A escalada da agressividade em discussões políticas ganha contornos preocupantes, especialmente em anos eleitorais e durante datas cívicas. Divergências fazem parte do debate democrático, mas podem prejudicar relações quando são acompanhadas de hostilidade e incapacidade de ouvir opiniões diferentes.
Segundo Amanda Inês, psiquiatra ouvida pelo PortalGO, esses comportamentos podem estar relacionados a três cenários principais: transtornos mentais, traços de personalidade e influência do ambiente. A especialista ressalta, porém, que agressividade ou rigidez isoladas não permitem concluir que uma pessoa tenha algum transtorno. Essa identificação depende de avaliação profissional individualizada.
Em datas como o 7 de Setembro, marcadas por manifestações políticas, encontros familiares podem se tornar ambientes de tensão. Nesses casos, Amanda recomenda estabelecer limites, mudar de assunto ou dizer claramente: “Não concordo, mas não quero discutir sobre isso agora”.
Veja as respostas de Amanda Inês
Do ponto de vista psiquiátrico, o que gera discussões mais acaloradas sobre política?
Não existe uma resposta pronta ou fixa para isso. É um assunto complexo. Do ponto de vista psiquiátrico, podemos observar três cenários diferentes.
O primeiro é o patológico. Alguns transtornos mentais podem fazer com que a pessoa fique mais irritada, agressiva ou rígida em relação às próprias ideias. Quando estamos lidando com alguém que está passando por um transtorno que provoca essas alterações, a possibilidade de ocorrer uma discussão política mais intensa pode aumentar.
Já acompanhei casos em que o paciente apresentava uma hiperfixação em assuntos políticos, falava sobre isso sem parar e ficava extremamente agressivo quando alguém manifestava uma opinião contrária àquilo em que acreditava. Naquela situação específica, havia um quadro patológico. O paciente foi tratado e, depois disso, deixou de se envolver em discussões desse tipo.
Por isso, é importante observar se esse comportamento faz parte do funcionamento habitual da pessoa ou se houve alguma mudança. Ela passou a ficar mais agressiva ou irritada? Está falando sobre política muito mais do que antes? Essas alterações, quando intensas e persistentes, podem ser sintomas de algum transtorno e devem ser avaliadas por um profissional.
Fora do cenário patológico, a pessoa pode apresentar traços de personalidade que a tornam mais irritável ou rígida em relação ao que acredita. Nesse caso, esse é o funcionamento habitual dela e não significa necessariamente que exista um transtorno mental.
O terceiro cenário é o ambiental. Dependendo do ambiente, as pessoas podem ficar mais ou menos agressivas. Isso acontece principalmente em espaços coletivos, nos quais um grupo grande pensa de determinada forma. Nesse contexto, o indivíduo pode se sentir mais encorajado a agir agressivamente do que agiria sozinho.
Essas discussões podem ocorrer de maneira saudável? Como perceber quando estão seguindo por um caminho perigoso?
Isso não vale apenas para a política, mas para diversos assuntos. Um sinal de saúde mental é a capacidade de ter alguma flexibilidade no dia a dia e conversar pacificamente sobre temas e opiniões com os quais não concordamos.
Essa capacidade é desenvolvida e aprendida ao longo da vida. Nem todas as pessoas conseguiram desenvolver bem a habilidade de discutir de maneira pacífica. Pela forma como foram criadas ou pelas experiências que tiveram, algumas aprenderam a reagir de maneira mais agressiva ou impositiva quando escutam algo de que discordam.
Existe uma frase de que gosto muito: nem todo mundo que pede a sua opinião realmente quer ouvi-la. Muitas vezes, a pessoa quer apenas que você concorde com ela.
Antes de iniciar qualquer discussão, é importante observar o outro. Aquela pessoa realmente quer conversar ou deseja apenas provar que está certa? Se ela quer somente impor a própria visão, não adianta insistir no debate, porque provavelmente não estará disposta a ouvir. Para discutir qualquer assunto, é necessário que as duas partes aceitem escutar.
O 7 de Setembro pode intensificar discussões políticas. Como manter a paz quando a conversa segue por esse caminho?
Caso algum parente insista em determinado assunto e você saiba que essa pessoa tem dificuldade para conversar de maneira pacífica, o melhor caminho pode ser não prolongar o confronto. É possível mudar de assunto ou falar: “Eu não concordo, mas não quero discutir sobre isso agora”.
Não adianta estender uma conversa com alguém que não pretende ouvir e deseja apenas impor uma opinião. Em qualquer discussão, é importante perceber com quem estamos conversando. Quando o outro não está disposto a dialogar, continuar batendo de frente tende apenas a aumentar o desgaste. Para preservar a própria saúde mental, o melhor pode ser encerrar a conversa e estabelecer um limite.
A polarização política afastou algumas famílias. Como retomar o contato?
Essa é uma questão muito delicada. Quando uma pessoa se afasta da família, geralmente o motivo não é apenas a política. Podem existir diversas situações por trás desse rompimento.
Cada caso precisa ser observado de maneira individualizada para que seja possível compreender o que provocou o afastamento e encontrar um caminho para restabelecer o contato. Muitas vezes, a política é apenas a ponta do iceberg.
Como ajudar alguém que tem dificuldade para aceitar opiniões diferentes?
Para esse perfil de pessoa, pode ser interessante buscar acompanhamento psicológico. Essa dificuldade pode ou não estar associada a um transtorno mental, mas é um funcionamento que pode se tornar disfuncional e provocar prejuízos em diferentes aspectos da vida, mesmo que a própria pessoa não perceba.
O acompanhamento psicológico pode ajudá-la a desenvolver mais flexibilidade e, consequentemente, ter mais qualidade de vida. Esse comportamento pode gerar prejuízos não apenas no ambiente familiar, mas também em outros espaços de convivência.
Por isso, é importante incentivar a busca por ajuda profissional. Isso não significa necessariamente que a pessoa tenha algum transtorno. Às vezes, ela apenas apresenta uma forma mais rígida de pensar e pode se beneficiar do acompanhamento.
*Edição: Lucas Caetano
