Ronaldo Caiado nunca foi bolsonarista. Nem comunista. Muito menos lulista.
Nos últimos tempos, foi acusado de ser as três coisas.
E a resposta dele é sempre a mesma: discurso virulento e um sorriso de canto de boca.
Mas pode morrer pela boca. Sua e de seu vice, Gilberto Kassab.
Na eleição para prefeito de Goiânia, o enfrentamento do caiadismo com o bolsonarismo foi uma carnificina em campo aberto. A eleição pesou, com fortes ataques e contra-ataques nas redes sociais. Clima tenso e raivoso.
Isso não impediu que uma aliança entre Caiado, o governador e candidato à reeleição Daniel Vilela (MDB) e o deputado federal e candidato a senador Gustavo Gayer (PL) quase fosse fechada no início do ano, com aval de Flávio Bolsonaro.
Flávio e Caiado eram pré-candidatos a presidente da República.
O acerto em Goiás era considerado bom para as duas partes. E naquela hora não havia desacordo entre Flávio e Caiado. Um achava que o outro ia ficar para trás mas depois se entenderiam, e tudo bem.
Prevalecia a previsão de ganho para as duas partes no Estaro: o bolsonarismo elegendo Gayer senador, e o governo reelegendo Daniel e levando junto Gracinha Caiado (União Brasil) para o Senado.
O plano falhou na união de um dependente bolsonarista com uma descontente emedebista.
O senador Wilder Morais (PL) queria ser candidato a governador e Ana Paula Rezende queria se distanciar da prática política de Daniel Vilela, que, segundo ela, desafina com a História de seus pais, Iris Rezende e Iris de Araújo.
Wilder e Ana se juntaram em uma chapa pura no PL e apagaram a luz da aproximação de Gayer com Caiado e Daniel.
Flávio era paparicado por Caiado, que agia de olho no engajamento do eleitorado bolsonarista. Até que Caiado entendeu o óbvio: para disputar com Lula, teria antes que derrotar Flávio, o líder nas pesquisas e catalizador do bolsonarismo.
Com a direita despejando votos em Flávio, Caiado não teria a menor chance de ter a direita antes ou depois do 1º turno. Ele é que seria sugado pelo ralo.
A filiação ao PSD ocorreu em momento decisivo para Caiado. No União Brasil, ficou claro que ele estava fora do jogo. Nem pré-candidato seria. O PSD foi a salvação.
Com o PSD, o sonho continuou. O custo: como o partido é uma rede de interesses, uma enguia no mar das negociações políticas, ele continua sem conseguir se encaixar completamente. Naturezas que não se encaixam completamente.
Caiado ficou sem vice, na falta de aliados para compor com seu projeto. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, decidiu ser vice um pouco como solução para fortalecer Caiado, um pouco como pragmatismo eleitoral próprio.
No 2º turno, Kassab vai com Lula, independente de Caiado, que tende para a direita de Flávio. Isso em caso de Lula e Flávio do 2º turno. E de ter 2º turno. O jogo está armado em várias direções.
Recente declaração de Kassab desmerecendo Flávio e apontando centrão com Lula, deu milho aos bolsonaristas contra Caiado. Irritou o goiano. Mas não foi erro de cálculo. Kassab prospectou. Já está negociando. Nem esperou o 2º turno. Kassab não dá ponto e vírgula sem nó.
Os fatos desembocam como explicação para Caiado trocar o marqueteiro. Não é só divergência sobre o rumo da campanha. É falta de rumo.
Caiado não é de obedecer. Ou vai do seu jeito, ou não vai a lugar algum. Quem fica perto dele, sabe. Ele não esconde. No governo, era condição primordial para integrar sua equipe.
Caiado está sem rumo desde antes da pré-campanha. Veja: sua meta, em abril, era ficar conhecido e subir nas pesquisas. Coisa sabida e repetida por ele em entrevistas, a partir de pesquisas internas.
Se ele sabia, se estava escancarado o desafio, o que aconteceu? Ou: por que não aconteceu?
Caiado não andou um degrau. Nao subiu. Não avançou. E o fracasso não é de marqueteiro.
Ao partir para cima de Flávio Bolsonaro, por decisão própria, Caiado cria um paradoxo para sua sua campanha (e para a de sua esposa, Gracinha Caiado, em Goiás).
Bater em Flávio é bater contra os bolsonaristas. É perder o voto bolsonarista no 1º e, quem sabe, no 2º turno. E, sem o voto da esquerda, o que sobra? Quem vai votar em Caiado? O centro? Mas o centro, de acordo com Kassab, está com Lula…
O que Kassab falou: “A chance de Flávio se eleger é zero, não tem a menor chance. Na hora em que o jogo começar, em que o PT mostrar quem é o Flávio, ele vai desabar. Na hora em que esses partidos do centrão não estão apoiando o Caiado, estão com o Lula.”
Em oito anos se preparando pra ser candidato a presidente, Caiado não tem ainda um discurso que fure as bolhas. Caiado não tem discurso.
No início do ano, o cenário era mais propício para ele, mais auspicioso. Ele tinha vãos por onde correr. Alternativas. Porém não se organizou. Vieram as tempestades e nada de contenção de danos. Deus e a sorte que o salvem.
A birra em relação a Kassab que apoiadores seus mostram neste momento, pela declaração, é só o sintoma do fracasso anunciado.
Kassab não mudou. O desafio de superar Flávio continua igual. O adversário Lula é o de sempre. E Caiado segue idêntico na prática eleitoral. Não inovou. E se debate como o náufrago mergulhado em mar revolto.
Kassab não falou algo desconhecido. Nada que não seja leitura dos fatos. Não jogou contra Caiado. Fez um retrato do momento.
Quem reagiu de forma esperta foi Flávio, alimentando a intriga e carimbando Caiado como alguém que favorece Lula, o inimigo do bolsonarismo. Caiado, que acusou Flávio de ajudar Lula com sua candidatura, levou o troco.
A tréplica desafiou a credibilidade: Flávio estaria muito preocupado com Caiado. “Esse pessoal está apavorado. Podem ficar tranquilos que o único político com mandato no Brasil que é oposição ao Lula e que nunca votou no Lula chama-se Ronaldo Caiado”, disse Caiado. Será?
Não é Kassab que está desfocado. É Caiado que está sem rumo.
Kassab sabe muito bem o que quer.
O fato é negativo para Caiado, mas positivo para ele. E mais negativo será se afetar as decisões de voto em Goiás.
A falta de rumo e os desdobramentos negativos da campanha de Caiado podem repicar em desfavor de Daniel Vilela, e a favor do bolsonarista Wilder. Situação que se inverte também em relação ao previsto na transição de governo, em abril.
Marqueteiro não faz mágica. Nem opera milagre.
O risco para Caiado, neste momento, é perder o rumo nacional e o rumo em Goiás.
No Estado, o seu maior adversário não tem sido Marconi Perillo (PSDB), nem Wilder Morais (PL). E nunca foi o PT. Sua ameaça é interna.
Caiado pode ser derrotado por Lula, Flávio e perder a eleição em Goiás para o futuro de sua base, que na verdade nunca foi sua.
E tem o Pablo Marçal. Assunto para outra hora.
