No cemitério São Miguel da Cidade de Goiás, entre túmulos históricos como o de Cora Coralina, um deles se destaca: o de Johann Jessl, austríaco falecido em 1936, cuja lápide exibe uma suástica. O símbolo nazista intriga visitantes e motivou o historiador Frederico Tadeu Gondim a pesquisar a vida do estrangeiro.
Jessl desembarcou no Brasil em 1925, aos 22 anos, fugindo da recessão europeia. Estabeleceu-se na antiga capital goiana, onde trabalhou como eletricista até a morte. Perdeu a maior parte da família na Europa antes de emigrar: o pai, um irmão e a irmã faleceram entre 1917 e 1926; a mãe, em 1929. Sozinho, dedicou-se à profissão e tornou-se peça-chave na concessionária de energia, especialmente por sua fluência em alemão, idioma dos manuais e equipamentos.
A suástica na sepultura levanta questões sobre suas convicções. Gondim argumenta que, embora Jessl pudesse simpatizar com o nazismo, ele estava fora do alcance do partido. O símbolo, na época, ainda não representava o extermínio que viria depois, e a comunidade local não o via com maus olhos. A inscrição afetuosa “Aqui descansa nosso João Jessl” contrasta com a insígnia, mostrando o acolhimento que recebeu.
Jessl morreu de ataque cardíaco em 28 de dezembro de 1936. O registro de óbito o classifica como alemão, possivelmente por confusão ou por ele próprio se identificar assim. Para Gondim, o túmulo de Jessl é um símbolo das complexidades da imigração e da memória: um homem solitário, integrado à comunidade, mas carregando um símbolo que o distancia no tempo e na moral.










