Há uma pergunta que me acompanha há muito tempo. Com que régua medimos o caráter de quem pretende governar um país? E com que balança pesamos a sua conduta?
A Constituição estabelece — e corretamente — que todos gozam da presunção de inocência. Esse é um princípio indispensável do Estado de Direito. Mas presunção de inocência não significa suspensão do senso crítico, nem dispensa o cidadão de avaliar a vida pública daqueles que pedem o seu voto.
O que mais chama a atenção é outro fenômeno. Muitos eleitores são extremamente rigorosos quando analisam os adversários. Uma denúncia basta para a condenação moral. Entretanto, quando as mesmas acusações, suspeitas ou comportamentos recaem sobre o candidato de sua preferência, a régua muda de tamanho e a balança perde a precisão.
Aquilo que era imperdoável transforma-se em detalhe. Aquilo que seria prova contra um passa a ser perseguição contra outro. Assim, o julgamento deixa de ser moral para tornar-se meramente partidário.
Não se trata de um único político nem de um único partido. Esse comportamento atravessa praticamente todo o espectro político brasileiro. Enquanto discutimos quem é “menos pior”, deixamos de perguntar quem realmente reúne as qualidades que desejamos para representar a sociedade.
Honestidade, equilíbrio, respeito às instituições, decência, responsabilidade. Esses valores não deveriam mudar conforme a cor da bandeira ou o número da urna. Se condenamos determinados comportamentos, devemos condená-los em qualquer pessoa. Se os relativizarmos apenas porque praticados por quem admiramos, deixamos de defender princípios para defender pessoas.
E esse talvez seja um dos maiores problemas da democracia brasileira: não elegemos apenas governantes e elegemos exemplos.
A qualidade da política nunca será superior à qualidade moral que a sociedade estiver disposta a exigir de seus representantes. No dia em que a régua for a mesma para todos e a balança pesar com igual rigor amigos e adversários, talvez o Brasil comece a descobrir que a verdadeira renovação política não nasce nas urnas. Nasce na consciência do eleitor.
