A nova aposta da oposição, uma briga entre Ronaldo Caiado e Daniel Vilela no meio da campanha, entra na lista de lances inusitados de campanha.
Sinal dos tempos: leva um pouco de verdade, não é uma realidade eleitoral, com efeito imediato. Os desdobramentos são para o futuro, não terão efeito para outubro.
Nos bastidores, a aposta em um rompimento imediato tem raiz no início da campanha. Primeiro houve a dúvida se Caiado deixaria o governo. Como deixou, passou-se à premonição de que iam romper logo. E nada.
Fosse uma aposta valendo dinheiro, a banca pagaria pouco, porque todo mundo apostava nisso sem pestanejar. Para agora, melhor apostar que esse ovo ficará chocando no ninho até as urnas selarem o destino do grupo unido por ora em torno do caiadismo.
A prova recente da briga seria a ausência de Daniel no lançamento da candidatura de Caiado a presidente da República. Não estava mesmo? Checaram a informação? Ou foi um se colar, colou?
Tem mais. Apostar que isso ocorrerá agora? Com Caiado e Daniel correndo o risco de perderem tudo? De perderem todos?
É como apostar que Wilder Morais e Gustavo Gayer vão romper laços antes de outubro. Ou que não vão se estranhar passada a eleição, se já estão em guerra fria.
Ou que Marconi vai avisar os velhos companheiros, neste momento, que privilegiará gente nova em um possível novo governo.
Tudo a seu tempo e lugar. Antes, é preciso ganhar.
Na campanha de 2006, o rompimento entre o governador Alcides Rodrigues – vice que assumiu em abril daquele ano, como Daniel Vilela assumiu agora -, e o governador que acabara de sair, Marconi Perillo – a exemplo de Caiado este ano -, também era dado como incontornável e iminente.
Essa fatalidade foi tema subliminar da campanha. Rendeu reportagens e artigos. Permeou meses de conversas miúdas nos meandros governistas e oposicionistas da disputa pelo poder.
Os emedebistas de então, com Maguito Vilela (pai de Daniel) candidato a governador, sonhavam que a guerra seria devastadora para os inimigos da campanha e procuravam alimentar a intriga. Exatamente como oposicionistas estão fazendo neste instante. Adiantou?
Alcides não ganhou por pouco, no 1º turno. No 2º, foi reeleito. Com todas as diferenças que tinham – Alcides nunca foi o candidato que Marconi queria -, governador e vice ficaram juntos até o final. As rupturas vieram após meses, anos. Cozinhadas à lenha, em fogo brando.
Porque esse tipo de rompimento não ocorre em meio a uma batalha pela tomada ou manutenção do poder. Ocorre, quando ocorre, depois, na partilha do poder. Vinganças são servidas em pratos frios, ensina a História.
Por enquanto, a divisão do bolo entre caiadistas e danielistas é uma guerra de nervos. Um rasga daqui, costura dali. São negócios da China. Terras raras em cerrado de soja e milho. Tecnologias de arrasto internacional, com IA, contratos amarrados com lastro no futuro. São nomes certos em postos-chave para vigiar, pagar e comandar.
Primeiro, a reeleição. Sem ela, não há estado de coisas.
Alimentar a discórdia entre Caiado e Daniel tem um efeito reboot: serve pra unir mais os quase inconciliáveis. Em vez de destruir os interesses cruzados, faz a estrutura de governo reagir e passa por cima das divergências pontuais, das discórdias momentâneas e das diferenças políticas seletivas.
A estratégia da oposição continua a ser a falta de estratégia. Como se Caiado e Daniel fossem amadores. Como se a oposição não fosse amadora.
Melhor observar quem será escolhido vice de Daniel. Essa prerrogativa é de Caiado. Ele já deixou claro isso. Reitera sempre que precisa. Caiado pode escolher qualquer um. Mas esse um será o seu interesse e o seu olhar.
Há na disputa nomes que acrescentam votos. E há aquele que fala por ele. E age. O calço de segurança. A trava de garantia.
O jogo é elaborado. Está no médio e longo tempo.
Caiado pensa no futuro, mas não abre mão do controle do dia a dia do presente. Dá a mão, não mete os pés pelas mãos. Quem tem menos a perder é ele. Atenção. O vice é a senha.
