Quem escreve demais, dá bom dia ao inconsciente. Nem tudo é recado, mas tem muito recado que não é para ser, não parece ser, e que acaba que é, vem a ser, por sermos muito além do que achamos e do que acham de nós. Gosto da ideia de que somos nós. Desatamos a ser.
Por ser – sujeito, verbo, adjetivo -, e por assim entendidos, escrevemos e somos lidos. Somos sem ver, ou sem que nos vejam sob a terra, germinantes. Gosto de outra ideia: a de que somos simples complexos. Mire o espelho. O que há, senão o que não tem explicação, simplesmente?
Hoje tá mais difícil ser isento nas intenções. Um meme, um vídeo, qualquer coisa enviada a alguém pode muito bem ser um recado. Se assim for, ou se assim for recebido – insisto. E pode muito bem ser que seja isso mesmo, por distração subliminar pessoal ou por indução da mente em conluio com o coração. Por exemplo.
Este texto pode estar sob os olhos de alguém que nem imagino neste momento, mas que lê linha por linha e se sente alvo do que estou dizendo, sugerindo, subentendendo. E só está dizendo o que esta escrito? Ninguém sabe, nem eu ao certo. Pensa: saberei, logo eu, o que anda na imaginação de uma pessoa outra?
Como fazer, então, se tudo é comunicação, não me pergunte. Eu é que estou perguntando. Questão de foro íntimo, essa, para diálogo diletante diante do espelhamento da alma. Alma frente à realidade das coisas. Alma olhada desde a alma das palavras que a dicionarizam. Não nos limitemos nos conceitos.
Outro dia eu só queria que uma pessoa se tocasse que eu estava me lembrando dela, estava com ela em mente, na ponta ponta da língua e tudo. Só uma dica, duas palavras, nenhuma intenção fugidia de origem duvidosa enviada a mais. Saudadezinha carinhosa, meticulosa, felizinha no baile, a carregar não mais que um “tudo bem?”, se tanto.
O que era doce, virou auê. Um fuzuê dos santos diabos. Tive que dar satisfações da minha intenção real, explicar, convencer. Nem acho que dei conta dos fatos, se fui bem sucedido. Se confundi em minha defesa, ao menos. Ao menos, sacudi a lembrança. Amores se perdem na pretensão da linguagem. Amores se perdem na gramática insensata.
A mensagem emitida confronta a menagem recebida, a bomba atomiza as relações, o passado se desencadeia em cacos mal resolvidos, em recordações metódicas de efeito incontrolável, e aí, e ai, e aí está perdida a voz da razão emocional. O desentendimento toma conta da verdade. O correto sensível deixa de ser recíproca legível.
Deu preguiça com a reação da pessoa que eu só queria amar à distância. Depois fiquei rindo sozinho. Meu infortúnio carrega aquelas circunstâncias elementares das tragédias clássicas. Um nada se torna um tudo envolvente e túrgido, de início aterrador, redundando após, enfim, em um labirinto de alegrias e agonias e êxtases, sensações que nos desafiam a sobreviver. Retratos explícitos do espetáculo ser.
Eu não escrevo pensando. Eu penso escrevendo. Faço terapia escrevendo. Escrevendo, me salvo. Vivendo, me escrevo. No gerúndio está meu aconchego e o meu movimento perpétuo com texto. Há transparência sobre meus sentimentos ainda nas obscuridades das frases aparentemente indecifráveis. Tô inteiro lá, veja bem. Não há disfarce no livre arbítrio da soma das letras. Quando muito, poesia.
Fico abstrato para ser material. E o contrário ao mesmo tempo e hora. Sei, de alguma forma, que este é o meu mais flagrante recado para mim. Do meu jeito, me digo: “Tá vendo?”. Ou: “Toma essa!”. Ou: “Viu aí?!” Com todas as meias palavras. Tô me informando que sei do que estou falando, que sei o que não estou falando, e que sei muito bem o que tô passando soba pele e no arrepio desta tênue superfície.
Meus recados mais cruéis são esses: o que vão para mim mesmo. Se alguém se sentir invadido, ofendido, agredido com o que possa ser um toco meu no seu cangote, ou com o que falo por falar, ou com o que enfio em um texto farto, saiba: comigo é pior. Acontece que normalmente estou me vingando de quem sou, contra os que talvez seja, mesmo quando escrevo parecendo que não se trata de mim – que é munição pra matar você.
Não quero perdão. Eu, por mim, não me perdoo. Tento me compreender, aprender comigo, com os outros, com tudo que acontece de veracidade ou de forma imaginariamente à minha volta. Como criação literária. Autocomiseração. Autoflagelação. Auto-sabotamento. Não há limite para a divina providência da sensação.
Faço literatura por isso. Quando não estou real o suficiente, ou naqueles dias em que estou irreal demais, levo a mochila e enveredo para uma metáfora sombria, para uns versos enveredados de choro e saliva, me sirvo de dos desentendimentos alheios, me deixo. Bato cada bosque em tempestade e me sirvo.
Sirvo pra mim. Sirvo para quem lê ou ouve. Sirvo para alguma coisa, como dizem pelos lados da terra que carrego no grosso couro das circunstâncias familiares. Rezo também. Releio. Deixo que as coisas se acalmem, que o vento pare de zunir. Fico só com o zumbido imutável do meu ouvido, companheiro figadal a tecer meus dias e de-noites.
Alimento a veleidade de que escrevo para a História. Meu recado é igualmente para o tempo e a fé. Para quem vai ler lá na frente, conhecer o que acontece aqui a cada segundo ido. Cada símbolo de agora leva um sentido líquido para o futuro. Tenho esse poder, porque tenho todos os tempos no meu tempo impossível.
Eu comunico comigo o tempo todo. Em todo acaso, nunca saberei como serei lido, ouvido, compreendido – correspondido. Não estarei lá para ver. Vejo agora a mensagem em retorno. O aviso misterioso da existência humana. A dica mística da eternidade. O recado do espírito.
Ouço. Escrevo. Vivo. Me deixo morrer na medida do tempo do Senhor. Tem texto que escrevo e não leio. Escrevo para não ler. Escrevo sendo um. Não leio, sendo outro. Sendo eu mesmo, minha escrita e divina. Nunca serei um recado se você não ler. E se não ler do início ao fim. Logo eu, que não tenho início e fim.
