O Brasil está diante de um problema que não nasceu ontem, mas que durante muito tempo foi tratado como se pudesse esperar. Agora, os sinais começam a aparecer com uma clareza preocupante: o país poderá enfrentar, até 2040, um déficit de até 235 mil professores na educação básica.
A projeção foi feita pelo Instituto Semesp, com base em dados dos censos educacionais do Inep. Mantidas determinadas tendências observadas, seriam necessários cerca de 1,97 milhão de professores em 2040, enquanto o contingente disponível ficaria próximo de 1,74 milhão. É uma projeção, não uma sentença. O cenário poderá mudar se políticas públicas conseguirem alterar a trajetória.
Mas outros números reforçam o sinal de alerta. Dados do PISA indicam que apenas 2,4% dos jovens brasileiros de 15 anos demonstram interesse em seguir a profissão docente. Como complicador, uma pesquisa divulgada neste setembro de 2026 acrescentou um componente preocupante: em dez anos, o número de professores do ensino médio com menos de 24 anos caiu mais de 30%. Na direção contrária, o contingente de docentes com mais de 60 anos cresceu 104,5%. Ou seja: além de termos dificuldades para atrair jovens, nossos professores estão envelhecendo.
A pergunta é inevitável: por que tão poucos querem ensinar? Não existe uma única resposta.
A remuneração é parte do problema. Somam-se a ela a sobrecarga de trabalho, a precariedade encontrada em determinadas redes, dificuldades de progressão profissional, contratos temporários, desgaste emocional e a perda de prestígio social da carreira.
O trabalho do professor também não termina quando toca o sinal. Existem aulas para preparar, provas para corrigir, relatórios, reuniões, planejamento, formação e uma burocracia que muitas vezes invade as horas que deveriam pertencer à vida pessoal.
Acrescente-se um problema cada vez mais presente: a violência escolar. Professores enfrentam agressões verbais e, em casos extremos, físicas. Muitas vezes são chamados a administrar conflitos sociais e familiares que ultrapassam sua missão original de ensinar. Nesse ambiente aparecem estresse, esgotamento e problemas de saúde física e mental.
Seria injusto, porém, dizer que absolutamente nada foi feito. O governo federal lançou o Mais Professores para o Brasil, com medidas destinadas a estimular as licenciaturas, fortalecer a formação e valorizar a carreira docente.
A questão é saber se iniciativas como essa terão dimensão e continuidade suficientes para modificar uma tendência construída durante décadas, porque educação não pode depender apenas de programas de um governo. Precisa ser política permanente de Estado.
Governos municipais, estaduais e federal, independentemente de partidos, precisam compreender uma obviedade que frequentemente desaparece entre discursos e promessas: não existe educação de qualidade sem professor valorizado.
Só que valorizar não significa apenas melhorar salários, embora remuneração seja fundamental. Significa oferecer condições de trabalho, segurança, formação continuada, estabilidade profissional, estrutura escolar e perspectivas de carreira.
E existe uma tarefa ainda mais difícil: devolver prestígio social ao ato de ensinar. Estamos vivendo a era da inteligência artificial. Computadores oferecem em segundos informações que, algumas décadas atrás, exigiriam horas dentro de uma biblioteca.
Mas informação não é educação. A máquina pode fornecer uma resposta. O professor ajuda o estudante a entender a pergunta, desenvolver raciocínio, confrontar ideias, conviver com diferenças e transformar informação em conhecimento.
Por isso, o chamado apagão docente não é problema apenas dos professores. É problema do Brasil.
Se faltarem médicos, sofrerá a saúde. Se faltarem engenheiros, haverá consequências na infraestrutura. Mas, se faltarem professores, comprometemos inclusive a formação dos médicos, engenheiros, cientistas, jornalistas e demais profissionais das próximas gerações. Todos passaram, ou deveriam passar, pelas mãos de bons professores.
A projeção de 235 mil docentes em falta não precisa se transformar em realidade. Temos tempo para mudar essa história, mas o relógio está andando.
Em 2040, uma criança poderá entrar numa sala equipada com computadores, internet de altíssima velocidade e recursos de inteligência artificial que hoje nem conseguimos imaginar. Talvez encontre uma escola tecnologicamente extraordinária. Resta uma pergunta muito mais simples e muito mais importante: haverá um professor esperando por ela?
