Enquanto o Julho Dourado chama atenção para a prevenção das zoonoses, um alerta importante também envolve a saúde dos olhos. Algumas doenças transmitidas por animais podem atingir estruturas oculares, provocar inflamações e, quando não diagnosticadas e tratadas precocemente, levar à perda parcial ou permanente da visão.
O Centro de Referência em Oftalmologia da Universidade Federal de Goiás (CEROF-UFG) oferece atendimento especializado a pacientes com doenças inflamatórias e infecciosas dos olhos por meio do Ambulatório de Uveítes. O serviço é voltado ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento de casos complexos relacionados a infecções, doenças autoimunes e outras condições que podem comprometer a visão.
Embora muitas pessoas associem as zoonoses a doenças que afetam apenas outros órgãos do corpo, diferentes agentes infecciosos como parasitas, bactérias, vírus e fungos também podem atingir estruturas importantes dos olhos.
Segundo a oftalmologista Dra. Laís Caldas, do CEROF-UFG, as principais zoonoses responsáveis por causar doenças oculares no Brasil e também em Goiás são a toxoplasmose, causada pelo Toxoplasma gondii, e a toxocaríase, provocada principalmente pelo Toxocara canis. Ela explica que, no caso da toxoplasmose, a infecção pode ocorrer pela ingestão de alimentos ou água contaminados.
“Os alimentos podem ser tanto saladas mal lavadas quanto carne crua ou mal passada contendo o cisto. Após a ingestão, o parasita pode se disseminar pelo organismo e uma das regiões pelas quais ele tem tropismo é o olho, onde pode causar lesões.”
Entre as principais doenças capazes de provocar alterações oculares estão a toxoplasmose, a toxicarias, a doença da arranhadura do gato, além de infecções causadas por fungos e outros parasitas. A contaminação pode ocorrer de diferentes formas, como pelo contato com fezes de gatos contaminadas, ingestão de carne crua ou mal passada, consumo de água e alimentos contaminados, contato com solo contaminado e até por arranhões ou mordidas de animais infectados.
Especialistas ressaltam, no entanto, que a convivência com animais de estimação não representa risco quando eles recebem acompanhamento veterinário regular e os cuidados básicos de higiene são mantidos.
Sintomas exigem atenção
As manifestações variam conforme a doença, mas alguns sinais podem indicar comprometimento ocular e exigem avaliação médica. Entre eles estão visão embaçada, manchas escuras no campo visual, aumento das chamadas “moscas volantes”, dor nos olhos, vermelhidão, sensibilidade à luz e redução da visão.
A médica explica que, na maioria das vezes, a primeira infecção por toxoplasmose passa despercebida ou provoca apenas sintomas leves, como febre, mal-estar e fadiga. Quando ocorre o acometimento ocular, porém, os sinais costumam ser mais específicos.
“Os primeiros sintomas são a baixa visual, o embaçamento da visão, olho vermelho, aparecimento de manchas pretas, conhecidas como moscas volantes, e, em alguns casos, dor ocular. É muito importante que, diante de qualquer quadro de baixa de visão ou dor nos olhos, o paciente procure atendimento e não ignore esses sintomas. Quanto antes iniciarmos o tratamento, maiores são as chances de reduzir o tamanho da cicatriz e preservar a visão.”
A especialista alerta ainda que a toxoplasmose pode causar danos permanentes quando atinge a região central da retina.
“A doença pode provocar uma lesão na mácula, que é a área mais nobre da retina. Quando isso acontece, existe o risco de perda permanente da visão central. Além disso, a inflamação pode favorecer o desenvolvimento de catarata, glaucoma e outras complicações secundárias.”
Alguns grupos apresentam maior risco de desenvolver complicações oculares decorrentes das zoonoses. É o caso de gestantes, especialmente em relação à toxoplasmose congênita, pacientes imunossuprimidos e crianças, que costumam ter maior contato com solo e areia durante as brincadeiras, aumentando o risco de infecções como a toxocaríase.
Atendimento especializado pelo SUS
O Ambulatório de Uveítes do CEROF-UFG é referência no atendimento de pacientes com inflamações oculares relacionadas a infecções e outras doenças. O acesso ao serviço ocorre por meio da Regulação Estadual do SUS. Para isso, o paciente deve procurar inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou a Secretaria Municipal de Saúde de seu município, que fará a avaliação e, quando necessário, o encaminhamento ao atendimento especializado.
Já em situações de urgência, como traumas oculares, infecções agudas, perda súbita da visão e outras alterações que representem risco imediato à saúde ocular, o CEROF-UFG oferece atendimento no Pronto-Socorro Oftalmológico, que funciona diariamente, das 7h às 17h, sem necessidade de encaminhamento ou regulação pelo SUS.
