A pesquisa Quaest divulgada em setembro trouxe um dado que merece muito mais atenção do que uma simples leitura eleitoral. Perguntados sobre qual é a maior preocupação em relação ao Brasil hoje, 31% dos entrevistados apontaram a violência. Em segundo lugar apareceu a corrupção, com 22%, seguida pela economia, com 19%, saúde, 10%, problemas sociais, 9%, e educação, 7%.
Até aí, poderíamos enxergar apenas uma fotografia das inquietações nacionais. O que realmente impressiona, entretanto, é o movimento ocorrido em poucos dias.
No dia 2 de setembro, a corrupção era apontada como principal preocupação por 14% dos entrevistados. No dia 7, havia subido para 20%. No levantamento de 14 de setembro, chegou aos 22%. Em apenas 12 dias, portanto, houve um salto de oito pontos percentuais. Alguma coisa está incomodando o brasileiro.
É preciso cuidado para não transformar pesquisa em sentença. Ela mede percepções no momento em que as entrevistas são realizadas. Essa percepção pública sofre influência do noticiário, das denúncias, das investigações, dos debates políticos, das redes sociais e do ambiente eleitoral. Não significa necessariamente que a corrupção tenha aumentado na mesma proporção. Significa que aumentou a preocupação com ela e isso, por si só, já merece reflexão.
A corrupção possui uma característica especialmente perversa: ela rouba duas vezes. Primeiro, quando desvia ou desperdiça recursos que deveriam financiar hospitais, escolas, segurança, estradas, saneamento e políticas sociais. Depois, quando destrói a confiança da população nas instituições.
Talvez o segundo prejuízo seja ainda mais difícil de reparar. Dinheiro eventualmente pode ser recuperado. Uma obra pode ser retomada. Uma licitação pode ser anulada, um culpado pode ser condenado, mas recuperar a confiança de uma sociedade que passa a desconfiar de políticos, governos, parlamentos, tribunais e instituições é tarefa de uma geração.
Há ainda outro perigo: a banalização. Quando as denúncias se sucedem durante anos, corre-se o risco de transformar o extraordinário em cotidiano. Aquilo que deveria provocar indignação passa a ser recebido com um conformado “sempre foi assim”. E não pode ser assim.
Corrupção não tem ideologia. Não deveria existir corrupção “do meu lado” e corrupção “do outro lado”. O dinheiro público não pertence à esquerda, à direita ou ao centro. Pertence ao cidadão que paga impostos. O mesmo rigor exigido contra um adversário político deveria valer quando a suspeita alcança alguém de quem gostamos ou em quem votamos.
Talvez esteja justamente aí uma das grandes dificuldades brasileiras. Durante décadas, criamos o hábito de enxergar a corrupção pelos óculos da preferência política. O corrupto adversário é criminoso; o aliado é vítima de perseguição. A investigação contra o outro é justiça; contra o nosso grupo é conspiração. Nenhuma democracia amadurece dessa maneira.
A pesquisa também revela uma realidade interessante. A violência permanece isoladamente como a maior preocupação nacional, com 31%. Não é difícil perceber, entretanto, que segurança, corrupção, economia, saúde e problemas sociais não vivem em compartimentos estanques.
Quando recursos públicos são desviados, falta dinheiro em algum lugar. Quando o crime organizado infiltra estruturas econômicas e instituições, corrupção e violência podem se alimentar mutuamente. Quando o Estado perde eficiência, o cidadão sente isso no posto de saúde, na escola, na segurança e no próprio bolso.
Por isso, combater a corrupção não significa apenas prender corruptos. Significa construir mecanismos capazes de impedir que o dinheiro seja roubado, aumentar a transparência, fortalecer controles, profissionalizar a administração pública e garantir que investigações e julgamentos ocorram com independência, provas, direito de defesa e respeito à lei. E significa, principalmente, abandonar a tolerância seletiva.
O crescimento da preocupação com a corrupção, de 14% para 22% em apenas 12 dias, pode ser passageiro. Novas pesquisas dirão se estamos diante de uma tendência ou apenas de uma oscilação produzida pelo momento político, mas o recado desta fotografia merece ser ouvido.
O brasileiro continua preocupado com a violência que encontra nas ruas. Preocupa-se com a economia que sente no bolso. Preocupa-se com a saúde quando precisa de atendimento e voltou a demonstrar forte preocupação com aquilo que acontece dentro do próprio Estado.
Talvez porque esteja percebendo que corrupção não é simplesmente o dinheiro que alguém leva. É o hospital que deixa de existir, a escola que não melhora, a viatura que não chega, a estrada que não é construída e o serviço público que não funciona.
No fim das contas, a corrupção não rouba apenas dinheiro. Rouba oportunidades, confiança… Rouba o futuro.
