Uma das respostas mais difíceis dos políticos é provocada por uma das perguntas mais óbvias e mais previsíveis da política: por que você quer ser eleito?
A questão é honesta. As respostas, nem sempre. E nem sempre também por desonestidade intelectual ou de sentimento. Por desconhecimento do que é política além do jogo eleitoral.
Por fraude no coração, que comumente engana o dono com a ilusão de que sua causa é soberana na moral e no empreendimento proposto, quando não passa de mundana no comportamento diante da vida com fé pública.
São maioria os que prometem o céu ao eleitor, mas que o têm apenas para si, para a locupletação das próprias vontades. O político ideal e o homem idealista não são habitantes do mesmo mundo.
É praxe a gravação de um vídeo de apresentação de candidatura, no início de uma campanha. E não faltam variáveis linguísticas capazes de dourar a pílula dos propósitos vendidos. Um bom redator resolve. Pesquisas qualitativas traçam o caminho.
Diante da receita de bolo para dizer coisas maravilhosas, o que importa é o leitor. Mas o leitor das frases encomendadas, concatenadas na estratégia. O outro leitor, ou telespectador, ou internauta, esse não sabe o que engole, se não recusa o prato.
Sou candidato porque esta é uma missão divina. Sou candidato para ajudar as pessoas. Sou candidato porque nasci povo. Sou candidato por vocação. Para consertar as coisas erradas no meu Estado.
Ninguém diz sou candidato porque quero poder: poder fazer o que quiser e ainda ser aplaudido pelos puxa-sacos. Ou: sou candidato para engatar negócios paralelos na administração.
Sou candidato porque tenho necessidade extrema e urgente de foro privilegiado. Porque quero imunidade com privilégios. Sou candidato para ter e distribuir cargos, e fazer umas rachadinhas em paz.
Diante de uma câmera, pompa e circunstância. A voz fica grave, o semblante alteia, o olhar atinge horizontes retilíneos de intenções republicanas. Nada foge ao figurino de estadista doando-se ao mundo.
O brilho das lâmpadas enobrece as palavras fluidas e cristalinas da poesia das urnas. Tudo se alinha ao foco premeditado. A respiração é contada segundo as batidas do coração de quem vai olhar e precisa se encantar – por mérito do marketing, senão não vale a pena.
Entre a realidade e o mundo dos vídeos, os candidatos a postos-chave na administração em nome do povo se esforçam. Disfarçados em quem não são, escondem-se em suas múltiplas camadas morais, cívicas, humanas.
Até a eventual derrota final, por incontornável exaustão deles e do eleitor. Mas, até o último minuto, suspira o personagem. Ele não vive em vão. Vive nos vãos, lugar comum.
As aparências enganam quem não quer ver. Na trama do poder, políticos e eleitores se confundem no papel que desempenham. Um é o outro. Os discursos falados e ouvidos revelam as intenções mútuas e as interpretações, nunca escondem a essência.
Não há uma solução para o impasse das contradições da política, a não ser o riso do escárnio das tentações populares refletido nas hipocrisias eleitas. Resta brincar de palavras, regozijar-se nos falsos sentidos. Nos falsos e nos sentidos.
A metáfora nos salva. A fábula nos pereniza. Os contos, as crônicas, os romances históricos e os fluxos de consciência nos libertam. Você lê isto aqui e pensa, à mercê dos estranhamentos subliminares, que… perceba: você lê, você pensa, você.
Haverá sempre a esperança. Esperança é um texto a ser lido pelo candidato, que o candidato lerá sem nunca saber exatamente o que está escrito, e a razão de estar lendo, e de ele também estar escrito.
Ao cabo, o candidato não se protagoniza no personagem que concebe. Acredita que sim. Mas é tão manipulado na usura da alma quanto aquele que imagina manipular. Evolução espiritual não é política divina. É destino ao inferno.
Você é candidato para quê? Para quem? Por quê? Em qual porto vai chegar o propósito mais persuasivo de um político, a verdade de um homem ou de uma mulher? Para onde você vai com o seu caminhar? Para onde pretende nos levar?
Não há verdades na política. Nem mentiras. Apenas homens e mulheres absolutos em sua noção. Expor-se ao público é esconder as idiossincrasias na contraluz das narrativas calculadas. É dar conhecimento de um desejo particular com roteiro de história pública. Faz parte.
O propósito da política é a vida em meio ao caos. O propósito das pessoas é viver, enquanto isso. Quando olhar para câmera, respire fundo e pergunte: você sabe com quem está falando?
Se a resposta for positiva, significa que você sabe com quem está falando. Candidato e eleitor são o que o espelho mostra, ao contrário. As câmeras captam o que está a olhos vistos. Só não vê quem não quer.
