A Editora CRV relançou, na última semana, o livro “Possibilidades Contra-Hegemônicas na Construção do Discurso Eleitoral”, do jornalista e professor Luiz Carlos do Carmo Fernandes.
O autor publicou a obra originalmente como e-book em 2015 e agora a revisita com um aprofundamento do conceito pioneiro de “agendamento cidadão”, uma contraposição crítica à hegemonia do marketing político e da mídia tradicional na formação do discurso eleitoral.
Luiz é doutor em Sociologia Política, com pós-doutorado em Comunicação, e acumula mais de 30 anos de atuação em comunicação política e estratégia eleitoral. A pesquisa empírica que sustenta a obra ocorreu na Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás (FIC-UFG).
Nessa nova versão, Luiz destaca o Relatório da Democracia 2025 do V-Dem, que aponta mais regimes autocráticos do que democráticos no mundo, com cerca de 72% da população mundial vivendo em autocracias.
Conversamos com o autor sobre as diferenças entre a primeira versão e o novo livro. Confira a entrevista abaixo:
Portal GO: A primeira edição do seu livro foi lançada em 2015; 11 anos depois, quais as principais diferenças no marketing político que justificam esse relançamento?
Luiz Carlos do Carmo Fernandes: Em 2015, o marketing político ainda operava na lógica da persuasão de massa. Hoje, vivemos a era da hipersegmentação e da vigilância algorítmica. O relançamento se justifica porque o diagnóstico que fiz há 10 anos sobre a ‘guerra de narrativas’ não só persistiu, como se tornou a base do sistema.
A grande diferença é que agora a tecnologia permite silenciar o cidadão com muito mais eficiência através de bolhas. O livro resgata a necessidade de furar essas bolhas através do que chamo de Agendamento Cidadão.
Portal GO: As redes sociais voltadas para a política sofreram grandes transformações de 2015 para cá; elas hoje são capazes de decidir eleições?
Luiz: As redes não decidem sozinhas, mas elas condicionam o campo de batalha. O risco que aponto no livro é a ‘espetacularização’ da política. De 2015 para cá, as plataformas deixaram de ser ferramentas de debate para serem ferramentas de interdição.
Elas decidem eleições na medida em que conseguem pautar o que é ‘discutível’, muitas vezes ignorando as dores reais da subcidadania para focar em polêmicas de engajamento.
Portal GO: Sempre que falamos em política nos tempos atuais, falamos muito sobre fake news. Como o eleitor brasileiro se protege desse mal do século 21?
Luiz: A proteção não é apenas técnica (fact-checking), é epistemológica. No livro, defendo que o eleitor se protege quando exerce a Cidadania Democrática — que é o direito de não ser apenas um receptor de informação, mas um emissor.
A desinformação prospera onde a cidadania é frágil. O eleitor precisa recuperar sua ‘Racionalidade Política’ para entender que a mentira digital é uma ferramenta de manutenção de hegemonia.
Portal GO: Nessa edição você cita o aumento de governos autocráticos ao redor do mundo. Como o Brasil pode se prevenir quanto à volta de um regime destes?
Luiz: Os dados são alarmantes: o Relatório V-Dem 2026 confirma que 74% da população mundial vive sob regimes autoritários. O Brasil se previne fortalecendo a Sociedade Civil.
No livro, mostro que a autocratização começa na ‘tecnicização da palavra’ — quando o discurso político se descola da realidade do cidadão. A prevenção é o Agendamento Cidadão: forçar os candidatos a debaterem a vida real, e não apenas simulacros de marketing.
Portal GO: Viveremos em 2026, ao que tudo indica, a eleição mais polarizada desde a redemocratização. Nesse aspecto, estamos em um ponto de não retorno? Como diminuir essa temperatura que parece cada dia mais próxima da ebulição?
Luiz: Não acredito em ponto de não retorno, mas em ‘ebulição comunicacional’. Para diminuir a temperatura, precisamos sair da ‘Democracia de Audiência’ e voltar para a Deliberação. O marketing político atual vive do conflito.
O antídoto que proponho é usar as pesquisas qualitativas não para manipular o eleitor, mas para trazer a voz dos ‘subalternos’ para o centro do HGPE. É a única forma de humanizar o adversário.
Portal GO: A polarização política atual diminui, na maioria da população, o sentimento de cidadania democrática?
Luiz: Sim, porque ela transforma a cidadania em torcida. O cidadão deixa de avaliar políticas públicas (Accountability) para validar identidades.
No meu estudo de caso em Goiânia, percebi que o ‘subcidadão’ muitas vezes vê o voto como obrigação ou favor, e a polarização agrava isso ao vender a ideia de que o outro lado é um inimigo a ser exterminado, e não um concidadão com quem se deve pautar o país.
O livro está disponível no site da editora CRV e em outras livrarias do estado de Goiás.
