Thomas Friedman, três vezes vencedor do Prêmio Pulitzer, afirma que as redes sociais se tornaram inimigas da verdade e da confiança. Barack Obama alerta que elas amplificam alguns dos piores impulsos humanos. Umberto Eco foi ainda mais ácido ao afirmar que a internet transformou o idiota da aldeia em portador da verdade.
Pode parecer exagero. Talvez não seja. As redes sociais não criaram a mentira, o ódio, a intolerância ou a ignorância. Tudo isso já existia muito antes dos computadores, dos celulares e da internet. O que elas fizeram foi dar alcance, velocidade e visibilidade a comportamentos que antes permaneciam confinados a pequenos círculos.
A grande revolução tecnológica do nosso tempo acabou produzindo um efeito inesperado: permitiu que a humanidade olhasse para si mesma sem filtros e o retrato nem sempre é bonito.
A internet é uma das maiores invenções da história. Nunca tivemos acesso tão rápido ao conhecimento, à ciência, à cultura e à informação. Em segundos, um estudante do interior de Goiás pode consultar bibliotecas do mundo inteiro. Um médico pode acompanhar descobertas feitas em outro continente. Um agricultor pode acessar previsões climáticas e tecnologias que antes estavam fora do seu alcance.
O problema não está na estrada digital. O problema está nos motoristas. Criamos uma Ferrari tecnológica, mas continuamos conduzindo-a com emoções primitivas. Nossa capacidade de produzir tecnologia avançou em velocidade muito maior que nossa capacidade de lidar com diferenças, controlar impulsos e construir consensos.
A consequência é um ambiente onde a indignação rende mais audiência que a serenidade, onde a mentira costuma viajar mais rápido que a verdade e onde opiniões são frequentemente tratadas como se tivessem o mesmo peso dos fatos.
Talvez o maior risco não seja a desinformação. Mentiras sempre existiram. O verdadeiro perigo surge quando as pessoas deixam de acreditar que a verdade existe. Quando tudo se transforma em narrativa. Quando toda informação passa a ser vista apenas como uma versão dos fatos. Quando a confiança desaparece.
Nenhuma democracia sobrevive sem confiança. Nenhuma sociedade prospera, quando seus cidadãos passam a enxergar adversários como inimigos e instituições como obstáculos a serem destruídos.
Ainda assim, seria injusto culpar a tecnologia pelos nossos fracassos. A internet apenas revelou o que somos. Mostrou nossas virtudes, mas também nossas fragilidades.
Talvez estejamos vivendo um doloroso período de adaptação. Um tempo em que a humanidade precisa aprender a conviver com ferramentas poderosas demais para a maturidade que ainda possui.
O desafio do século XXI talvez não seja tecnológico. Talvez seja civilizatório. Porque a máquina evoluiu. Agora, nós é que precisamos evoluir.
Continuo acreditando na internet. Continuo acreditando na liberdade de expressão. Continuo acreditando na tecnologia. O que já não tenho tanta certeza é se evoluímos na mesma velocidade das ferramentas que criamos. Talvez este seja o grande desafio do nosso tempo: impedir que a Ferrari da inteligência humana seja conduzida pelos instintos mais primitivos da nossa espécie.
