Zacharias Calil e Gustavo Mendanha fizeram as contas na base de governo. Vanderlan Cardoso, ao que parece, viu uma faísca, embora não esteja claro ter visto a luz.
Gustavo Gayer levou em conta, quando fracassou o acordo com Ronaldo Caiado e Daniel Vilela para chapa conjunta com Gracinha Caiado para o Senado.
Ernesto Roller faz as contas no PSDB. Há um trieiro aberto. Uma picada adiante. É mirar, trabalhar e rezar, na peregrinação até as urnas.
Pergunte aos outros candidatos a senador e eles dirão: me leva junto, não preciso ser o seu voto favorito.
Sinais da História.
Nas últimas disputas por duas vagas para o Senado em Goiás, o campeão não foi o primeiro voto. Foi o segundo.
O exemplo mais sintomático data de 2002.
O primeiro voto era disputado por Iris Rezende e Lúcia Vânia. Embate raiz de situação versus oposição.
Iris, o maior líder do MDB, em busca da reeleição. Lúcia, a candidata do governador, na época Marconi Perillo.
Deu Demóstenes Torres, o promotor respeitado nos dois lados do hemisfério político goiano, sem passivo político com o eleitor, longe do epicentro dos confrontos de grupos militantes.
A vitória de Demóstenes foi surpresa, virou lição e referência.
Enquanto a polarização Iris X Lúcia ganhava destaque e dividia eleitores em torcida organizada, Demóstenes se posicionou como a segunda opção inofensiva aos interesses vigentes.
O resultado, em números:
Demóstenes Torres (PFL): 1.239.352 de votos, 26,74% dos válidos.
Lúcia Vânia (PSDB): 1.057.358, 22,81%.
Iris Rezende (PMDB): 1.047.827, 22,61%.
Mauro Miranda (PMDB), em dobradinha com Iris, 4º lugar, 615.070, 13,27%.
Por uma diferença de 9.531 votos, Lúcia Vânia levou a melhor e Iris sofreu sua segunda derrota eleitoral seguida.
Em 2010, a base governista teve o que se chama de juízo político. Em vez de se espalhar em várias, fechou-se em duas candidaturas.
Exatamente o que Caiado e Daniel tentaram este ano, sem sucesso. A base governista deles tem quatro nomes em guerra fratricida nos bastidores, resultando em desgastes acumulados para os dois.
Caiado e Daniel, primeiro, queriam chapa com Gracinha e Gayer, apenas. Não deu certo. A fila andou e o objetivo passou a ser chapa Gracinha e Vanderlan. Não deu certo de novo. Zacharias Calil (MDB) chegou dividindo espaço. Logo, mais um, Gustavo Mendanha (PRD), preterido em outra disputa interna, a de vice.
O quarteto fantástico da base governista para o Senado neste momento lança chamas na unidade interna e abala as estruturas da chapa principal, encabeçada por Daniel ao governo. Este o quadro.
Em 2010, Marconi Perillo arquitetou o que Daniel e Caiado não conseguiram este ano.
Deu reeleição fácil.
Demóstenes Torres (DEM) foi a 2.158.812 votos, 44,09%, e Lúcia Vânia, a 1.496.559, 30,56%.
Máquina do governo + favoritismo X estrutura de campanha = vitória do combo.
(‘Máquina do governo’, já que o governador de fato, Alcides Rodrigues, não era dono do governo. Todos sabem. Ou se lembram.)
Porém em 2018 o arquiteto Marconi, que construiu a unidade antes, viu ruir a sua base e entrou na disputa pelo Senado com ela toda desconstruída.
Ele e Lúcia Vânia começaram como favoritos, terminaram derrotados.
Venceram Vanderlan Cardoso (PP), com 1.729.637 votos, 31,35%, e Jorge Kajuru (PRP), com 1.557.415, 28,23%.
Ficaram para trás Wilder Morais (DEM), 796.387 votos, 14,43%, e eles: Lucia Vânia (PSB), 519.691, 9,42%, e Marconi, 416.613, 7,55%.
Marconi voltou a perder em 2022, quando uma vaga estava em disputa. Obteve 626.662 votos, 19,80%. Novamente, começou favorito. Sorte (ou labor bolsonarista) do atual adversário ao governo, Wilder Morais (PL), com 799.022, 25,25%. O azarão venceu.
O favoritismo em 2026 está com Gracinha Caiado. Ela lidera as pesquisas desde o início do ano. E tudo corria bem no reino governista até a articulação final para a escolha do vice. Aí deu problema, que envenena a relação Caiado-Daniel.
