Minha Nossa Senhora d’Abadia do Muquém, que me socorreu com uma súplica e me deu o milagre que carrego em êxtase. Sou um peregrino pequeno diante de tantos abençoados. Hoje é seu aniversário. Invoco sua proteção. Sua bênção.
Meu espírito vive em oração. Sou seu. Cuida da humanidade, e de mim. Fio-me na missa, quando o padre diz, mirando os céus em súplica e suspiro: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo.”
Acredito. Minha razão é esta: tenho fé. Os templos me são caminhos incertos. Os tempos me são dores e alegrias que carrego. Mas nada se compara ao choro que me faz escorrer por dentro toda vez que vem em minha lembrança os peregrinos de Muquém e suas histórias.
Uma vez dormi seis noites na festa da sua louvação. Rezei. Sorri. Sentei-me nas beiras dos leitos de ruas improvisadas e ouvi. Sem presente, só em nuvem. O debulhar de emoções, o congraçamento, o derramamento de sangue espiritual é tamanho e tão intenso que vira flor.
Sou um peregrino beija-flor. Beijo e vivo seu amor sem fim. Minhas asas vão ao seu encontro todos os dias, e hoje são a revelação da saudade e da salvação batendo sem parar. Bebo a sua presença, minha Nossa Senhora. Bebo a leveza de sua santidade. Sua abençoada interseção é meu guia, meu conforto, meu amparo, meu porto.
Aprendi na homilia diante de teus abraços que minha cruz é tão somente e unicamente minha, como sou todo, aos pés de sua imagem, com a fita da vida deslizando entre os dedos enquanto suplico Pai Nosso, Ave Maria. Não sou digno da cruz de ninguém. Nem ouso. Sou dono da minha travessia até o ato de misericórdia divino.
Minha Nossa Senhora d’Abadia, purifica meus gestos, meus pensamentos, enobrece meu labor e frutifica as bondades que Deus me confiou ao me conceber. Que eu seja eu, e acima de tudo, que eu seja aquele para onde Ele me conduz. Não quero nada de mim. Quero o que Ele me confiar. E merecer.
Sei que a vida tem realidades demais. Espinhos vicejando em dimensões inauditas. E que amores falham na virtude de sua intensidade. Toma meu coração. Ele não é matéria explícita. Que não seja palavra vã. Que jamais se reduza a obra humana. Que meu sangue escreva salvação e seja legível aos encantos.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Rogo pelas páginas viradas. Que permaneçam abertas ao toque dos que beijam as flores em mim. Que eu tenha flores. Que eu beije infalivelmente. Seja verbo acolhido e transformado. Minha amada, minha Nossa Senhora d’Abadia. Ando em peregrinação a vida inteira. Rumo a Muquém.
