A política tem seus confrontos. A medicina tem seus diagnósticos. Misturar uma coisa com a outra costuma produzir mais calor do que luz. É exatamente isso que começa a acontecer em torno da saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nos últimos dias, surgiram manchetes sugerindo que a crise entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro teria provocado uma piora no estado de saúde do ex-presidente. A narrativa é forte. O problema é que ela não encontra respaldo no boletim médico.
O relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal informa que Bolsonaro apresentou picos hipertensivos moderados, controlados com ajuste da medicação, e mantém uma alteração residual no pulmão esquerdo, consequência do quadro respiratório recente. O documento registra ainda que a ausculta cardíaca é normal,
não recomenda internação e orienta apenas a continuidade do tratamento e da fisioterapia.
Em nenhum momento os médicos estabelecem qualquer relação entre esses episódios e o ambiente político ou familiar vivido pelo ex-presidente.
Isso não significa que conflitos familiares sejam irrelevantes. Qualquer pessoa submetida a forte tensão emocional pode apresentar alterações na pressão arterial, no sono ou no humor. Mas uma hipótese não é uma conclusão médica. Entre uma preocupação legítima e uma afirmação categórica existe uma distância que o jornalismo sério não pode ignorar.
Quem fez a ligação entre a crise familiar e a saúde de Bolsonaro foram aliados políticos, preocupados com seu estado emocional. Eles têm todo o direito de expressar essa percepção. O que não se pode fazer é transformar uma opinião em diagnóstico.
Aliás, Bolsonaro já carrega um histórico clínico suficientemente complexo para explicar a necessidade de acompanhamento permanente. Desde a facada sofrida em 2018, passou por diversas cirurgias, enfrentou aderências intestinais, crises de obstrução, pneumonias, broncopneumonia e um longo processo de reabilitação
física. É um paciente que inspira cuidados constantes, independentemente do noticiário político da semana.
Também seria um equívoco minimizar seu estado de saúde. Os picos hipertensivos merecem atenção, assim como as sequelas pulmonares ainda presentes. Mas daí a concluir que uma discussão entre familiares provocou a piora clínica, há um salto que os próprios médicos não deram.
Vivemos uma época em que a velocidade das redes sociais muitas vezes atropela a prudência. Uma manchete chamativa gera milhares de compartilhamentos em poucos minutos. A correção, quando aparece, costuma chegar tarde e alcançar muito menos pessoas.
A saúde de um líder político nunca deixará de despertar interesse público. É natural que a sociedade queira saber se um ex-presidente está ou não em condições de cumprir compromissos ou enfrentar processos judiciais. O interesse é legítimo. O sensacionalismo, não.
Em tempos de polarização, convém lembrar um princípio elementar: a medicina deve continuar sendo escrita por médicos. A política, pelos fatos. Quando uma invade o território da outra sem provas, perde a verdade. E, numa democracia, a verdade continua sendo um patrimônio que vale muito mais do que uma manchete de impacto.
