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Você realmente precisa dar sua opinião sobre tudo?

Como opinamos, cancelamos e odiamos nas redes sociais

opinião nas redes sociais
Foto: Freepik

Desde pequena, as palavras me acompanham. Aprendi a ler ainda no pré-escolar, com a ajuda da minha mãe que me alfabetizou em casa. A escrita veio depois e ganhou força na adolescência. Aos 17 anos, ingressei como aluna de Comunicação Social – Jornalismo na Universidade Federal de Goiás. Ao longo do curso, reafirmei minha vontade da escrita e, apesar dos caminhos terem me levado para outros lugares e exercícios da profissão, a escrita continuou dentro de mim e, cá estou eu te escrevendo.

Durante minha carreira sempre me instigaram a dar minha opinião. “Jornalista sempre tem opinião de tudo”, dizem por aí. Mas será mesmo? Será que realmente todos nós, jornalistas ou não precisamos proferir verdadeiras bíblias da verdade a respeito de qualquer assunto? No mundo online e de carne, será que o silêncio em muitos casos não é bem-vindo?

Vivemos um tempo em que a fala pública é amplificada pela tecnologia. Com um celular nas mãos — hoje quase parte do nosso corpo — qualquer pessoa pode dizer o que quiser, a qualquer momento. Isso é potencializado pelas redes sociais que nos geram a impressão de que “estar calado é estar invisível”. Por isso, hoje te convido a pensar a respeito de ética do discurso nas redes sociais digitais.

Desde a infância somos ensinados e ensinadas que o pertencimento é crivo necessário para estarmos em sociedade. A psicanálise nos diz que só existimos pelo olhar do outro e isso nos impacta profundamente na forma de viver e conviver em sociedade. Já na escola aprendemos que pertencer a um grupo — mesmo com uma ética discutível — nos traz conforto e nos faz sentir incluídos. Neste movimento, passamos a buscar validação e ao mesmo tempo também validamos socialmente nossos pares.

Isso é reconfigurado com nossas vivências (e traumas) bem como adaptada as novas formas de comunicação. Mesmo adultos também temos um gosto apegado pelo pertencimento e isso é potencializado pelas redes sociais. Estar presente nelas se tornou essencial para “nos posicionar” socialmente. Startups e bigtechs entendem bem disso e usam esse gatilho com ferramentas desenvolvidas para validar o “engajamento” social. Mas o que você tem feito para ser visto nas redes sociais e pertencer?

Aprendemos e estamos ensinando que é preciso estar presente e mais, dar a opinião a respeito de tudo. Nesse contexto, opinar se torna parte do jogo do pertencimento — ainda que a opinião seja carregada de ódio. “Afinal, para ser alguém interessante, é preciso saber e falar de tudo a todo tempo o quanto antes!”. Será? Que tipo de opinião tem sido emitida?

Muitas opiniões nas redes não se baseiam em conhecimento sólido. O cenário exposto pela 6ª edição da “Retratos da Leitura no Brasil” (2024) revela que 53% dos entrevistados não leram nem mesmo parte de uma obra nos três meses anteriores à pesquisa. Mas o que vemos nas redes é uma avalanche de especialistas do vazio. Opiniões fragmentadas, fora de contexto, sem base científica, sem empatia — e muitas vezes desumanas com quem está do outro lado da tela.

Neste sentido, será que sabemos consumir mídias sociais? Para entender esse cenário, retomo os idos de 2018 para entender como o compromisso com o real e a verdade tem sido questionado. No meio acadêmico um termo surgiu com força nas últimas décadas, a pós-verdade. É a mostra que a verdade é individualizada, que eu posso ter a minha e você a sua. Isso desmontou parte da credibilidade do jornalismo, já que a verdade pode ser construída por cada um e não necessariamente está narrada pelos jornalistas. Na campanha eleitoral de 2018, as notícias falsas e seus dissipadores estratégicos brincaram como bem quiseram. Ali passou a valer a notícia mandada pelo neto da vizinha e não a lida em jornais. Isso, aliado à falta de leitura crítica de mídia e de mundo, causou — e ainda causa — muito estrago. Não à toa, os idosos se tornaram os alvos preferenciais de golpistas que aplicam golpes por meios digitais.

