As pesquisas eleitorais em Goiás se multiplicam. Umas colocam Daniel Vilela na liderança. Outras apontam Marconi Perillo à frente. Algumas registram empate técnico. O resultado é uma sucessão que, pelos números, continua completamente aberta.
Mas existe uma pergunta que talvez esteja sendo pouco feita: as pesquisas estão conseguindo captar o verdadeiro humor do eleitor goiano?
A leitura dos jornais, as conversas pelo interior e os relatos vindos de diferentes setores da sociedade revelam um cenário mais complexo do que os percentuais apresentados pelos institutos. Há um sentimento de insatisfação que atravessa diversas categorias do serviço público e esse é um fator que dificilmente aparece nas tabelas.
Os professores convivem com sobrecarga de trabalho, déficit de profissionais, adoecimento crescente e cobranças por melhores condições de exercício da profissão. Na segurança pública, policiais civis reivindicam valorização da carreira e o cumprimento de acordos firmados com o governo. Entre policiais militares, embora tenham ocorrido promoções e avanços, persistem reclamações relacionadas à rotina de trabalho, distribuição do efetivo e outras questões internas da corporação.
Na saúde, médicos e demais profissionais enfrentam reclamações recorrentes sobre remuneração, atrasos de pagamentos por parte de organizações sociais, falta de insumos, superlotação das unidades e aumento dos episódios de violência durante os plantões.
Essas categorias representam parcela significativa do funcionalismo estadual. São dezenas de milhares de servidores espalhados por praticamente todos os municípios goianos. Mais do que eleitores, são formadores de opinião. O professor conversa diariamente com alunos e pais. O policial mantém contato permanente com a comunidade. O médico atende centenas de pessoas todos os meses. O voto deles não termina na urna; muitas vezes influencia o voto da família, dos amigos e do círculo social.
Daniel Vilela carrega um desafio particular. Além das cobranças dirigidas ao governo que hoje representa, também convive com a memória administrativa do MDB em Goiás. No governo de Íris Rezende, sobretudo no primeiro mandato estadual, as relações com o funcionalismo foram marcadas por fortes tensões provocadas por medidas de ajuste fiscal, congelamento salarial, demissões em massa e sucessivos conflitos com diversas categorias.
Já Maguito Vilela deixou outra lembrança: a do diálogo. Mesmo limitado pelas dificuldades financeiras herdadas de governos anteriores, buscou manter canais permanentes de negociação com os servidores, característica que lhe rendeu respeito pessoal entre muitas lideranças do funcionalismo.
Marconi Perillo construiu uma história diferente nessa relação. Ao longo de quatro mandatos, implantou planos de carreira para diversas categorias, preservou a regularidade dos pagamentos mesmo em períodos econômicos difíceis e ampliou benefícios reivindicados por segmentos do serviço público. Ao final de suas gestões, recebeu
homenagens públicas promovidas por diferentes categorias de servidores. Manifestações que expressavam reconhecimento pelo relacionamento construído durante seus governos.
Isso significa que esses votos já estão definidos? Evidentemente que não. Significa apenas que existe um patrimônio político que não pode ser ignorado. Gratidão não garante voto. Mas ajuda a abrir portas, facilita o diálogo e cria um ambiente de receptividade que pode fazer diferença numa eleição equilibrada.
Talvez seja justamente aí que esteja a principal limitação das pesquisas. Elas medem intenção de voto, mas têm maior dificuldade para captar intensidade de sentimento. Não conseguem medir com precisão o tamanho da insatisfação, nem a capacidade que determinados grupos organizados possuem de irradiar opiniões e influenciar outros eleitores.
Por isso, talvez a eleição goiana esteja sendo decidida menos nos gráficos divulgados semanalmente e mais nas salas de aula, nas delegacias, nos quartéis, nos hospitais e nas repartições públicas. Se esse descontentamento permanecer restrito às conversas de corredor, pouco irá alterar o resultado das urnas, mas, se transformar-se em
mobilização política, poderá mudar completamente o roteiro da sucessão estadual.
Há pesquisas demais. Talvez esteja faltando ouvir um pouco mais a realidade.
