A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF) deflagraram, na manhã desta quinta-feira (23), a segunda fase da Operação Sepse. O objetivo central da ação é desmantelar uma sofisticada rede de lavagem de dinheiro alimentada por desvios de recursos públicos no Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia (HMAP). A ofensiva cumpre mandados de busca, apreensão e bloqueio de bens expedidos pela 11ª Vara Federal Criminal de Goiás.
As investigações apontam que uma Organização Social (OS), responsável pela gestão da unidade de saúde com verbas do Sistema Único de Saúde (SUS), servia de base para um esquema de corrupção e peculato. Segundo os órgãos de controle, controladores da OS direcionavam contratos fraudulentos e superfaturados de gestão de leitos de UTI para empresas parceiras. Em troca, os sócios dessas empresas devolviam cerca de 10% dos valores recebidos como propina.
Estrutura de lavagem e “smurfing”
Para ocultar o rastro do dinheiro ilícito, o grupo utilizava técnicas complexas de ocultação de patrimônio. Entre as práticas identificadas estão o layering (sucessivas transferências para dificultar o rastreamento) e o smurfing, que consiste em saques fracionados em espécie para evitar alertas automáticos dos órgãos financeiros. Em um dos casos, um único suspeito teria sacado mais de R$ 1,5 milhão de forma pulverizada.
O fluxo financeiro contava com a participação de “laranjas”, incluindo familiares dos investigados, além de empresas de fachada, como lavanderias e escritórios de contabilidade. A perícia identificou ainda o chamado “movimento circular de capital”, onde valores eram enviados a terceiros e retornavam aos beneficiários originais quase integralmente, simulando empréstimos ou serviços inexistentes.
Manutenção da higidez jurídica
Um ponto crucial desta fase da operação foi a estratégia jurídica para manter a validade das provas. Após o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) anular elementos colhidos inicialmente pela Justiça Estadual, o Gaeco (MPF) instaurou um novo inquérito. A nova base investigativa utilizou a “Teoria da Descoberta Inevitável”, fundamentando as acusações em dados autônomos e públicos extraídos do Portal da Transparência, garantindo que o processo não fosse comprometido por nulidades anteriores.
Nesta segunda fase, o foco recai sobre o núcleo diretivo da organização e os operadores financeiros que davam aparência de legalidade aos recursos desviados da saúde pública goiana.
