A figura histórica de Jesus é amplamente aceita: um judeu dissidente que viveu há 2 mil anos na região hoje conhecida como Israel, liderou um grupo e foi executado pelo Império Romano. A transição do homem ao mito ocorreu principalmente por obra de Paulo de Tarso, que, cerca de 20 anos após a morte de Jesus, escreveu cartas que não tratavam mais do Jesus histórico, mas do Jesus da fé, conforme explica o historiador André Leonardo Chevitarese (UFRJ).
Desconsiderando a teologia, Jesus foi um condenado político. “Jesus histórico conheceu uma morte política”, afirma Chevitarese. Religião e política se misturavam, e as fronteiras entre os dois campos eram fluidas. Essa ambiguidade é chave para entender o movimento de Jesus com Jesus e o movimento de Jesus sem Jesus (dos primeiros seguidores).
A execução
A crucificação era rotina no Império Romano, usada para escravos e não cidadãos. “Era uma tortura tão cruel e humilhante que não era reservada a um cidadão romano”, explica Gerardo Ferrara (Pontifícia Universidade da Santa Cruz). Jesus morreu às vésperas da Páscoa judaica, uma festa política.
Para Chevitarese, os relatos de hesitação entre as autoridades e de um julgamento prolongado não são históricos. Numa cidade lotada de judeus, as autoridades romanas não correriam o risco de um cortejo com um condenado; a execução foi imediata. O padre-arqueólogo Giuseppe Ricciotti, cruzando informações, situou a morte em 7 de abril do ano 30.
Por que Jesus foi morto?
Seu discurso defendia um novo reino, o Reino dos Céus, oposto ao Império Romano em quatro pilares: justiça (divina contra a injustiça romana), paz (contra o estado bélico), comensalidade (fartura para os pobres) e igualdade (participação de homens e mulheres).
“Política, religião, economia, sociedade, tudo isso se inseria num programa messiânico”, resume Chevitarese. Jesus tornou-se messias por essa ideia. Sua entrada em Jerusalém às vésperas da Páscoa, com “confusão no templo”, selou seu destino.
A crucificação em detalhes
Os romanos usavam cruzes em forma de T ou de punhal. Ferrara acredita que a de Jesus era em forma de punhal. O médico legista Frederick Zugibe, em experimentos com voluntários, concluiu que Jesus carregou apenas a parte horizontal (cerca de 22 kg); a vertical já estava no local. As cravas eram pregadas nos pulsos, não nas palmas, para suportar o peso. Zugibe estimou os pregos em 12,5 cm e que os pés foram fixados um ao lado do outro.
A morte era lenta, por asfixia, ataque cardíaco ou choque hemorrágico. Zugibe concluiu que Jesus morreu de choque hemorrágico (hipovolemia) após a tortura e horas na cruz. Ferrara sustenta que a agonia durou poucas horas, devido à intensa perda de sangue na flagelação.
Tortura e sepultamento
O açoitamento era feito com azorrague, possivelmente de três tiras com pontas de osso. Zugibe calculou 39 golpes (117 chibatadas), causando hemorragias e danos internos. A coroa de espinhos, segundo sua pesquisa, era de espinheiro-de-cristo-sírio, cujos espinhos ferem nervos da cabeça.
Chevitarese afirma que crucificados não eram sepultados. Os corpos ficavam na cruz, eram devorados por aves e depois por cães e outros animais. Não há registros arqueológicos de cemitérios de crucificados, o que reforça essa tese.
