Neymar merece uma parte das críticas, mas transformá-lo no responsável pelo fracasso brasileiro é uma simplificação que o futebol raramente permite. Veja por quê.
Primeiro, ele não disputou a Copa em seu auge físico. Voltou de uma sequência de lesões, chegou sem o mesmo ritmo e, naturalmente, não tinha condições de carregar sozinho uma seleção como fez em outros momentos da carreira.
Segundo, o futebol é um esporte coletivo. O Brasil caiu diante da Noruega por 2 a 1 porque foi superado como equipe. Houve problemas de marcação, de recomposição, de criação ofensiva e, principalmente, dificuldade para transformar posse de bola em chances reais de gol. Isso não é responsabilidade de um único jogador.
Terceiro, talvez tenha sido vítima da própria grandeza. Durante mais de uma década, acostumou o torcedor a acreditar que resolveria qualquer partida. Quando o Brasil vencia, era “o gênio”. Quando perdia, virava “o culpado”. Esse é o preço pago pelos craques.
Mas também seria injusto absolvê-lo completamente. Durante anos, Neymar aceitou, e muitas vezes alimentou, a condição de protagonista absoluto da Seleção. Quem assume esse papel também assume uma parcela maior da responsabilidade pelos resultados. Liderança não significa apenas levantar taças. Significa, também, dividir derrotas.
Na minha leitura, o maior problema da Seleção foi outro. O Brasil continua formando excelentes jogadores, mas ainda procura uma identidade coletiva. Durante décadas, bastava aparecer um Pelé, um Zico, um Romário ou um Ronaldo para desequilibrar. O futebol mundial mudou. Hoje, vence quem apresenta organização, intensidade, disciplina tática e compromisso coletivo.
Foi exatamente isso que a Noruega apresentou. Neymar não perdeu para a Noruega. O Brasil perdeu para uma seleção que funcionou melhor como equipe.
Talvez exista uma reflexão ainda mais profunda. O torcedor brasileiro insiste em procurar um herói quando vence e um vilão quando perde. O futebol raramente funciona assim. As Copas do Mundo costumam ser conquistadas e perdidas por onze jogadores, por um treinador e por um projeto esportivo inteiro.
Talvez a maior injustiça com Neymar tenha sido esperar que ele resolvesse, sozinho, problemas que pertenciam à Seleção Brasileira como um todo. É uma carga pesada demais para qualquer camisa 10.
