O acirramento do debate debate direita-esquerda não nos tirou a paz. Tirou nossa capacidade de dialogar. E é este o resgate necessário mais urgente. A paz absoluta funciona quase como um utopia. Está lá, almejamos, é um referencial. Mas convenhamos: quem sonha com paz de cemitério?
Dialogar é alimento para a alma, sempre. Fustiga o espírito. Provoca ações e reações. É troca, interação (casual ou não), comunhão, sempre uma oportunidade, uma possibilidade e uma sacudida na realidade. Quando conversamos, somos aluno e professor.
Uma vez, a primeira de muitas, meu tio Tonico sentou-se ao meu lado na calçada de sua casa, no interior. Eu estava todo largado. Ele chegou devagarinho, colocou a bunda no calcanhar sem escorar na parece, acendeu um palheiro e fez fumaça.
Silêncio. Um bom tempo assim. Até que veio, sem olhar pra mim, de jeito casual estratégico: “Fala comigo, meu filho. A vida lá tá boa?” Daí em diante discutimos o clima do mundo, as roupas no varal diante do vento frio que chegava anunciando o inverno, o gosto e a natureza das cachaças da região.
Vez ou outra ele me cutucando: tá ganhando dinheiro? Já tem namorada? Tá feliz ou tá só vivendo? Uma disposição pra ouvir adorável, somada à delicadeza da condução carinhosa do papo. Ele queria saber, estava pescando fofoca, porém com anzol invisível. Malandro velho.
Olha a quantidade de sutilezas num diálogo trivial de fim de tarde. Repara no parâmetro dos pensamentos e sentimentos envolvidos e revolvidos. E então coloca tudo lado a lado com o que acontece hoje. O resultado: escancaramento expressivo da estupidez dos novos tempos.
Tudo é urgente e determinante. Definitivo. Não há espaço para palavras perdidas ou jogadas fora pelo prazer das ondas, com aquele indelével sorriso de canto de boca. Como se a aceleração dos fatos, das interpretações equivocadas e do acirramento de ânimos e elevação dos ódios fosse o fim da humanidade (sua finalidade), e não o fim.
Recuperar essa (pré) disposição humana para o nada com nada, que tem tudo de bom e bonito, é abrir a guarda do coração para o outro. É deitar o olhar no jardim alheio, em vez de apenas mirar nas vulnerabilidades pessoais e sociais. Não dá pra imaginar que tudo será como antes. Não é isso. Mas desinformação, desonestidade intelectual e interpretações aleatórias da realidade não promovem nada, a não ser bate boca e guerra.