O subsolo de Goiás tornou-se neste mês de abril, o epicentro de uma disputa que ultrapassou as fronteiras do Cerrado. O estado abriga hoje um dos ativos mais cobiçados da economia moderna: as terras raras. Essenciais para a fabricação de ímãs de alta potência — motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e tecnologia de defesa —, esses minerais colocaram o Brasil numa encruzilhada de interesses internacionais, conflitos entre União x Estado e pressões socioambientais.
Abaixo está o que você precisa saber sobre esse embate.
A venda bilionária e o interesse norte-americano
O fato mais recente e impactante foi anunciado em 20 abril de 2026. A mineradora norte-americana USA Rare Earth (USAR) adquiriu totalmente o Grupo Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões.

A Serra Verde, operando em Minaçu, no norte de Goiás, é a única mina de argilas iônicas em escala comercial fora da Ásia capaz de produzir os quatro elementos mais críticos: disprósio (Dy), térbio (Tb), neodímio (Nd) e praseodímio (Pr).
A entrada dos EUA no controle total da operação faz parte de um movimento estratégico para reduzir a dependência global da China, que hoje domina mais de 90% da cadeia de processamento desses minerais.
O conflito Estado x União
O avanço da mineração em Goiás gerou um curto-circuito institucional. O governo estadual, sob a gestão do então Governador Ronaldo Caiado e o vice Daniel Vilela, vinha buscando autonomia na gestão desses recursos.
Em 2025, foi aprovada a Lei nº 23.597, que criou a Autoridade Estadual de Minerais Críticos e zonas especiais com licenciamento acelerado.
O ponto de atrito ficou na divergência entre as esferas governamentais: o Estado defende a realização de acordos diretos para atrair investimentos e tecnologia, citando o memorando assinado com os EUA em 18 de março de 2026 , enquanto a União, por meio do Ministério de Minas e Energia (MME) e da Presidência da República, critica duramente essa postura.

O governo federal fundamenta sua posição no fato de que o subsolo pertence à União, conforme o Artigo 20 da Constituição Federal, e que as relações internacionais são competência federal exclusiva, temendo que os estados promovam um “leilão” de recursos estratégicos sem uma política nacional de defesa de valor agregado.
“Verticalização”
Anteriormente, o processamento final, que é a separação química dos elementos, dependia majoritariamente de plantas na China. No entanto, com a aquisição pela USA Rare Earth, o objetivo é integrar a produção goiana a uma cadeia “mine-to-magnet”, onde a separação e a fabricação de ímãs ocorrerão em solo norte-americano e de aliados, rompendo a dependência asiática.
O embate aqui é econômico: o governo goiano declarou publicamente que “exigirá investimentos na agregação de valor”. O objetivo é que o estado não seja apenas um exportador de matéria-prima, mas que instale plantas de separação e, futuramente, fábricas de ímãs. No entanto, o custo tecnológico e energético para essa transição é o grande obstáculo para as mineradoras.
Impactos socioambientais
E como nem tudo é economia, o avanço da mineração de terras raras pressiona biomas e comunidades tradicionais. A exploração de argilas iônicas, embora seja menos agressiva que outros tipos de mineração, exige grandes áreas de lavra superficial.
Organizações como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e grupos quilombolas têm questionado a rapidez do licenciamento sob a nova lei estadual. Há receios sobre a segurança hídrica e a contaminação por subprodutos radioativos (como tório e urânio), ainda que depósitos de argilas iônicas em Goiás apresentem teores naturalmente baixos desses elementos.
Ealém de Minaçu, novos projetos em Iporá (Appia Rare Earths) e Nova Roma (Aclara Resources) estão em fases de pesquisa mineral e exploração, aumentando a área de tensão entre o agronegócio, a preservação do Cerrado e a extração mineral.
O que esperar no restante de 2026?
O embate jurídico sobre a Lei 23.597/2025 deve chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF), decidindo se os estados podem ou não criar regras próprias para minerais críticos. Enquanto isso, o mercado observa se o capital norte-americano trará, de fato, a prometida planta de separação química para solo goiano ou se Goiás continuará sendo apenas um mero fornecedor para as potências tecnológicas.
