Candidata a vice, Ana Paula Rezende fez, na convenção do PL, o discurso que era esperado do candidato a governador, Wilder Morais.
Foi pra cima do adversário direto, o governador Daniel Vilela (MDB). Marcou posição como antítese, na prática. Chamou para a briga.
Ana Paula tem feito mais campanha que o candidato a governador. Está em campo com a mão estendida ao eleitor enquanto Wilder está em casa, com um copo na mão e os amigos rindo.
Ana Paula tem os pés no chão. Wilder espera sentado o bolsonarismo agir em seu nome e a seu favor.
O peso político da presença de Ana Paula na chapa de Wilder foi decisivo para ele ser candidato. E tem força, na campanha, de puxar o entusiasmo dos bolsonaristas e atrair geral a população.
Ana Paula Rezende é maior que Wilder Morais, como líder política. É o que se vê.
O que ele tem de diferencial é o que ele não controla, apenas usufrui.
A vice de Marconi Perillo, Jacqueline Zaiden, é um nome respeitado como empresária e agropecuarista.
Tem brilho pessoal, como empreendedora. O que não tem é relevância política. A construir.
Sua escolha é simbólica.
Indica renovação, espaço às mulheres, protagonismo do agro, protagonismo da região sudoeste do Estado, em clara expansão econômica.
Carlos Mundin na vice de Luis Cesar do Carmo (PT) apazigua a frente progressista, os partidos de esquerda em Goiás.
Integra o PDT ao projeto petista. Abre espaço para, quem sabe, a esquerda enxergar e dar oportunidade a alternativas novas, diferentes, no seu futuro.
É um nome que sempre esteve na órbita do PT, mas sem espaço para despontar. Quem sabe?
Caymmi Henrique, vice de Luciana Amorim (ambos UP), é gente nova na política goiana.
Não tem passado político que o abone. O futuro é sua virtude. Possibilidade.
Luiz do Carmo (PSD) é a aposta no apaziguamento dentro da estrutura de Daniel Vilela (MDB) e na acumulação do voto evangélico.
Não é fruto de consenso. É saldo de pesquisas. Escolha do pragmatismo eleitoral.
Além do respaldo religioso, Luiz do Carmo é empresário do agro e tem um pé na política.
Oídes, seu irmão, comanda a Assembleia de Deus, campo de Campinas. Eurípedes, seu outro irmão, é prefeito de Bela Vista pela terceira vez.
Luiz foi senador quatro anos. Era suplente de Ronaldo Caiado, que renunciou em 2018 para ser governador de Goiás.
Marconi Perillo não tem passivo decorrente da escolha de seu vice. Assim como Luis Cesar, Wilder e Luciana não têm. Daniel, tem. Bastante.
A campanha para a vice de Daniel Vilela foi um ganho de espaço ocupado na mídia para Daniel e Caiado. Foi incentivada. Alimentada na mídia. Comemorada nos bastidores.
Enquanto a campanha de vice corria, Caiado e Daniel agiam. Tiveram tempo suficiente para costurar alianças, resolver pendências na base, fazer a transferência de governo.
Foi ótimo. Até que deu ruim. A coisa degringolou no final, por inabilidade dos dois líderes maiores na reta de chegada.
A gestão derradeira da disputa interna foi desastrosa. A solução foi crise onde poderia haver apoteose.
Zé Mário Schreiner e Adriano da Rocha Lima reiteraram em entrevistas que estavam na luta pela vice, mas que aceitariam bem o resultado da escolha, mesmo se não fossem eles. Era a premissa.
Na hora de fechar a conta, Caiado e Daniel impuseram o custo do amém sem afagar a quem de direito merecido. Sem conversar. Sem sossegar ânimos, contrabalancear as expectativas latentes – que viraram insurgentes.
O que era processo natural virou imposição imperial. Daniel ganhou, mas os dois perderam no resultado final. A corrida agora é pra contornar o erro e reposicionar o favoritismo. Pra Daniel não perder pra si mesmo.
Zé Mário fala em abandonar a base. Adriano está fora do radar, o que significa que Caiado está apenas se fazendo de descontente até poder reagir.
Daniel conseguiu o que quis com os companheiros de base. Precisa correr pra não ter o que nunca quis: uma divisão interna de forças. E perder a chance de ganhar no 1º turno. Ou a sustentação no 2º.
