Um grupo de mulheres negras sofreu ataques racistas após divulgar nas redes sociais um vídeo de um desfile sobre ancestralidade africana realizado em um shopping de Goiânia. Entre os comentários, uma pessoa chegou a ameaçar as participantes de morte.
“Você é uma preta fedida mesmo, já fui preso uma vez, pra ser outra cortando a sua cabeça pode não demorar”, escreveu um usuário.
O vídeo foi publicado no dia 17 de dezembro e passou a receber uma série de mensagens ofensivas. Outro comentário dizia: “Ficou parecendo um bando de palhaços”. Em outra publicação, um usuário afirmou: “Não gosto de preto, mas essas são diferente, o que a maquiagem e a roupa do estilo do país não faz né”.
Outras mensagens traziam frases como “A senzala invadiu a realeza!” e “É muita carência e necessidade de afirmação”. O desfile reuniu sete mulheres, entre elas crianças, e teve como objetivo valorizar a elegância das vestimentas e a ancestralidade africana. A maioria dos comentários elogiou a iniciativa. A legenda da publicação questionava: “Será que mulheres elegantes chamam atenção?”.
A tapioqueira Josi Albuquerque figura entre as vítimas dos ataques. O perfil dela aparece entre os seis marcados na publicação. Em um novo vídeo, ela denunciou as ofensas, afirmou que o Brasil ainda precisa avançar no combate ao racismo e reuniu trechos dos comentários citados.
“Não é sobre roupa. Não é sobre ‘chamar atenção’. É sobre o incômodo que a presença preta ainda causa quando ocupa espaços com orgulho, identidade e ancestralidade. Seguimos existindo. Seguimos ocupando. Seguimos sendo realeza”, declarou.
Em entrevista, o delegado da Polícia Civil Joaquim Adorno explicou que a Constituição garante a liberdade de opinião, mas ressaltou que esse direito não é absoluto. Segundo ele, quando alguém ultrapassa o limite do posicionamento pessoal e ofende terceiros, comete crime.
“Qual o limite? O direito do outro. Você pode ter qualquer opinião, desde que não ofenda. Quando ofende, deixa de ser opinião e passa a ser crime”, afirmou o delegado.
O advogado da Associação de Empresários e Empreendedores para o Fortalecimento do Afroempreendedorismo (Ascenda) em Goiás, José Eduardo Silva, destacou que o episódio ampliou o debate sobre racismo no estado.
“Isso incentiva as pessoas a preservarem a autoestima e a não se enxergarem como feias. Esse é um problema estrutural no Brasil”, disse.
A Polícia Civil investiga o caso para identificar os autores dos comentários racistas. As pessoas envolvidas serão intimadas para prestar depoimento.









