingido ou quando a idade avança. Em contrapartida, o vira-lata caramelo emerge como um ícone de resistência e identidade nacional, simbolizando uma beleza que não depende de pedigree, mas de caráter e gratidão.
A solução para a crise de abandono em Goiás, segundo os especialistas e voluntários, não virá apenas dos abrigos superlotados, mas de políticas efetivas de castração e de uma mudança na mentalidade do tutor.
Adotar é um gesto político e de dignidade; é entender que a vida de um animal não termina no momento da foto para o Instagram, mas continua através de banhos medicinais, passeios em horários pouco convencionais e a aceitação de que nem tudo será perfeito. Ao final, como demonstram Suellen e Raul, o que se ganha não é um objeto decorativo, mas a chance rara de ver o mundo através dos olhos de alguém que sabe exatamente o valor de ter sido salvo.