Sempre há riscos. Como naquele jogo em que o time do governo ganha de 2 a 0, mas de repente vem a Argentina, Marconi/Wilder, e faz dois gols. Três, no último minuto.
Vanderlan Cardoso está por um fio. Gustavo Mendanha está acelerado. Zacharias corre. Gracinha Caiado não sai do lugar. A disputa pelo Senado está absolutamente aberta. Com Gustavo Gayer (PL) à vista, Ernesto Roller (PSDB) chegando.
Ernesto Roller: 1) que levantou dissidência no MDB em 2018 para apoiar o seu primo, Ronaldo Caiado, contra a decisão de Daniel Vilela, candidato emedebista ao governo, 2) que renunciou à prefeitura de Formosa, 3) que, depois, foi tirado do cargo no meio do governo Caiado, 4) e que está no PSDB de Marconi, junto com o ex-vice (de Marconi) e ex-governador (rompido com Marconi) Alcides Rodrigues, de quem foi secretário de Segurança.
A tendência é que o debate sobre vice, e a importância deles na disputa, desapareça na paisagem da campanha.
Costuma ser assim. Vice tem importância na composição e em caso de assunção ao poder. A missão resta cumprida na costura das alianças e na militância do agregado.
Rogério Cruz era para ser só a presença da Igreja Universal na campanha de Maguito Vilela à Prefeitura de Goiânia, em 2020. Deu certo, Maguito venceu. E aí aconteceu: Maguito morreu, Rogério ascendeu. Virou prefeito.
Luiz do Carmo foi a confirmação da aliança para Caiado virar senador em 2014. Ninguém notou. Quatro anos depois, Caiado virou governador.
Luiz do Carmo cumprirá papel semelhante para Daniel Vilela. Embora em contexto diferente.
Como não é o nome de Caiado, não é uma unanimidade entre os aliados, virou escolha de escanteio a Zé Mário, e como se mostrou uma forçação de Daniel, ele terá muito a provar.
De início, contornar os desgastes da sua escolha. O problema não é apenas de Caiado e Daniel. Não mais. É dele e de toda a igreja.
Acalmar os aliados é o mais visível dos problemas imediatos. Não é o único. Acalmar as outras agremiações evangélicas também é necessário.
Os evangélicos não são unidos no automático. Como os católicos não são. Há divergências e disputas subliminares. Agradar uns, muitas vezes significa desagradar os demais. O clima está agitado.
A Luiz do Carmo será cobrado um papel que em nada se parece com o de coadjuvante. Ele terá que ser tão candidato quanto foi na campanha para vice, e tão à frente na campanha para governador como Daniel será.
Não queria ser vice? Não é o melhor nome? A prova dos nove será a campanha.
Tipo de cobrança que não sofrerá Ana Paula Rezende. Ela, ao contrário, é maior que o titular no nome e na ação. E já está em campo.
Movimenta-se desde que foi anunciada vice. Escola do pai, Iris Rezende. E da mãe, Iris de Araújo. E do velho Manda Brasa, aquele MDB que elegeu, bom lembrar, Maguito Vilela, o pai de Daniel.
Ana Paula Rezende é, na contabilidade eleitoral, na comparação das cinco chapas para governador de Goiás, o maior ganho como vice para o candidato.
Ela não tem o que provar. Wilder já ganhou com ela, assim como Caiado e Daniel perderam em não tê-la ao lado. Independente de quem tem razão, eleição é decidida nos detalhes.
Hoje ela discursa contra Caiado e Daniel, do outro lado da trincheira. Ainda que Wilder não ganhe e Daniel vença, Ana Paula firmou identidade. Terá patrimônio político para onde e como quiser usar. Se quiser.
Empresária, advogada, evangélica, Ana Paula agrega com sua presença pessoal, com um discurso bem posicionado e concatenado, com o legado dos pais Iris e Iris.
E com o aceno da mudança. Porque, embora de família tradicional na política goiana, está hoje do outro lado do poder estabelecido em Goiás há oito anos, pelo menos. Quem está ‘encastelado’ no poder, como disseram contra seu pai em 1998, é Daniel. E Caiado.
Jacqueline, Carlos Mundin e Caymmi Henrique estão à parte, com o desafio de, primeiro, chegar na fila dos eleitores. Causar? Uma incógnita.