Cancelamos e odiamos

Neste novo viver de hiperexposição nas redes sociais, o senso de pertencimento pode acarretar manifestações impulsivas, reativas e até agressivas. Esse fenômeno gera consequências reais como o ataque a pessoas públicas e privadas. Por isso, é bom entendermos dois fenômenos que são armas do pertencimento tóxico, que reforçam exclusão em vez de diálogo; a cultura do cancelamento e o discurso de ódio.

Por definição, a cultura do cancelamento é uma reação pública negativa — muitas vezes em massa — contra uma pessoa que disse ou fez algo considerado ofensivo, sem necessariamente violar leis. Pode incluir boicote, críticas, perda de contratos e exclusão social. Cancelar, neste caso é a negativa do pertencimento do outro ao grupo que está na rede social seja ela presencial ou virtual.

Alguns casos brasileiros são exemplos dessa ação. Karol Conká sempre me vem à mente quando penso nesse tema, por considerar o episódio marcado por muitas pitadas de racismo. A artista foi cancelada durante o BBB 21 por atitudes consideradas abusivas contra colegas de confinamento. O caso gerou rejeição recorde de 99,17% e afetou gravemente sua imagem e carreira.

Muitas vezes “cancelado” também foi Felipe Neto por opiniões políticas, posicionamentos ou críticas a influenciadores. Como resultado, ele foi vítima de campanhas de ódio, perda de seguidores e campanhas de boicote. Gregório Duvivier também já foi criticado e parcialmente “cancelado” por piadas consideradas insensíveis sobre religiões e figuras políticas em seu programa Greg News.

Em cenários como esses, uma figura ganha forte destaque, o hater, que em inglês significa odiador. O termo tem sido utilizado na internet para classificar pessoas que postam comentários de ódio ou crítica sem muito critério. Nestes casos, vemos uma espécie de banimento social que para o sociólogo Ryan S.C. Wong (2022) deveria ser usado de forma reflexiva ao invés de executar um julgamento público punitivo sem espaço para reparação ou crescimento.

Já discursos de ódio são ações que podem ser entendidas como ataque, ameaça ou desumanização de pessoas ou grupos com base em características como raça, religião, gênero, orientação sexual, nacionalidade, deficiência ou outras identidades.

Um caso recente de destaque foi o do humorista Léo Lins em junho deste ano. Ele foi condenado a mais de oito anos de prisão por fazer piadas discriminatórias em um espetáculo transmitido pelo YouTube. O Tribunal Federal de São Paulo considerou que as piadas incitavam ódio contra negros, obesos, indígenas, gays e outras minorias, e determinou também o pagamento de multa por danos morais coletivos.  

O discurso de ódio e cultura do cancelamento podem andar ora separados, mas ora também se conectam. Discursos de ódio costumam levar ao cancelamento, quando a sociedade responde com críticas e retira apoio a quem os profere. A cultura do cancelamento funciona como uma forma de pressão social para combater discursos de ódio e promover respeito. Mas nem todo cancelamento envolve discurso de ódio — muitas vezes ele ocorre por atitudes controversas sem caráter ilegal ou ofensivo. Além disso, durante processos de cancelamento, podem surgir discursos de ódio contra o próprio alvo.

Vale compreender que esses fenômenos podem criar corpo e sair do ambiente virtual. O humorista Tiago Santineli foi alvo de ameaças após lançar seu especial Antipatriota em julho de 2023. Ele foi vítima de ameaças de morte por bolsonaristas, teve seu hotel fotografado para intimidá-lo e foi citado em críticas por figuras públicas como Eduardo Bolsonaro e Luciano Hang.

Outro caso que vale ser lembrado é o Jessica Vitória Dias Canedo. Em dezembro de 2023, a página de fofocas “Choquei” propagou uma notícia falsa em que acusava Jessica de ser amante do humorista Whindersson Nunes. Ela foi intensamente atacada nas redes e cometeu suicídio pouco depois.

