Meu amigo, conte uma história boa para o seu cérebro. Ele não sabe o que é a verdade. Isso que você está contando pra ele é uma verdade muito dura, e essa não é a verdade toda.
Me disse uma amiga depois que lhe contei a merda que eu tinha acabado de fazer. Eu tinha cometido o maior dos pecados do mundo – julguei na hora, como sempre, em se tratando de mim – e provocado o universo com minha maldade inaudita.
Eu me sentia como penso que sentem as feridas expostas tocadas pela ponta dos dedos de um sádico intocado pelas bênçãos. Dá pra entender, imagino, que eu vivia pela hora das mortes urgentes. Aquele exato momento em que suspiramos e.
Ouvir a frase me assustou. A beleza da mensagem era evidente. A crueldade com minha dor, revelando sua fragilidade humana, me fraturava. Mas a grandeza do sentido que ela carregava, pelo que dizia nas palavras e pelo que expressava no gesto, isso era maior, e isso me aturdia.
Conte uma história boa para o seu cérebro carrega mais de um coração na frase e aquele céu dos sonhos no sentimento. Transborda e faz sopitar a carne que convulsiona com o agitar da alma. Conte uma história tem sol dentro da lua, e não tem página indigesta.
Não há realidade que não germine da metáfora. Não há fábula sem chão. Aos poucos, meus batimentos se acalmaram. Pude ouvir o som dos meus conselhos. Respirei o espaço à minha volta. Passo a passo o vento leve caminhou comigo e o cheiro de despertar me sossegou.
Cheguei ao jardim. Sentei-me no banco. Fechei os olhos. Contei-me sobre o dia em que me vi pela primeira vez. Não deixei um segundo fora da minha linha de tempo. E, no final, não havia nada além de nada. Só eu e a minha escrita sorrindo. Só eu e a minha amiga, na verdade.
Este fato inesperado fato me salvou do outro, desesperado.
