A perda gradual da visão ainda é vista por muitos idosos como parte inevitável do envelhecimento. Mas, segundo o oftalmologista Francisco Lima, especialista em catarata e glaucoma, enxergar pior não é um destino natural — e a catarata, principal causa de cegueira reversível nessa faixa etária, tem tratamento seguro e eficaz.
“Envelhecer é natural. Perder a visão por uma doença tratável não deve ser encarado como algo inevitável”, afirma o médico.
Os sinais de alerta incluem visão embaçada, sensibilidade à luz, dificuldade para dirigir à noite e troca frequente de óculos. Um sintoma pouco conhecido, a chamada “segunda visão”, faz o idoso voltar temporariamente a ler sem óculos; quadro que, na verdade, indica o avanço da catarata.
Durante décadas, recomendou-se esperar a catarata “amadurecer”. Hoje, essa orientação é coisa do passado. “O momento ideal para operar é quando ela começa a comprometer a autonomia, a segurança ou a qualidade de vida do paciente”, ressalta Lima. A cirurgia é feita por microincisões, sem pontos, dura cerca de 10 minutos e permite alta no mesmo dia. Além de remover o cristalino opaco, o procedimento pode corrigir miopia, hipermetropia e astigmatismo, reduzindo a dependência de óculos.
Adiar a operação traz riscos: o cristalino endurecido exige mais ultrassom, aumentando a complexidade, e pode levar ao glaucoma secundário. A perda visual progressiva ainda triplica o risco de quedas, fraturas, isolamento social e declínio cognitivo. Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, a demanda por cirurgias — hoje entre 600 e 700 mil por ano; deve dobrar ou triplicar até 2050.
“O objetivo não é apenas aumentar a expectativa de vida, mas preservar a qualidade da visão durante esse tempo”, conclui o especialista.
Conversamos com o Oftalmologista Francisco Lima que nos desmentiu alguns mitos sobre a doença
O que caracteriza a catarata e quem de fato está suscetível a ela?
A catarata é a perda de transparência (opacificação) do cristalino, que funciona como a “lente natural” do nosso olho. Quando ele fica nublado, a luz não consegue passar nitidamente até a retina, gerando uma visão embaçada, como se olhássemos através de um vidro sujo.
Quem está suscetível:
Idosos (Catarata senil): É o grupo principal. O envelhecimento natural do corpo oxida as proteínas do cristalino. Cerca de 50% das pessoas entre 65 e 74 anos desenvolvem a condição.
Pacientes com condições médicas: Diabéticos têm um risco muito maior e costumam manifestar a doença mais cedo.
Usuários de medicamentos: Quem faz uso prolongado de corticoides (orais ou em colírios).
Fatores ambientais e traumas: Pessoas expostas ao sol sem proteção UV, fumantes ou quem sofreu um trauma ocular direto.
Bebês (Catarata congênita): Embora rara, pode nascer com a criança devido a infecções na gestação (como rubéola) ou fatores genéticos.
Além dos sintomas clássicos, existe o fenômeno da “segunda visão” (quando o idoso volta a enxergar de perto de forma temporária). Como explicar essa alteração para que as famílias não a confundam com uma cura natural?
Esse fenômeno intriga muitas famílias, mas não é uma cura natural — é o avanço da própria catarata.
Quando a catarata do tipo nuclear (que afeta o centro do cristalino) progride, ela aumenta a densidade e o volume dessa lente natural. Esse endurecimento altera a curvatura do cristalino, aumentando o seu poder de refração. Na prática, o olho fica temporariamente mais míope.
Como a miopia melhora a visão de perto, o idoso que antes precisava de óculos para ler de repente consegue ler o jornal sem eles. Porém, isso é temporário: conforme a opacidade aumenta, tanto a visão de perto quanto a de longe vão desaparecer por completo. As famílias devem ser alertadas de que esse “milagre” é, na verdade, o sinalizador de que a cirurgia está se tornando necessária.
É possível prevenir ou retardar o avanço da catarata com hábitos cotidianos, ou o desgaste do cristalino torna o diagnóstico inevitável para todos com o passar dos anos?
O envelhecimento do cristalino é um processo biológico inevitável; se vivermos o suficiente, todos nós desenvolveremos algum grau de catarata. No entanto, é totalmente possível retardar o seu ritmo de avanço com hábitos cotidianos:
Proteção solar: Usar óculos de sol com proteção real contra raios UVA e UVB reduz o estresse oxidativo no cristalino.
Controle glicêmico: Manter o diabetes rigidamente controlado evita o acúmulo de sorbitol (um açúcar) nos olhos, que acelera a catarata.
Cessação do tabagismo: O cigarro duplica o risco de desenvolver a doença devido à liberação de radicais livres.
Alimentação: Dietas ricas em antioxidantes (vitaminas C, E e carotenoides como luteína) ajudam a proteger as proteínas oculares.
A cirurgia é o único caminho eficaz para reverter a catarata ou a medicina estuda alternativas clínicas menos invasivas, como colírios terapêuticos?
Hoje, a cirurgia é a única alternativa eficaz e definitiva.
A medicina estuda há anos soluções clínicas, como colírios contendo compostos antioxidantes ou esteróis (como o lanosterol), que tentam dissolver os aglomerados de proteínas do cristalino. Embora alguns testes em laboratório tenham mostrado resultados tímidos, nenhum colírio se provou seguro ou capaz de reverter a catarata em humanos. Uma vez que a proteína do cristalino sofreu desnaturação (mudou sua estrutura, como a clara de um ovo que endurece ao ser cozida), não há como torná-la transparente de novo sem substituí-la.
