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O País que Deixou de Acreditar: a política brasileira entre o cansaço e a vigilância

Pesquisa mostra aprovação a operações policiais e queda na confiança em discursos humanistas

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Imagem gerada com Inteligência Artificial

A pesquisa Genial Quaest de novembro de 2025 confirma uma inflexão profunda na vida política brasileira. O país parece abandonar o paradigma da esperança, sustentado por duas décadas de promessas de justiça social e ascensão simbólica, e ingressar em uma fase em que o medo, a insegurança e o cansaço moldam o comportamento político. O governo Lula, que durante anos prosperou na crença coletiva de que a inclusão resolveria os conflitos sociais, enfrenta agora um ambiente em que a demanda por autoridade e disciplina supera a expectativa de empatia e reparação.

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A ascensão da política da força

O ponto mais revelador da pesquisa não está na oscilação de aprovação presidencial, mas na forma como o eleitor interpreta a violência. A megaoperação policial no Rio de Janeiro, iniciada em 28 de outubro, foi amplamente aprovada. A maioria dos brasileiros declarou apoio à ação e afirmou que desejaria ver operações semelhantes em seu próprio estado. Mesmo entre eleitores que se identificam com a esquerda, o sentimento predominante é o de aprovação ou resignação diante da força empregada.

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Essa disposição indica uma mudança moral. O eleitor brasileiro não mede mais o Estado pela compaixão, mas pela capacidade de coerção. A política se reorganiza ao redor do medo.

Como ensinou Hobbes, a obediência nasce da necessidade de proteção, não do ideal de virtude. Quando a sociedade perde a confiança em instituições capazes de garantir a ordem, delega ao Leviatã o poder de restaurá-la por qualquer meio. O mesmo eleitor que antes exigia políticas sociais agora reivindica punição e autoridade.

A fala do presidente Lula, ao afirmar que “os traficantes também são vítimas dos usuários”, produziu rejeição quase unânime. Para o senso comum, a frase não soou humanista, mas cúmplice. O episódio evidenciou um divórcio simbólico entre a retórica do governo e o imaginário popular. Em um contexto de medo, a misericórdia é confundida com fraqueza.

A empatia, que sustentou o lulismo como força política, tornou-se um valor sem apelo.

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A erosão do capital simbólico do lulismo

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O lulismo sempre se alimentou de uma dualidade: a imagem do líder carismático e a sensação de ascensão social gradual. O primeiro aspecto dependia de sua habilidade de representar o povo como sujeito moral. O segundo exigia crescimento econômico tangível. A pesquisa mostra que ambos os pilares estão corroídos. A maioria dos entrevistados relata que o poder de compra diminuiu, que os preços dos alimentos subiram e que o emprego continua difícil. O eleitor já não percebe melhora em sua vida material e tampouco reconhece no presidente a autoridade moral que o distinguia de seus antecessores.

Max Weber descreveu o carisma como um dom de graça que legitima o poder fora das regras institucionais. Esse dom se perde quando o líder já não é capaz de traduzir as angústias de seu tempo. A rotina, a burocracia e a fadiga corroem o encanto.

O lulismo vive esse processo de dessacralização. Tornou-se governo, mas deixou de ser crença.

A aprovação que resta é pragmática, sustentada por benefícios sociais e pela ausência de alternativas, não por fé ou entusiasmo.

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Pierre Bourdieu diria que o capital simbólico de Lula, acumulado ao longo de décadas de lutas, vem sendo desvalorizado porque o campo político mudou de lógica. O que antes conferia prestígio, a defesa dos pobres, a compaixão pelos marginais, a crítica à repressão, agora parece deslocado diante de uma opinião pública que enxerga virtude na disciplina e força na austeridade. O lulismo, que foi movimento e depois governo, parece hoje uma lembrança de um tempo em que o Brasil acreditava no poder redentor da política.