Adolescentes e crianças

Essa cultura recheada de ódio em ambiente digital não fica restrita ao universo adulto. A série da Netflix, Adolescência, acendeu esse alerta para cuidadores de crianças e jovens. Se você ainda não assistiu, recomendo. Mas vou te localizar sem te dar muitos spoilers. A trama é desenvolvida a partir do assassinato de uma jovem de 13 anos. Durante quatro episódios, a narrativa levanta alguns alertas para o mundo relacional dos jovens envolto por celulares, redes sociais, misoginia e bullying presencial e online. No mundo online, o ódio está mascarado por emojis e comentários imperceptíveis aos adultos. A série é britânica, mas não foge a realidade brasileira.

A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, do Comitê Gestor da Internet no Brasil revelou que um em cada três crianças/adolescentes no Brasil sofreu ofensa nas redes sociais. Em abril deste ano, investigações da Polícia Civil do Rio de Janeiro desarticularam grupos que promoviam discurso de ódio, em plataformas como Discord e Telegram, estímulo à automutilação, nazismo e até incentivo à violência contra pessoas sem-teto — com transmissão ao vivo e premiação dinheiro para quem cometesse os atos.

No Brasil, o debate em torno do uso das redes sociais caminha. Não digo a passos lentos, por algumas atitudes já terem sido efetivadas pelo governo federal. A Lei nº 15.100 de janeiro deste ano, determinou que os dispositivos eletrônicos não podem ser utilizados durante o período que estudantes da educação básica estiverem em ambiente escolar.

Em março, o governo federal também lançou um Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais. Nele, são apresentadas análises e recomendações sobre o tema e orienta a complexa relação das infâncias e adolescências com o mundo digital. O mais impactante a meu ver é a recomendação de crianças com menos de 12 anos não terem celulares. Vale destaque que a ciência afirma que durante infância e adolescência os cérebros e identidades estão em formação.

Caminhos

Você já se pegou lendo os comentários de uma postagem? Já parou para ver o que disseram sobre um assunto aleatório — o casamento ou divórcio de uma celebridade, a posição política de alguém? Me diga: quantas vezes você gastou tempo opinando ou discutindo com alguém? Nessas horas, a necessidade de pertencimento é ativada com força. Isso nos instiga a opinar a respeito de tudo, é a fofoca pela fofoca, o falar pelo falar e tudo bem se o comentário está apenas recheado de ódio. Afinal, isso nos faz pertencer e sermos vistos, sem considerar nossa própria saúde mental e a do alvo do nosso comentário. Por isso te pergunto, como você tem consumido as mídias?

O debate de regulação das redes sociais ainda caminha a passos lentos aqui nas terras tupiniquins. É assunto vespeiro já que ainda há muita inabilidade intelectual de parte da população ao diferenciar liberdade de imprensa e de expressão. Porém, acredito que arrancar os celulares parasitas das nossas mãos não é suficiente. É preciso ir além: aprender o que consumir e como consumir — nas redes e fora delas. Isso exige um processo educativo que o campo acadêmico brasileiro tem chamado de educomunicação, uma abordagem que integra educação e comunicação e inclui a leitura crítica de mídias em qualquer idade.

Acredito que a cultura do opinar por opinar de forma instantânea e compulsiva precisa ser desarticulada. Que tal pensar antes de falar, buscar informações, considerar as consequências sociais e emocionais do que dizemos? Isso não nos torna passivos, mas agentes responsáveis em ambientes digitais e reais.

Mas se quer falar, que tal também pensar em alimentar outra rede, uma positiva? Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) (2013) investigou o efeito dos comentários positivos nas redes sociais. Os resultados mostraram que comentários positivos geram mais opiniões do mesmo tipo, criando um efeito cascata.

E mais. Para além do falar, é preciso escutar de forma ativa e praticar um termo que tem ficado cada vez mais popular, a empatia. E se tiver dúvida, antes de postar, pense se aquela fala constrói ou destrói. Talvez o silêncio seja mais revolucionário do que a fala. Ele não significa falta de posicionamento, mas consciência do momento em que falar contribui e quando o silêncio é mais sábio — para ouvir, para refletir, para não alimentar a polarização.

Agora, convido você a refletir e praticar uma ética do discurso, em que a busca pelo pertencimento não é a qualquer custo, mas baseada em respeito, na crítica construtiva e na empatia. Por isso te pergunto, você realmente precisa dar sua opinião a respeito de tudo?

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