Lá pelos meados da faculdade, quis ser mesário. Em teoria, aquilo seria uma via de mão dupla: as horas complementares e — uau — o senso de cumprir um dever cívico ao menos uma vez na vida.
Essa epifania, um tanto distante daquela originada por Arquimedes em sua banheira, me salvou de uma forma que eu não podia imaginar.
O que haveria de misterioso em um colégio qualquer pelo qual várias vezes passara na porta? Bem, para desapontamento, nenhum, mas me levou de volta a um tempo em que fui extremamente feliz e não tinha ideia.
Pensei que estava prestes a ser preso ou sequestrado, quando um homem em um carro preto parou na porta de casa e perguntou por mim. Era só a convocação para a função.
Nada demais, seria secretário. Ia ficar na porta controlando a entrada e saída. Mas aquilo me trouxe para mais perto, para ver como funcionava o que supostamente era tão vulnerável quanto… não sei… um idoso.
A realidade não tem nada a ver com a desconfiança.
Cheguei bem cedo, procurei minha sala. Bem em frente à quadra. Um curso de capacitação é oferecido pela internet, nada difícil. Conheci meus colegas de eleição. Simpáticos, mas mais tarde eu me chocaria. Tiramos a Zerésima, para atestar a todos que as urnas não teriam votos, e a preguei na parede ao lado da porta.
A sala estava toda preparada. As cortinas bem fechadas, e mesmo assim isso não impediu, mais tarde, que criminosos fossem para os fundos para tentar “apenas” olhar certas pessoas votando. Isso garantindo, por A+B, que não se conheciam.
São essas mesmas pessoas que mais tarde enchem a boca para dizer que bandido bom é bandido morto. Hierarquizar crimes. Crime é crime, ponto final.
Na hora de pensar em legalidade, as amarras afrouxam. Na cabeça desse tipinho, é coisa pouca “garantir o voto” ao candidato corrupto que orquestrou aquilo.
Acho que o que mais deu dor de cabeça foi limitar as pessoas que costumo apelidar de integrantes da Sociedade do Espetáculo. É da natureza humana querer algum tipo de atenção, mas as pessoas buscam cada coisa irrelevante… levar o telefone à cabine para mostrar em quem está votando. Além de isso ser o cúmulo, pode servir para a “compra de voto”.
Quase tivemos de acionar a polícia, mas deu tudo certo. Em outra ocasião, um sujeito de “reputação ilibada” não teve a mesma sorte.
Até me lembrei da cantora Gretchen quando foi presa fazendo boca de urna. Me veio a reportagem da TV Anhanguera na cabeça na hora.
E agora a surpresa que talvez choque alguns de vocês, leitores — ou não — afinal, hoje em dia tem de tudo. Tem médico antivacina, tem professor de universidade federal que produz ciência, mas acredita somente na que ele produz, enfim…
Eu já sabia que o mundo era feito de várias contradições, mas genuinamente não esperava encontrar mesários teóricos da conspiração que não acreditavam naquilo pelo qual estavam trabalhando VOLUNTARIAMENTE.
Sala preta do TSE? Hã? Quem me alertou foi a colega que tinha a mesma idade.
Descobri em 2022 e os reencontrei em 2024.
E se aquela sala de aula, com suas cortinas fechadas e seus mesários incrédulos, já era o Brasil em miniatura, o país lá fora não fazia mais do que repetir a cena em escala maior.
Considero que as eleições são um eterno Mito de Sísifo. Os eleitores votam nos mesmos candidatos esperando mudanças significativas, mas estas vêm a passos lentos de estrela do mar virada de ponta-cabeça, que ainda precisa esperar a boa vontade da maré para voltar ao oceano.
Um passo à frente, dois para trás.
Querem mais saúde pública, mas votam em quem enfraquece o SUS para favorecer hospital particular.
Votam em um presidente e esquecem que, para debater as condições do país, ele precisa de parlamentares minimamente interessados em conversar seriamente sobre a pátria — seja de esquerda ou de direita —, e não que reduzam seus trabalhos ou posicionamentos ideológicos a frases de efeito para gerar cortes em redes sociais.
Eu já estava cansado de ficar na porta e aproveitei que um dos conspiracionistas ia sair para o almoço para, então, assumir seu lugar na mesa.
— Boa tarde! Identificação e título, por favor.
— Claro! — disse o velhinho.
Ele, todo orgulhoso, entregou sua “carteira de votação”.
Aquele senhorzinho era a história em pessoa conversando comigo.
Quantas pedras ele empurrou morro acima?