Caiado foi confrontado pelos seus aliados na escolha do vice de Daniel Vilela com acusação de formar ‘panelinha’, insistindo com Gracinha no Senado e seu primo, Adriano da Rocha Lima.
Os fatos são públicos. Peitado pelo governador Daniel Vilela, Caiado cedeu. Vencido no desejo de emplacar o seu vice, capitulou para não piorar a situação para Gracinha, a quem foi direcionada a conta, com ameaça de esvaziamento de apoio à candidatura a senadora.
Há esforço para retomada da mobilização dos governistas em seu favor. Obra em andamento – o esforço, não a retomada. Ainda. Ela esbarra em feridas abertas e interesses contrariados. Aliados com faca nos dentes, longe de desarmados.
Vanderlan é aconselhado a desistir de sua candidatura, com base em pesquisas e nos fatos da divisão interna de forças. O preço para prosseguir é a retirada dos nomes de Gustavo Mendanha e Zacharias Calil. O que agrada Gracinha e Caiado. Mas desagrada Daniel. Preço que ninguém quer pagar, e não estipulado, já que nem considerado pelos que não aceitam se vender. (Ainda.)
Ações para minar Zacharias e Mendanha estão nas redes sociais. O inusitado é uma nova acusação contra Mendanha. Ele é acusado de estar de olho numa candidatura a governador em 2030.
Vejam só a petulância. Daniel, se reeleito, não poderá tentar o terceiro mandato seguido. Caiado quer ser ou fazer o sucessor.
Isto posto, a pergunta é: quem não está de olho em 2030, no governo e fora do governo? Qual político não almeja ser o próximo e o governador seguinte e mandar no Estado até morrer?
A acusação de almejar ser candidato a governador é um elogio a Mendanha. Uma prova flagrante de força política. E mais um elemento de estímulo para não arredar pé.
Perspectiva de poder é poder. E Mendanha está com tudo na mão para 2030 e para 2026 – e vice-versa.
Uma ambição alimentando a outra, um projeto carregando o outro, como uma bateria ininterrupta ligada por indução às urnas.
Mendanha e Zacharias disputam o segundo voto por posicionamento estratégico. Calculado.
Gracinha e Vanderlan estão presos à formatação inicial do primeiro voto por erro de cálculo e de condução das ações estratégicas.
E é essa massa falida de manobra que virou fator de desabafos e justificativa para a ameaça de esvaziamento de Gracinha, em especial. A corrida é para contornar os danos.
O movimento resulta em fuga de apoios de descontentes. Explica traições implícitas e silenciosas, o abandono de esforços de campanha nos municípios e chapas para o Legislativo, e as pequenas vinganças localizadas.
Fora da base do governo, aqueles que miram o segundo voto, o fazem como método, por pura deliberação de atos em virtude dos acontecimentos. São candidatos que não têm o que perder, uma vez que nada têm a ganhar.
Uma exceção é Ernesto Roller. Ele está em uma base competitiva pelo Executivo (Marconi é o 2º, nas pesquisas), e flerta com o segundo voto.
Mas pisca para outra estratégia: disputar o primeiro voto com Gracinha, com quem quer embate direto. Como tem pouco tempo na TV, os palanques serão seu lugar principal de fala e de discurso, no que se destaca.
Caminha seguro Gustavo Gayer. Na perspectiva de que o bolsonarismo vota em bloco, por voz de comando, ele definiu como parceiro o seu mentor, Oséias Varão, vereador em Goiânia, por lógica eleitoral.
Gayer busca o primeiro voto do bolsonarismo e segura o segundo voto na legenda. Evita a dispersão de eleitores entre adversários, especialmente os de governo. O segundo pode eleger o primeiro adversário. Ou ‘primeiros’.
Com primeiro e segundo votos do bolsonarismo, Gayer é senhor de um eleitorado capaz de elegê-lo senador. O risco de ser vítima da pulverização de candidaturas na campanha continua existindo. Mas fica menor.
Na disputa pelo Senado, temos uma eleição muito mais transparente para o futuro de Goiás. Sem pudor, e sem disfarces, grupos políticos se enfrentam em campo aberto.
Na eleição aberta para senador em 2026 temos a representação escancarada da luta aberta para ver quem vai sobreviver e estar de pé para as outras guerras que começam no dia seguinte ao anúncio de quem ganhou e quem perdeu esta.