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A economia como termômetro do desencanto

A pesquisa evidencia que a maioria dos brasileiros percebe piora nas condições econômicas. O custo de vida pressiona, a renda perde valor e a confiança no futuro é baixa. Mesmo entre beneficiários do Bolsa Família, o sentimento dominante é de frustração. A economia voltou a ser o eixo da insatisfação política, mas não no sentido do consumo, e sim da sobrevivência.

A população não discute mais sonhos, discute preços.

Essa sensação alimenta o que Seymour Martin Lipset chamou de “legitimidade de desempenho”. O eleitor tolera desigualdades quando percebe progresso, mas rompe o pacto social quando o Estado falha em entregar resultados mínimos. O lulismo sobreviveu por ter representado prosperidade e ascensão simbólica. Quando o crescimento cessa, o discurso se torna vazio. A retórica de justiça perde força diante da urgência cotidiana de comprar o básico e de se sentir seguro.

Esse desencanto tem consequências políticas. Ele abre espaço para lideranças que prometem eficiência e firmeza. O eleitor que se decepciona com a compaixão busca proteção. O medo de perder o pouco que conquistou é hoje o principal motor da política brasileira.

A revalorização da autoridade

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O dado mais emblemático da pesquisa está na aprovação quase unânime da tese de que “a polícia prende, mas a justiça solta porque a legislação é fraca”. Essa percepção, presente em todas as regiões e classes, traduz uma visão de mundo em que o problema do país é a ausência de autoridade. A opinião pública reabilita o valor da disciplina e da punição, o que configura uma mudança cultural de longo prazo.

Robert Putnam observou que o capital social depende de confiança nas regras. Quando essa confiança é rompida, a sociedade substitui a norma pela vigilância. É o que ocorre no Brasil. O eleitor, descrente do sistema, passa a apoiar soluções imediatas e centralizadas. Essa dinâmica tende a fortalecer governadores e líderes regionais que associam segurança à eficiência. A política nacional se descentraliza, e o presidencialismo perde vigor.

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O mesmo padrão se observa na avaliação do chamado “Consórcio da Paz”, formado por governadores de direita. A maioria considera que a iniciativa é positiva e que seus integrantes se saíram bem. Essa aprovação sinaliza que a agenda da segurança pública pode se tornar a base de uma nova coalizão conservadora em 2026.

A direita reencontra, na ordem e na disciplina, a gramática moral que havia perdido após 2022.

Cenários futuros

A pesquisa Genial Quaest não mostra apenas o estado de opinião de um momento, mas antecipa tendências. O primeiro cenário possível é o da consolidação de um novo eixo político baseado na autoridade. A direita moderada tende a se fortalecer ao apresentar a ordem como valor civilizatório. O segundo cenário é o da erosão gradual do carisma presidencial. Lula ainda conserva relevância institucional, mas perdeu o monopólio da esperança. Sua reeleição dependerá menos da economia e mais da capacidade de se adaptar à linguagem do controle e da eficiência.

O terceiro cenário é o da reconstrução ideológica. O Brasil parece ingressar em uma fase de pragmatismo moral. A sociedade demanda Estado forte, mas rejeita discursos totalizantes. O novo eleitor quer segurança sem ideologia, estabilidade sem utopia, crescimento sem revolução. Essa combinação paradoxal aponta para uma reconfiguração do sistema político, em que a moderação e a autoridade se tornam virtudes dominantes.

O novo pacto entre medo e poder

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O Brasil de 2025 é um país que deixou de acreditar na promessa da redenção. A esperança, outrora o motor da política, foi substituída pelo medo como força estruturante da vida pública.

O lulismo, símbolo da era da compaixão, chega ao seu limite histórico. O governo ainda pode sobreviver, mas não mais como projeto transformador. Seu destino, se não se reinventar, será administrar a transição para uma nova cultura política em que a ordem substitui a utopia e o poder volta a ser medido pela força.

Doutor em ciência política, pesquisador do comportamento do brasileiro, jeitinho, instituições e identidade nacional.

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