A técnica moderna de microincisões e sem pontos já é a realidade padrão nos sistemas de saúde do país (público e privado) ou sua aplicação ainda se restringe a grandes centros urbanos?
Sim, a técnica moderna — chamada de facoemulsificação — já é a realidade padrão tanto no sistema privado/convênios quanto no Sistema Único de Saúde (SUS) na esmagadora maioria do país.
Nesse procedimento, o cirurgião faz uma abertura milimétrica (geralmente menor que 2,75 mm), usa o ultrassom para fragmentar e aspirar o cristalino doente, e insere uma lente dobrável que se abre lá dentro. Por ser tão pequena, a incisão se fecha sozinha pela pressão do olho, dispensando pontos. Embora grandes centros tenham acesso mais rápido a tecnologias complementares (como o laser de femtossegundo), a facoemulsificação sem pontos é amplamente distribuída no interior do Brasil por meio de mutirões do SUS e clínicas regionais.
A substituição do cristalino por lentes intraoculares permite corrigir ao mesmo tempo problemas como miopia e astigmatismo. Esse procedimento combinado exige cuidados pós-operatórios adicionais?
Não, os cuidados pós-operatórios são exatamente os mesmos de uma cirurgia de catarata comum. O que muda não é o corte ou a recuperação, mas sim a tecnologia da lente intraocular injetada (lentes tóricas para astigmatismo e multifocais para focar de perto e longe).
Os cuidados padrão que devem ser seguidos à risca incluem:
Usar os colírios antibióticos e anti-inflamatórios nos horários corretos.
Não esfregar ou pressionar o olho operado de forma alguma.
Evitar esforços físicos pesados, carregar peso ou abaixar a cabeça nos primeiros dias (para evitar picos de pressão ocular).
Evitar dormir por cima do olho operado na primeira semana.
Por que a antiga orientação de esperar a catarata “amadurecer” antes de operar durou tanto tempo e quais são os riscos reais de adiar a cirurgia com a tecnologia atual?
No passado, a técnica cirúrgica usada (extração extracapsular) exigia que o cristalino estivesse bem duro (“maduro”) para que pudesse ser removido inteiro por uma abertura grande, que levava vários pontos. Operar uma catarata no início era mais difícil e perigoso com as ferramentas da época.
Riscos reais de adiar a cirurgia hoje:
Cirurgia mais complexa: Quanto mais tempo se espera, mais a catarata endurece. Para quebrá-la na técnica moderna, o aparelho precisa usar mais energia de ultrassom, o que aumenta o risco de lesar tecidos vizinhos, como a córnea.
Glaucoma secundário: Uma catarata muito antiga pode inchar (catarata intumescente) ou liberar proteínas que entopem os canais de drenagem do olho, causando aumento perigoso da pressão ocular.
Perda de qualidade de vida desnecessária: O paciente se priva de enxergar bem por anos sem necessidade, já que hoje operamos assim que a doença começa a atrapalhar as atividades diárias.
A perda visual gradativa interfere diretamente na autonomia. Como esse isolamento impacta a saúde mental, o declínio cognitivo e a incidência de acidentes domésticos em idosos?
A perda da visão não afeta apenas os olhos; ela desestrutura a saúde global do idoso.
Saúde Mental: Ao deixar de ver os rostos dos familiares, não conseguir ler ou assistir TV, o idoso perde sua autonomia e tende a se isolar socialmente, disparando quadros severos de depressão e ansiedade.
Declínio Cognitivo: O cérebro precisa de estímulos sensoriais para se manter ativo. A privação visual reduz drasticamente essa carga de estímulos, acelerando o declínio cognitivo e aumentando o risco ou agravamento de demências (como o Alzheimer).
Acidentes Domésticos: A perda de sensibilidade ao contraste e da visão de profundidade faz com que o idoso não enxergue degraus, tapetes ou pequenos obstáculos. Isso triplica o risco de quedas graves, fraturas de fêmur e perda definitiva da independência física.
Qual é a estimativa anual de cirurgias de catarata no Brasil e de que forma o envelhecimento rápido da população projeta a demanda por esse procedimento nas próximas décadas?
Estima-se que o Brasil realize mais de 600 mil a 700 mil cirurgias de catarata por ano, divididas entre o SUS e a saúde suplementar.
No entanto, o envelhecimento da população brasileira está acontecendo em uma velocidade sem precedentes históricos. Nas próximas décadas, o topo da nossa pirâmide etária vai inflar exponencialmente. Como a catarata é diretamente ligada à idade, a demanda por esses procedimentos deve dobrar ou triplicar até 2050. O grande desafio do sistema de saúde brasileiro será escalar a capacidade de atendimento para evitar que filas de espera gerem um contingente massivo de idosos cegos por falta de acesso à cirurgia.
Diante da resistência de muitos pacientes que julgam a perda de visão um processo “normal” da idade, qual o principal argumento para convencê-los a buscar o diagnóstico?
O melhor argumento não é focar na “doença”, mas sim na devolução da independência e da segurança.
Muitos idosos aceitam a visão ruim dizendo “já estou velho mesmo, não preciso enxergar tudo”.
O contra-argumento mais forte deve ser estruturado assim:
“Muitas pessoas acham que aceitar a visão embaçada faz parte de envelhecer, mas a verdade é que o senhor/a senhora não precisa viver em perigo. A cirurgia de catarata hoje dura menos de 20 minutos, não dói, e o maior benefício dela não é apenas voltar a ver as cores ou a televisão; é garantir que você não vá cair dentro de casa, não dependa de ninguém para tomar seus remédios e possa continuar conversando e reconhecendo seus netos e amigos. Envelhecer com saúde é manter a sua liberdade.”
