Uma em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos foi vítima de exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia em um período de 12 meses, segundo o relatório “Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a Violência Sexual Contra Crianças Facilitada pela Tecnologia”, divulgado pelo Unicef em março. O percentual corresponde a 19% dos entrevistados, cerca de 3 milhões de meninas e meninos.
O levantamento considera como violência sexual facilitada pela tecnologia situações em que ferramentas digitais são utilizadas em algum momento do abuso ou da exploração, seja para aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou disseminar material de abuso sexual. Os episódios podem ocorrer inteiramente no ambiente virtual ou combinar interações digitais e presenciais.
Entre as ocorrências identificadas, a exposição a conteúdo sexual não solicitado foi a mais comum e atingiu 14% das crianças e adolescentes entrevistados. Outro dado chama a atenção para o silêncio das vítimas: 34% não contaram a ninguém sobre a violência sofrida.
Para a jornalista e candidata a deputada estadual por Goiás, Arianne Cândido, o silêncio das vítimas é um dos principais desafios para identificar casos de aliciamento digital, prática também conhecida como grooming.
“O grooming é uma consequência de outro mal disseminado: o vício em telas. É uma prática silenciosa e insidiosa, que se inicia com alguma forma de atração desse jovem e evolui para práticas de exploração. Quando os pais notam, a situação delitiva já está instalada.”
Os primeiros indícios nem sempre são óbvios, mas mudanças comportamentais podem servir de alerta.
“Geralmente a criança fica mais quieta, menos expansiva. O adolescente fica mais nervoso, começa a aparecer com presentes que ele não explica a origem”, orienta Arianne.
Outros sinais observáveis incluem esconder a tela quando alguém se aproxima, apagar mensagens de forma constante e demonstrar nervosismo ao usar celular ou computador.
“É muito comum que adolescentes surjam em casa com objetos caros e de origem desconhecida, ou que tenham adquirido esses objetos com dinheiro que os pais não deram ou não conseguem identificar a origem.”
A candidata defende que o enfrentamento exige ação coordenada entre famílias, escolas e poder público e também chama atenção para o debate sobre a adultização infantil.
“A adultização não seria uma espécie de forma de preparar um cenário que no fim vai favorecer o abuso? Somente o debate maduro vai decidir.”
Confira a entrevista:
Portal Go: O que é o grooming?
Arianne Cândido: O grooming é a prática do aliciamento de menores, geralmente envolvendo situações de violência sexual e abuso a partir da exploração de crianças e adolescentes. Não é um crime novo. É a versão digital dessa conduta delitiva, e esse nome é uma novidade para o grande público.
Portal Go: O estudo mostra que uma em cada cinco crianças e adolescentes sofreu exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia. Quais sinais podem indicar que uma criança ou adolescente está sendo vítima de aliciamento digital?
Arianne Cândido: Aí é que está o maior desafio, porque o grooming é uma consequência de um outro mal disseminado entre nossas crianças e jovens: o vício em telas. Então, na maioria dos casos, é uma prática silenciosa e insidiosa, que se inicia com alguma forma de atração desse jovem e que evolui para práticas de exploração. Quando os pais notam, a situação delitiva já está instalada, com graves consequências principalmente para a vida emocional dessa criança ou desse adolescente.
Portal Go: Qual a melhor forma de os pais protegerem as crianças no mundo digital?
Arianne Cândido: A vigilância é importante, na forma de uma atenção muito cuidadosa em mudanças de comportamento. Geralmente a criança fica mais quieta, menos expansiva. O adolescente, por outro lado, fica mais nervoso, começa a aparecer com presentes que ele não explica a origem. A alteração de comportamento geralmente é o maior sinal de alerta. A outra frente é o estabelecimento de ferramentas de controle parental, não para proibir o acesso de forma a tolher o desenvolvimento da criança e do adolescente, que precisam ter o letramento digital, principalmente nos dias atuais. Mas o acesso ao que o filho ou filha está vendo é fundamental.
Portal Go: Como a sociedade pode fazer parte dessa rede de proteção?
Arianne Cândido: Estabelecendo esses mecanismos de controle, utilizando as redes de relações dessas crianças e jovens para auxiliar os pais nessa verificação de qualquer mudança mais brusca de comportamento. Você já deve ter notado que a imensa maioria desses casos é descoberta, frequentemente, na escola, a partir da observação atenta de professores. Então essa rede de apoio é imprescindível.
Portal Go: As big techs têm responsabilidade nesses números? Caso também sejam responsáveis, como puni-las?
Arianne Cândido: As Big Techs têm, sim, sua parcela de culpa, ao não estabelecerem critérios mais rigorosos de controle de conteúdo sensível. E há ferramentas que são quase uma piada de tão ineficientes. A mais emblemática delas é a obtenção de informação a respeito da idade do usuário pela mera autodeclaração. Dessa forma, basta a criança ou adolescente declarar com um clique “sim, tenho mais de 18 anos” para a plataforma do conteúdo sensível liberar esse produto. A sociedade tem que cobrar dos agentes públicos que criem marcos de regulação, que também não podem pender para a censura. É um equilíbrio delicado e difícil, mas possível.
Portal Go: De acordo com o estudo, é necessário retirar ou reduzir ao mínimo a presença infantil nas redes sociais?
Arianne Cândido: É necessário promover o letramento digital, uma cultura de liberdade com responsabilidade. Para aqueles conteúdos mais extremos, o limite ao acesso tem de vir das Big Techs. Elas precisam desenvolver ferramentas mais eficazes que a autodeclaração, que ainda é muito comum.
O debate mais recente sobre adultização considero que foi muito positivo, porque acrescentou mais uma camada ao debate: até onde começa o abuso? A adultização não seria uma espécie de forma de preparar um cenário que no fim vai favorecer o abuso? Somente o debate maduro vai decidir.
Portal Go: Qual a informação mais impactante do estudo e como o Brasil pode mudar esses números?
Arianne Cândido: Eu pessoalmente considerei que foi a amplitude da exposição de crianças e adolescentes a pelo menos um episódio mais recente de grooming. O percentual de 19% é inadmissível.
A consciência de que o grooming ocorre em camadas, e que as camadas iniciais são talvez as mais decisivas para interromper o ciclo de estímulos que podem levar ao abuso no futuro, é fundamental para um combate eficaz a esse crime. Nesse sentido, sociedade e Poder Público devem caminhar juntos sempre.
