Tudo o que você precisa saber sobre o fim da escala 6×1

Acompanhe o andamento das propostas no Congresso Nacional para o fim da escala 6×1 e as diferenças entre a PEC e o projeto do Governo Federal.

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São Paulo (SP), 10/07/2025 – Protesto à atuação do Congresso Nacional na justiça tributária com a taxação dos super ricos, fim da escala 6×1 e a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, realizado em frente ao MASP. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Entre o balcão da loja e o descanso que nunca parece chegar a tempo, existe o “sexto dia”. Ele transforma a semana de seis dias de maratona de trabalho com uma linha de chegada na qual o prêmio é um dia de descanso. Hoje, o debate circula nos corredores do Congresso Nacional e é, no fundo, um grito pelo direito ao ócio, ao convívio e ao silêncio. No Brasil, o fim da escala 6×1 surge não apenas como reforma trabalhista, mas como um acerto de contas com a dignidade de quem carrega o país nas costas, mas raramente tem tempo de olhar para a própria vida.

Essa odisseia, se é que podemos chamar assim, que tem ocupado o centro do tabuleiro político em Brasília, não nasceu em gabinetes, mas no asfalto e nas redes como um dos movimentos sociais mais orgânicos da década.

O Congresso está diante de uma encruzilhada, que se divide entre abraçar a redução progressiva para 40 horas (PL do Governo) como uma vitória pragmática ou rejeitar e correr o risco. Ocorre que, em ano eleitoral, nenhum parlamentar quer sair na foto como o “inimigo do descanso” ou, mais recentemente, como “inimigo do povo”.

Neste primeiro de maio, Dia do Trabalhador, confira a cronologia das discussões sobre o fim da escala 6×1

Setembro de 2023: o movimento VAT

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Rick Azevedo — Reprodução redes sociais

Tudo teve início com o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), liderado por Rick Azevedo. O que era um desabafo viral sobre a exaustão no setor de serviços se tornou uma petição online com mais de 3 milhões de assinaturas. A força digital foi enorme, o que levou Azevedo à Câmara Municipal do Rio de Janeiro e forçou Brasília a encarar uma pauta que, até então, era considerada “impossível”.

Fevereiro de 2025: A PEC 8/2025

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Brasília (DF), 25/02//2025 – Deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), parlamentares aliados e signatários, juntamente com representantes do Movimento Vida Além do Trabalho, durante coletiva à imprensa após protocolarem a PEC contra a Escala 6×1 . Foto: Lula Marques/Agência Brasil

A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) protocolou oficialmente a proposta pelo fim da escala 6×1 (PEC 8/2025) em 25 de fevereiro de 2025, após obter o número necessário de assinaturas. O apoio popular também foi gigante, fez com que deputados de diversos espectros políticos, inicialmente descrentes e silenciosos, ficassem pressionados a assinar o documento para não perderem conexão com suas bases.

O texto, mais alinhado com o movimento VAT, propõe uma ruptura bastante ambiciosa: a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas, estabelece por decreto constitucional a escala de quatro dias de trabalho por três de descanso (4×3). A proposta de Hilton pode ser encarada como ambiciosa devido ao seu cronograma, prevê a implementação quase imediata, com validade plena apenas 360 dias após sua publicação, o que pressiona o setor produtivo a uma adaptação veloz em troca de um salto imediato na qualidade de vida e saúde mental do trabalhador.

2025: a entrada do Executivo e as “chantagens”

Ao longo de 2025, o Ministério do Trabalho assumiu o papel de mediador. Surgiu a polêmica “moeda de troca”: setores do empresariado e partidos do Centro passaram a condicionar o apoio à redução da jornada a novas desonerações na folha de pagamento. O debate deu uma guinada e deixou de ser apenas sobre bem-estar, então era uma complexa negociação de incentivos fiscais.

O que é a desoneração da folha?

A desoneração da folha de pagamento é uma política tributária que permite às empresas substituir a contribuição previdenciária patronal comum (de 20% sobre o valor dos salários) por uma alíquota menor incidente sobre a receita bruta (que varia de 1% a 4,5%, dependendo do setor).

Fatos mais recentes

Em 14 de abril desse ano, o Planalto tentou atropelar a PEC de Erika Hilton ao enviar um Projeto de Lei próprio, mais conservador focado em 40h semanais, em uma tentativa de pegar um pouco do protagonismo. O Projeto de Lei 1838/2026 funciona como uma alternativa de “centro” e maior agilidade institucional.

Diferente da PEC, que exige um quórum altíssimo para alterar a Constituição, o projeto do Executivo tramita como lei ordinária com urgência constitucional, o que acelera a votação. O texto do governo é mais moderado e foca na transição para o modelo 5×2: propõe um limite de 40 horas semanais e garante, obrigatoriamente, dois dias de repouso semanal remunerado, preferencialmente aos sábados e domingos. Segundo o governo, essa via é mais segura juridicamente e menos “traumática” para a economia, funcionaria como um degrau intermediário antes de uma redução mais profunda.

