Na última sexta-feira (07), o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), na tradicional Casa Rosada em Goiânia, sediou o lançamento do décimo livro de Salatiel Soares Correia. Com o título O jogo invisível das instituições – Um olhar shakespeariano sobre poder e caráter (Pontes Editores), a obra mergulha na tensão constante entre a ética individual e a ambição nos corredores corporativos.
Com prefácio escrito pelo ex-governador e ex-senador Irapuan Costa Junior, o trabalho recorre à ficção baseada em fatos reais para demonstrar como a conduta de quem lidera define o rumo de grandes organizações.
A busca por um olhar humanístico
A trajetória do próprio autor ajuda a explicar essa abordagem. Formado em Engenharia Eletricista com especialização em Telecomunicações, pós-graduação em Administração e mestrado em Energia pela Unicamp, Salatiel atuou por anos em funções técnicas e burocráticas. A rotina estritamente operacional, contudo, revelou-se insuficiente.
“Eu trabalhei de uma forma mais burocrática durante boa parte da vida, mas aquilo não me satisfazia. O técnico sem visão política é escravo de alguma coisa. A partir daí, percebi a necessidade de uma formação mais humanística e comecei a estudar a fundo os grandes autores da literatura clássica, como Cervantes e Machado de Assis”, revela o autor.
Para o escritor, a ultraespecialização cega compromete a eficácia de qualquer projeto dentro de uma estrutura corporativa.
“De que adianta saber que um componente técnico ali não funciona, se eu não enxergo o todo? De nada serve ter um computador superavançado sem a certeza do todo e da real necessidade dele. A literatura me deu essa capacidade de enxergar o conjunto, e não apenas a parte”, pontua.
O método de Shakespeare
A inspiração para a estrutura narrativa veio de William Shakespeare. Foi do dramaturgo inglês que Salatiel extraiu o recurso do “observador invisível” — uma figura que transita pelos corredores da empresa sem chamar a atenção dos demais personagens.
“O autor que mais me deu luz para criar um método de análise foi Shakespeare. Eu precisava de um mecanismo onde o narrador estivesse presente sem que as pessoas percebessem que estavam sob observação. E, quando isso acontece, a máscara cai. O grande objetivo do observador é desnudar o ser humano, mostrar a pessoa nua, exatamente como ela é”, explica Salatiel.
Esse olhar oculto permite expor falhas que raramente aparecem em organogramas ou relatórios formais, como a vaidade excessiva, a inveja, o assédio moral e o loteamento político de cargos.
“Às vezes, um profissional chega à empresa cheio de medalhas por ter sido o primeiro aluno da turma. Porém, ao receber um trabalho prático, ele falha porque possui inteligência racional, mas não tem maturidade emocional. Ele não se dá bem com ninguém e não produz resultados. A literatura serve justamente para desvendar essas hipocrisias cotidianas”, afirma.
Declínio ético
Ainda que seja uma obra de ficção, a trama guarda forte relação com a história do setor elétrico brasileiro. O enredo contrapõe duas empresas fictícias com modelos de gestão opostos: a Eletro Baturité e a Eletro Royal.
A Eletro Baturité retrata o colapso de uma organização que uma vez foi referência. O declínio começa no topo do comando: quando a liderança perde a bússola ética, a instituição inteira adoece.
“Na Eletro Baturité, o ambiente se deteriora a partir da mudança no topo do poder. Quando o exemplo que vem de cima é ruim, a instituição inteira adoece. Se os valores mudam e a empresa passa a promover quem não merece — apenas quem se molda ao jogo de bajulação —, a organização falha porque a cultura interna apodreceu”, destaca Salatiel.
No lado oposto surge a Eletro Royal, exemplo de integridade e sustentabilidade institucional.
“Trata-se de uma empresa que se mantém sólida ao longo do tempo porque possui um código de conduta respeitado. Se alguém comete uma irregularidade, sabe que vai pagar o preço e passar por um julgamento justo. A corrupção, quando surge, recebe punição severa”, compara o autor.
O caráter acima dos balanços
Uma das teses centrais sustentadas por Salatiel na obra é a de que nenhum indicador financeiro ou meta operacional pode se sobrepor à postura moral dos gestores.
“Acima de qualquer balanço de lucros ou perdas, existe uma decisão tomada por alguém ou por um grupo. Se esse grupo for ético, a decisão busca servir à sociedade. Se não for ético, passa a jogar apenas o próprio jogo, que é o jogo de poder”, ressalta.
Para o escritor, a utilidade pública e a longevidade de qualquer corporação dependem diretamente da conduta de seus líderes: “Não há instituição maior do que o caráter daqueles que a administram”.
Um exercício de autoconhecimento
Ao projetar o impacto de suas 212 páginas no leitor, Salatiel define a obra como uma oportunidade de reflexão sobre a própria natureza humana diante das pressões sociais e corporativas.
“O leitor pode esperar uma grande terapia. O livro ajuda a entender o ser humano diante de pressões, vaidades, ambições, amores e ódios. O sentimento de revolta ou de dedicação de um funcionário dentro de uma empresa aqui em Goiás é exatamente o mesmo em Londres, Paris ou na Guatemala. A obra ajuda a colocar cada peça em seu devido lugar no tabuleiro da vida”, conclui.
