A história da indústria de tecnologia é cheia de parcerias que mudaram o mundo, mas poucas são tão dramáticas quanto a colab fracassada entre a Sony e a Nintendo no início dos anos 90. Enquanto todos estavam acostumados com os cartuchos, alguém teve uma brilhante ideia: criar um acessório de CD-ROM para o Super Nintendo. Acontece que esse acessório virou caso de humilhação pública. Por ironia do destino ou erro estratégico, a arrogância da Nintendo acabou sendo o estopim para a criação do PlayStation.
Aliança oculta
No final da década de 1980, a Sony não tinha interesse no mercado de videogames, visto por seus executivos como “brinquedos” de baixo prestígio. No entanto, um engenheiro visionário chamado Ken Kutaragi acreditava no potencial do processamento digital de som e imagem.

Kutaragi trabalhou secretamente com a Nintendo para desenvolver o sistema de áudio do Super Nintendo, o S-SMP (que continha o chip SPC700). Quando a diretoria da Sony descobriu, ficou furiosa, mas o então CEO Norio Ohga deu sinal verde ao projeto, percebendo que a Sony precisava dominar componentes proprietários.
O projeto “Play Station”

Em 1988, as duas gigantes assinaram um contrato para que a Sony desenvolvesse um periférico de CD-ROM para o SNES (o Super Nintendo). O acordo previa dois produtos:
- Um add-on de CD para o console existente da Nintendo.
- Um console de marca Sony que rodaria tanto cartuchos de SNES quanto os novos discos no formato “Super Disc”. Este híbrido seria chamado de Play Station (com espaço).
O ponto de conflito
No contrato, Kutaragi garantiu que a Sony teria o controle total sobre o licenciamento e os royalties de qualquer software lançado no formato de disco. A Nintendo, acostumada a ditar todas as regras e lucrar com cada cartucho fabricado, percebeu tarde demais que havia cedido o controle do futuro da mídia para a Sony.
A traição (CES 1991)
O evento que terminou com toda a parceria ocorreu na Consumer Electronics Show (CES) de junho de 1991, em Chicago.
- 9:00 (01 de Junho): A Sony apresenta oficialmente o “Play Station” ao mundo. O clima era de celebração; a Sony finalmente entrava no mercado doméstico aliada à líder absoluta.
- 9:00 (02 de Junho): No dia seguinte, a Nintendo convocou sua própria coletiva. Em vez de confirmar a parceria, Howard Lincoln, então Vice-Presidente Sênior da Nintendo of America, anunciou que a empresa estava abandonando a Sony e se unindo à Philips (concorrente direta da Sony) para desenvolver a tecnologia de CD.
A Sony, então, foi pega de surpresa. Executivos da empresa souberam da notícia junto com o público e a imprensa. Foi uma verdadeira humilhação pública, orquestrada por Hiroshi Yamauchi, o presidente da Nintendo, que considerava o contrato anterior inaceitável para a soberania de sua empresa.
A revanche
Após o fiasco, a maioria da diretoria da Sony queria abandonar os videogames imediatamente. No entanto, Ken Kutaragi apelou diretamente para Norio Ohga em uma reunião interna lendária.
Kutaragi questionou o CEO: “Você vai aceitar o que a Nintendo fez conosco?”.
Ohga, furioso com o desrespeito à honra da Sony, respondeu: “Não! Prossiga!”.
O projeto foi então estruturado através da criação da Sony Computer Entertainment Inc., uma joint venture (aliança) entre a Sony Corp e a Sony Music para garantir agilidade e conhecimento de mercado. O “Play Station” híbrido foi descartado, e a equipe de Kutaragi focou em criar um console potente e focado em gráficos poligonais 3D: o PlayStation.
Os dados da vitória
O PlayStation foi lançado no Japão em dezembro de 1994. O resultado da “traição” da Nintendo foi o fim de sua hegemonia absoluta. Enquanto o Playstation vendeu aproximadamente 102 milhões de unidades, a Nintendo patinou com o Nintendo 64, com apenas 32,93 milhões. Ela só não ficou pior do que a Sega com o Sega Saturno, que vendeu cerca de 9 milhões, mesmo tendo chegado ao mercado japonês pouco antes da Sony.
Algo que ajudou a Sony foi a insistência da Nintendo nos cartuchos para o N64 (para manter o controle dos royalties), o que afastou desenvolvedoras como a Square, de Final Fantasy, e a Capcom, que migraram em massa para o PlayStation devido ao baixo custo e grande espaço dos CDs, consolidando a Sony como a nova líder da indústria.
O legado da arrogância
A “traição” da Nintendo é frequentemente citada em escolas de negócios como um dos maiores erros estratégicos da história. Ao tentar evitar que a Sony controlasse o licenciamento, a Nintendo acabou criando seu maior concorrente e forçando a modernização de toda a indústria.