O projeto do Executivo também traz um detalhamento técnico que a PEC, por ser um texto constitucional mais genérico, não aprofunda inicialmente. Ele abrange categorias específicas com regras próprias na CLT, como trabalhadores domésticos, aeronautas e comerciários, de forma a assegurar que a mudança não resulte em qualquer redução salarial nominal ou proporcional.

Porém, é justamente essa “moderação” que gera ruídos políticos; enquanto os defensores da PEC de Erika Hilton veem no projeto de 40 horas do governo uma tentativa de esvaziar a mobilização popular por uma mudança mais profunda, o governo argumenta que sua proposta é a única com chances reais de aprovação imediata diante de um Congresso de perfil conservador e resistente a mudanças bruscas no custo da folha de pagamento.

Em 22 de abril, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou a admissibilidade das PECs 221/2019 e 8/2025 , mas com a ressalva de Paulo Azi de que o impacto econômico será o “filtro” da próxima fase.

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Brasília-DF – 29/04/2026 Instalação da comissão especial da Câmara que vai analisar as propostas que acabam com a escala 6×1. Foto: Lula Marques/Agência Brasil

No dia 29 de abril de 2026, foi instalada oficialmente a Comissão Especial. O deputado Alencar Santana (PT-SP) foi eleito presidente com 28 votos. Em seu discurso, Santana equiparou o fim da escala 6×1 a conquistas históricas como o fim da escravidão e a criação do salário-mínimo, ao afirmar que grandes avanços sempre enfrentaram resistência inicial. A mesa diretora conta ainda com Daiana Santos (PCdoB-RS) como 1ª vice-presidente, Luiz Gastão (PSD-CE) e Mauro Benevides Filho (União-CE). Com 38 membros titulares e prazo de 40 sessões, o colegiado deve realizar reuniões semanais às terças e quartas-feiras.

Os articuladores da contenção

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Brasília-DF – 27/03 /2026 – Líder do PL, Deputado Sostenes Cavalcante, durante coletiva que afirmou que a oposição vai entrar com Queixa crime contra o ministro, Gilmar Mendes, do STF. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil.

1. Sóstenes Cavalcante (PL-RJ)

Como líder de uma ala influente do PL, Sóstenes é uma das vozes mais diretas ao condicionar o apoio da oposição a mudanças drásticas. Ele lidera a defesa da PEC 40/2025, que permite o modelo de “hora trabalhada, hora recebida”, com a possibilidade de redução salarial proporcional — o que fere o ponto fundamental da proposta de Erika Hilton. A defesa de uma transição gradual de até dez anos, por outro lado, é a marca da PEC 221/2019.

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Brasília-DF – 15/04/2026 – Reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para leitura do relatório do deputado Paulo Azi da proposta de emenda à Constituição (PEC 221/2019) que reduz a jornada de trabalho a 36 horas. A oposição pediu vistas. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil.

2. Paulo Azi (União Brasil-BA)

Foi o relator das PECs na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Embora tenha dado sinal verde para a tramitação, seu parecer foi o primeiro balde de água fria oficial: ele enfatizou que o mérito precisava ser “profundamente alterado” na Comissão Especial para evitar um “colapso no setor de serviços”. O União Brasil tem sido o porto seguro para os lobbies empresariais que buscam manter a carga de 44 horas para determinados setores.

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Deputado Leo Prates — Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

3. Leo Prates (Republicanos-BA)

Atual relator na Comissão Especial. Embora seja visto como um perfil moderado e técnico, sua nomeação por Hugo Motta foi uma jogada estratégica. Prates está sob pressão para incluir as chamadas “cláusulas de escape”, que permitiriam a manutenção da escala 6×1 em setores considerados essenciais ou em microempresas, sob a justificativa de evitar falências em massa.

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Brasília-DF – 15/04/2026 – Presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, durante coletiva após reunião de líderes. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil.

4. Hugo Motta (Republicanos-PB)

O Presidente da Câmara joga o “jogo do equilíbrio”. Ao mesmo tempo que acelera a pauta para colher os louros da popularidade em ano eleitoral, ele controla a “temperatura” ao indicar relatores que buscam o meio-termo. A chantagem política aqui é sutil: o avanço da PEC 6×1 é usado como moeda de troca para garantir a manutenção de desonerações da folha de pagamento para outros setores produtivos.

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Deputado Nikolas Ferreira — Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

5. Nikolas Ferreira (PL-MG)

O Deputado pode ser considerado como a face mais estridente e ideológica da resistência à proposta no Congresso, atua menos como um articulador de bastidores e mais como o catalisador da narrativa de oposição nas redes sociais. Para ele, a PEC é uma medida populista que, embora sedutora no papel, esconderia uma armadilha econômica para o próprio trabalhador. O deputado lidera a tese de que a redução compulsória da jornada sem redução de salário geraria um aumento imediato nos custos de produção, o qual seria inevitavelmente repassado ao consumidor final, alimentando a inflação e corroendo o poder de compra das classes mais baixas.

*Edição: Laila Melo

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