O que resta de uma tragédia quando a tela da ficção se apaga? Enquanto a série Emergência Radiotiva da Netflix conta a história do Césio-137 e ainda domina as conversas, o antropólogo e pesquisador de imagens e memória, Jorge Cordeiro, percorre um caminho inverso. Através de vídeos que viralizaram no TikTok e no Instagram, ele expõe uma ferida que Goiânia tenta cicatrizar com o silêncio: o apagamento deliberado das vítimas e da história periférica da capital.
Em entrevista ao PortalGO, Cordeiro discute a “geografia dos ausentes”, critica o impacto das grandes produções audiovisuais na vida dos sobreviventes e revela como o descaso com os cemitérios é a tradução final de uma vida de esquecimento.
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PortalGO: Jorge, seu trabalho nas redes sociais traz uma perspectiva muito crua sobre o Césio e a memória de Goiânia. Por que usar a antropologia urbana para tratar de algo que muitos preferem esquecer?
Jorge Cordeiro: A antropologia, através da etnografia, nos permite viver a comunidade. Eu não apenas estudo; eu convivo, como a mesma comida, uso o transporte público e até já dormi na rua para entender essa realidade. Goiânia se vende como a “cidade perfeita”, a bolha do Setor Bueno e Marista, onde apartamentos custam milhões. Mas essa “vitrine” de riqueza exige o apagamento da pobreza e da vulnerabilidade. O Césio é o exemplo máximo dessa “geografia dos ausentes”.
PortalGO: Você menciona que esse apagamento ocorre inclusive na morte. Como isso se reflete nos túmulos das vítimas do Césio no Cemitério Parque?
Jorge Cordeiro: É um apagamento físico e simbólico. As sepulturas das quatro vítimas fatais diretas não têm identificação. São blocos de concreto que quem não conhece a história passa e não sabe quem está ali. Não há uma placa. Isso reflete uma estratégia política: apagar quem apresenta sofrimento. Se não mantemos registros, essas pessoas são apagadas na vida e na morte.
PortalGO: O tema do Césio voltou para debate com a série da Netflix. Como você avalia o papel dessas produções de grande alcance para o resgate da nossa história, da memória? Elas colaboram com a manutenção da memória viva ou correm o risco de simplificar demais a complexidade do que as vítimas viveram?
Jorge Cordeiro: É importante para reacender o debate, mas deveria ser feito como documentário sério para não trazer aspecto dramático e ficcional para uma realidade concreta. A Netflix ganhou com isso, mas as vítimas diretas e indiretas não ganharam nada. O Sr. Donizete, catador de sucata, está com o carro queimado e não tem condição de comprar outro. O Marcelo, presidente da Associação de Vítimas, cozinhou para as pessoas no estádio quando ninguém tinha coragem; hoje ele tem sequelas irreparáveis no pulmão e pâncreas e não tem dinheiro para abastecer o carro para buscar pessoas no interior para fazer exames. Eles aproveitam essa lacuna de silêncio para fazer dinheiro. Eles pagaram cerca de R$ 500 mil para Suzane von Richthofen falar em um documentário, mas não conversaram com nenhum dos rádio-acidentados para a série do Césio.
PortalGO: O Wagner, uma das pessoas que encontrou a cápsula, vive uma realidade de exclusão extrema. Como está a situação dele hoje?

Jorge Cordeiro: O Wagner é o retrato vivo dessa “política da morte”. Ele mora dentro de uma Kombi, tem uma perna amputada e você não consegue achá-lo em um lugar fixo. Ele se tornou alcoólatra e, nas palavras dele, tenta morrer todos os dias, mas não consegue. Ele é tratado pela sociedade como um “lixo radioativo”. O discurso oficial protegeu os médicos donos do Instituto Goiano de Radioterapia e condenou os catadores como “ladrões”, quando, na verdade, eles pegaram o material em um prédio abandonado que não cumpria sua função social
E outra situação é a da Dona Lourdes, mãe da Leide das Neves, que foi confinada ao esquecimento em uma casa simples em São Luís de Montes Belos, onde mora há décadas com o mesmo telhado, sofrendo com um glaucoma severo e uma pensão de pouco mais de 900 reais, que, embora tenha sido reajustada recentemente, levou 7 anos para esse reajuste.
PortalGO: Maria Gabriela Ferreira foi a peça-chave para identificar o acidente, mas Goiânia parece homenagear outras figuras. Como você vê essa disparidade nos monumentos da cidade?
Jorge Cordeiro: É uma vergonha. Ela salvou todo mundo, mas não tem uma estátua. Em contrapartida, a principal avenida de Goiânia tem a estátua de um cara que veio de São Paulo e matou a etnia Goyazes inteira.
A coragem e o amor não são reconhecidos na nossa sociedade; a estupidez e a violência é que ganham monumentos.
Um memorial serviria para dizer que essas pessoas, mesmo diante da dor, conseguiram continuar. Existe uma lei de 2023 criando o “Dia Maria Gabriela Ferreira”, mas lei no Brasil, sem ação prática, é apenas palavra. Precisamos de marcos físicos, memoriais ativos que eduquem as novas gerações para que esse horror não se repita.
PortalGO: O Césio não é o único silêncio de Goiânia, e você citou a Colônia Santa Marta. O que aconteceu lá?
Jorge Cordeiro: Se você quiser conhecer o que é o apagamento em Goiânia, vá ao Residencial Colônia Santa Marta. Lá existem dois cemitérios clandestinos onde foram sepultadas pessoas do antigo leprosário entre 1937 e 1986. O Estado queimou os documentos; as pessoas foram retiradas de seus filhos e hoje nem os obituários existem mais porque “queimaram” em um incêndio. O Césio só está em evidência agora porque a Netflix quis registrar, mas Goiânia é feita desses silêncios.
PortalGO: Como que tem sido a percepção do público no Instagram, no TikTok, ao ver esses lugares, você sente que as pessoas desconhecem a dimensão do que aconteceu aqui em Goiânia?
Jorge Cordeiro: As pessoas sabem, mas a história foi naturalizada como algo sem importância, porque foram pessoas pobres. Existe o “luto negado”. Se eu sou catador e morro, ninguém vive meu luto. Recebo mensagens me chamando de “comunista safado” por fazer vaquinha para a Dona Lourdes. As pessoas que me ofendem têm escrito “Deus” ou “cristão” no perfil, mas dizem “que se dane” para quem sofreu com o acidente. Luto por essas questões para ainda resistir um pouquinho e ter pelo menos uma plaquinha com meu nome lá no futuro.
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Quem é Jorge Cordeiro

Jorge Cordeiro é antropólogo, psicólogo e psicanalista. Atualmente, ele viaja cerca de 120 mil quilômetros por ano realizando pesquisas de campo por todo o Brasil, focando em políticas públicas e memória imaterial.
